A Feira do Livro não é mais aquela?

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IMG_5187-web-1024x682A escritora Conceição Evaristo em concorrida sessão de autógrafos. (Foto: Otávio Fortes/CRL 2017) 

Por Ronald Augusto*

No ano de 2016 os organizadores da Feira do Livro de Porto Alegre foram sacudidos por uma pergunta simples e básica: quantos e quais escritores negros participariam do evento? A pergunta veio a público na minha página do Facebook. Como se fora uma espécie de atualização de surpresa, a questão fez o sistema travar. A tal ponto que, até hoje, só houve resposta pública e articulada à minha pergunta da parte da coordenação da área infantil. A coordenação da área adulta parece ser adepta da máxima segunda a qual é melhor realizar do que falar, acontece que além de não falar (responder à pergunta) a referida coordenação naquele ano realizou pouco no que respeita à atenção que se exigia aos escritores negros.

Entretanto, como a repercussão foi grande e não obstante o questionamento se resumir a duas linhas e, além disso, com os agentes culturais ainda com a memória fresca a respeito do caso da Flip das mulheres cuja curadoria não convidou uma escritora negra sequer para participar da edição de 2016, minha indagação se transformou em um artigo solicitado e publicado primeiro em Zero Hora e em seguida aqui no Nação Z. Para a mesma edição do diário o prosador Jeferson Tenório escreveu um texto debatendo o problema do pouco espaço oferecido aos escritores negros e a correlata dificuldade de reconhecimento da produção desses autores.

O sistema não foi devidamente atualizado naquele ano. A Feira meio que em cima da hora convidou um ou outro escritor negro para mostrar serviço e ampliar a quantidade de representantes da vertente negra. Enjambraram, isto é, ofereceram espaço para o II Encontro de Escritores Negros que, até hoje me parece um encontro um tanto vago e sem um caráter definido, ademais, o coral do Cecune seguiu consolidando sua participação no evento e aconteceu o Sopapo Poético; acho que foi isso.

Este ano a coisa foi um pouco diferente. De minha parte decidi não debater mais com a coordenação da Feira, justamente por causa do silêncio teimoso e por sua disposição em tratar o assunto só nos termos que seriam do seu interesse. Jeferson Tenório tentou estabelecer um diálogo, porém a coisa parou no mesmo lugar. Por outro lado, outros escritores entraram na discussão e levaram suas propostas e demandas. O sistema parece ter ficado menos travado e algumas atualizações foram baixadas. Por esta razão a 63ª Feira do Livro apresentou um pouco mais de diversidade. Além de vários autores em cena ligados ao III Encontro de Escritores Negros, do envolvente sarau do Sopapo Poético, das performances dos slammers, é de ressaltar a participação totêmica de Wole Soyinka e a vinda de Conceição Evaristo que, por sua vez, deram um ânimo novo ao esforço de afirmação da produção literária negra perante o panorama cultural da cidade. A escrita das mulheres e a poética LGBT também tiveram espaço na Feira. Elisa Lucinda e a filósofa Djamila Ribeiro se fizerem presentes e enriqueceram os debates relativos ao respeito pela diversidade. Grupos distintos promoveram dois saraus em que a poesia de Oliveira Silveira foi o centro das atenções. Enfim, houve uma melhora.

O passo seguinte é pôr em perspectiva algumas coisas: a) trabalhar para que a Feira torne mais transparente os critérios relativos ao valor e a distribuição dos cachês; b) garantir a continuação dessa diversidade e fazer com que a presença de escritores negros seja algo naturalizado, normal; c) que essa literatura não seja festejada como uma curiosidade, nem como algo meramente temático; d) que a presença de escritores não seja usada como uma espécie um trunfo para o evento, no sentido de mostrar como os organizadores têm boa vontade e tolerância etc; e) que a situação do escritor negro num lugar de prestígio não tem que ser algo da ordem da excepcionalidade; f) que os escritores negros sejam convidados para debater com outros escritores os assuntos e temas literários mais diversos. Em suma, é preciso convencer as coordenações da Feira que a partir de agora não tem mais volta.

*Ronald Augusto é poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Confissões Aplicadas (2004), Cair de Costas (2012), Decupagens Assim (2012), Empresto do Visitante (2013), Nem raro nem claro (2015) e À Ipásia que o espera (2016). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blogspot.com  e escreve quinzenalmente no http://www.sul21.com.br/jornal/

 

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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