Em sessão não competitiva “O Caso do Homem Errado” foi exibido no Festival de Gramado

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DSCN5475O filme de Camila Moraes aponta um conjunto de erros cometidos pelo aparato de segurança do estado que precisam, ainda hoje, ser objeto de reflexão tanto pela  sociedade quanto pelo poder público. (Fotos: Banco de Imagens/NaçãoZ)

Da Redação

O filme documentário em longa-metragem O Caso do Homem Errado teve sessão no setor não competitivo do 45º Festival de Cinema de Gramado, no RS, com exibição realizada no dia 21 de agosto, às 16h, no Teatro Elisabete Rosenfeld. A plateia presente a esta programação foi enriquecida por mais de 40 pessoas da comunidade negra que se deslocaram de Porto Alegre para Gramado especialmente para prestigiar o filme somando-se aos demais frequentadores do festival.

Sobre o caso do Homem Errado

No início da noite de 14 de maio de 1987 o jovem operário negro Júlio César de Melo Pinto estava no meio de uma multidão que se formara para ver a movimentação motivada por um assalto ao supermercado Dosul, no bairro Partenon, em Porto Alegre, teve um ataque de epilepsia, caiu e foi subjugado pelos policiais como sendo um dos assaltantes.

No momento da prisão, Júlio César foi fotografado vivo e consciente dentro da viatura por um profissional do Jornal Zero Hora e, meia hora mais tarde, seu corpo deu entrada no Hospital de Pronto Socorro Municipal, com marcas de tiros, sem vida, morto em situação não esclarecida enquanto estava sob o domínio da polícia militar.

Essa história que teve investigação muito dificultada e, por isso mesmo rodou o Brasil através da cobertura da imprensa e das denúncias do movimento negro e do movimento de direitos humanos desde a década de 80 é o tema do documentário em longa-metragem, da jovem diretora e jornalista gaúcha Camila Moraes, que estreou em maio deste ano na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre.

O envolvimento de Camila com o cinema

Este é o primeiro longa-metragem da diretora Camila e já nasceu com uma trajetória positivada, sem, contudo, ficar isento de esforço, empenho e competência técnica. “Ter sido concluído em maio deste ano e em agosto já participar da programação oficial do Festival de Cinema de Gramado, que tem uma historia de 45 anos, é muito significativo”, ressalta a diretora. Sua relação com o Festival de Gramado é antiga, vem desde criança. “Não faltávamos um ano, sempre na companhia de meu pai.

DSCN5481Emocionada,  Juçara Pinto, viúva de Júlio César esteve presente . (Foto: Banco de Imagens/NaçãoZ)

No início, eu corria atrás de todos os artistas com bloco e caneta para pegar autógrafos. Depois era com a máquina fotográfica com filme de 36 poses que a gente ficava controlando com quem iria tirar a foto. Depois comecei a ir com credencial de imprensa. E hoje, estou integrando a programação oficial do Festival. Vocês não podem imaginar a minha felicidade de, com meu primeiro longa-metragem já estar neste festival que faz parte da minha vida. É incrível demais”, comenta.

Os desafios para chegar ao Festival

Camila faz alguns agradecimentos, iniciando pelo apoio da comunidade negra que locou um ônibus, cada pessoa pagando a sua passagem, em plena segunda-feira, para se fazer representar no Festival prestigiando o documentário, algo que valoriza o trabalho. Lembra também Vitória Sant’Anna Silva que insistiu muito para que pautassem a equipe da TVT para ir à serra especialmente fazer a cobertura do documentário. “Se não fosse essa jovem negra que entende a causa, nós não teríamos nenhum registro da nossa participação no Festival”, explica.

Agradecendo à organização, disse que todas as suas solicitações foram atendidas. “Alteraram a matéria, me hospedaram num hotel mega chique na cidade, me chamaram no palco para falar sobre o filme e perguntaram: você quer chamar mais alguém? Quer me dar o nome? Respondi: Eu posso chamar mais pessoas no palco? Posso falar? No momento só conseguia chorar e pedi para todo mundo que veio no ônibus subir ao palco, pois são eles que fizeram esse filme ser possível e mais uma vez agradeço à TVT que fez esse registro porque senão ninguém teria visto mais de 46 pessoas negras juntas no palco do Festival de Gramado e até porque tentei fazer um “ao vivo”, mas tremi tanto que dá pra ver nada”, explicou.

No que se refere a avaliação, a diretora ressalta que infelizmente, por meio da mídia tradicional, houve pouca divulgação do filme na programação. A exibição foi em um espaço com pouca sinalização fazendo com que o público tivesse dificuldade em localizar. “Em certo momento eu tive que pedir para incluir os nossos nomes em uma matéria oficial do Festival no qual eles falavam sobre a participação das mulheres no audiovisual. Será que foi coincidência eles terem esquecido de citar as mulheres negras? O debate após a apresentação foi pouco divulgado e também não havia água na mesa e eu que fico nervosa nesses momentos foi bem complicado”, pondera.

Um trabalho com cumplicidade social

Em relação à premiação do 45º Festival de Cinema de Gramado, Camila afirmou ter ficado muito feliz pelo prêmio que Thiago Carvalhaes recebeu pelo curta A Gis e por ele ter subido ao palco com um adesivo do documentário O Caso do Homem Errado bem visível, no peito. “Estávamos representadas na premiação. Quando estamos juntos numa causa essa pequenas ações são extremamente importantes.

DSCN5474Representação da comunidade negra de Porto Alegre que foi a Gramado prestigiar a exibição. (Foto: Banco de Imagens/NaçãoZ)

Nada combinado, além do acordo pela luta. Por mais que a mídia não tenha noticiado a nossa presença, nós fomos vistos e as trocas foram incríveis. Para finalizar, só digo uma coisa. Estão ferrados! Agora que sei o quanto é bom estar nesses espaços vou lutar para estar sempre! Vamos ocupar tudo! Estamos chegando. O Caso do Homem Errado. Documentário de preto para toda a sociedade. Seguimos em frente, cansadas, mas na batalha”, conclui emocionada a diretora Camila Moraes.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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