A negação da diáspora africana

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A intolerância religiosa e o preconceito em prol da colundria política no Rio de Janeiro – O caso da exclusão de Ivanir dos Santos;

Babalaô Ivanir dos Santos ao lado do padre Fábio de Melo em recente campanha contra a intolerância religiosa

Do Portal Viu

Em qualquer Dicionário da Língua Portuguesa, o vocábulo COLUNDRIA significa “um grupo de pessoas que agem juntas; normalmente agem pra praticar um ato ruim!”. Sim, com exclamação semântica!!! É o que está acontecendo Brasil afora na busca insana pelo poder público em cargos disputados nas urnas EM 8 DE OUTUBRO PRÓXIMO. No entanto, este meu texto vem para pontuar um caso específico do Estado do Rio de Janeiro, que me causou asco e repugnância, pelo teor de canalhice política de alguns caciques da indústria, da máfia de indicações e de fábrica de candidaturas inexplicáveis dadas suas disparidades.

Já é notório para tod@s que, nos últimos tempos, a situação política do Brasil é um motivo a mais de preocupação. Assim como a Constituição de 1988 garante aos indígenas uma estrutura jurídica e política própria, além do direito às terras que tradicionalmente ocupam, mas sempre houve pressões sobre elas porque são as de maior biodiversidade do mundo –“eles sabem cuidar muito bem delas, são os melhores guardiães porque estamos falando de seu lar”, observa Shenker– e seus recursos, os mais cobiçados. Agora a pressão é maior porque mais de 50% do Congresso brasileiro é formado por políticos anti-indígenas, há, também, e ISSO fica muito nítido para mim, outros anti-alguma coisa, coisa esta também garantida pela nossa Carta Maior.

No caso específico do Estado do Rio de Janeiro, como amostragem do Brasil Mestiço e Negro, pode-se falar da intolerância da cor, da raça, de gênero e da intolerância religiosa, esta a maior vertente de preconceito que atinge muitos que ambicionam a representação popular nas próximas eleições. Quero me centrar aqui na análise do caso Ivanir dos Santos.

Ivanir dos Santos, ou melhor, Carlos Alberto Ivanir dos Santos é um caso de intolerância religiosa e de cor, que merece nossa atenção. Tem no seu currículo Lattes, nada menos do que resumidamente podemos mostrar para chamar de brilhantismo intelectual de esforço maior pela trajetória pessoal reta, correta e de impecável teor político, gerada com sacrifício, ratificada pela honestidade: Bacharel em Pedagogia e Supervisão Escolar pela Faculdade Integrada Anglo-Americana/ Notre Dame; Doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC/UFRJ); Membro da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), do Laboratório de História das Experiências Religiosas (LHER-UFRJ) e Laboratório de Estudos de História Atlântica das sociedades coloniais pós coloniais (LEHA-UFRJ); Coordenador da Coordenadoria de Religiões Tradicionais Africanas, Afro-brasileiras, Racismo e Intolerância Religiosa (ERARIR/LHER/UFRJ); Pesquisador no Laboratório de História das Experiências Religiosas (LHER/UFRJ); Conselheiro Estratégico do Centro de Articulações de População Marginalizada (CEAP); Interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR); Conselheiro Consultivo do Cais do Valongo; Vice-presidente da América Latina no Conselho Internacional da Ancient Religion Societies of African Descendants International Council (ARSADIC), Nigéria. Tem experiência nas seguintes áreas: Educação Étnico-racial e questões africanas; Direitos Humanos e Cidadania; Relações Internacionais; Religiões tradicionais da África Ocidental e Afro-brasileiras.

Conhecido pela luta a favor dos direitos humanos, valorizou a diáspora africana, berço biológico, étnico e de fronteira ideológica na sua luta política pelas diferenças. Defensor da igualdade e da tolerância lato-sensu, escreveu sua tese de doutoramento, cujo título é “Marchar não é Caminhar – Interfaces políticas e sociais das religiões de matrizes africanas no Rio de Janeiro contra os processos de Intolerância Religiosa”, na UFRJ, berço do intelecto acadêmico fluminense, e cujo orientador foi Flávio dos Santos Gomes e co-orientador André Chevitarese. Sua Pesquisa contempla História das Experiências Religiosas; Resistências; Intolerância religiosa; Hegemonia e Contra-hegemonia; Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa; Marcha para Jesus. Grande área do conhecimento: Ciências Humanas, com foco na Educação.

Que riqueza, meu Deus! Pelo clamor a Olorum, que riqueza e entrega, que clamor à justiça e que mão e cabeça abençoados por Oxalá! Hoje, quarta-feira de Xangô, clamo por justiça!!!!! Oriki!

Ilustração

 

Pois bem: heteróclito, Ivanir procura unir, agregar, pela dialogicidade na fé das religiões, e se coloca na missão de coesão religiosa pela luta contra qualquer verve de intolerância: “O conselheiro estratégico do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP) e interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), babalaô Ivanir dos Santos, esteve, no dia 23 de novembro, na Igreja Evangélica A Voz de Deus, em Jacarepaguá, convidado para uma homenagem a personalidades que ajudam o Brasil na luta contra o racismo. Os membros comemoravam a Festa da África, e, durante o culto, exaltaram a cultura do continente com danças, apresentações e vestimentas. Além dele, Benedita da Silva, reverendo Marcos Amaral, entre outros foram citados como notáveis que contribuem por um País sem racismo.”

No berço da “Macumba”, vem o preconceito. Eu, um devoto do Candomblé Queto, o senti quando, nos anos 70, aos 22 anos, cursava Arquitetura na Universidade Santa Úrsula (RJ) e decidi ser (assim quis o Ifá) e fui raspado por Ganganvolê de Omulu, na Bahia, afilhado de Agamadê, filho de Oxóssi, Okearô!, em Salvador, nossa primeira capital e berço das raízes brasileiras diaspóricas e mais puras. Sendo a Santa Úrsula um berço de Judeus novos brasileiros, sofri eu mesmo e ainda sofro o preconceito da intolerância. Intolerância que aumentou quando fui eleito o primeiro presidente da ABEH (Associação Brasileira de Estudos da Homocultura) e realizei na UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) o I Congresso da ABEH – Homocultura e Cidadania, com os olhares vesgos na minha direção. Vesgos de tanto preconceito. Sim, é essa a palavra, junto à colundria caminha o preconceito, seja ele contra o que for.

Octávio Leite (PSDB) e Eduardo Paes (DEM). (Foto: Reprodução)

 

Em prol da defesa contra todas as intolerâncias, Ivanir seria o candidato do PPS ao senado pelo Rio de Janeiro. Contudo, nesse momento em que o Brasil anda para trás e ainda enfrenta o preconceito racial e a intolerância religiosa, o balabaô Ivanir dos Santos é banido da disputa por uma vaga no Senado.

Filiado ao PPS, sua exclusão se deu em função de uma aliança do partido com Eduardo Paes (DEM), ex-parceiro de Sérgio Cabral, que se colundria ao vereador César Maia (o que existe de mais atrasado e arcaico no meio-ambiente político carioca) e o deputado tucano Octávio Leite. Trocaram uma candidatura que representa a democracia racial e religiosa por Aspásia Camargo, uma ex-integrante do governo do neopetencostal Marcelo Crivella. Ou seja, descaradamente se fez a orgia política no berço dos incautos. A colundria é tucana e DEMoníaca. Oh, my God!!!

Com isso, a chapa tucano-cabralista entra em cena com a marca da intolerância racial e religiosa, algo totalmente contrário ao espírito de criatividade e liberdade da população carioca. Os tucanos assumem essa canalhice? E os DEMos? Azar? Dêem comida ao santo, cariocas e fluminenses!

Brasil, iluminai vossos terreiros…!!!”, no haikai de Waldo Motta, em Bundo[1] e outros poemas (Campinas: Edunicamp, 1996):

NO CU

DE EXU

A LUZ

QUE EXU COMANDE ESSA BAGUNÇA RUMO AO FRACASSO QUE MERECE! XÔ CRIVELLA, XÔ CÉSAR MAIA, XÔ ASPÁSIA!

__________________

[1]substantivo masculino

1.

ETNOLOGIA

m.q. OVIMBUNDO.

2.

impr. designação genérica de negro de Angola.

 

 

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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