BID: Negros são maioria no empreendedorismo, mas não colhem louros de serem o próprio patrão

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Segundo especialista em Desenvolvimento Social, negros têm menor acesso a crédito bancário e poucos deles empregam ao menos um funcionário.

http-o.aolcdn.comhssstoragemidas38ab316835c573cac08cf91c93481040205263655Luana+Marques+Garcia+1_Inova+Capital_BID_Crdito+DivulgaoLuana Marques é especialista em Desenvolvimento Social da Divisão de Gênero e Diversidade do BID e lidera o Inova Capital, programa que está impulsionando negócios de afro-brasileiros. 

Por Luiza Bellini, do Huffpostbrasil

Eles são maioria da população e dos empreendedores brasileiros. Mas não fazem parte do seleto grupo que colhe os louros de ser o próprio patrão.

Ser negro no Brasil, além de ter mais chances de ser morto ainda na juventude, ter menor acesso à educação e e ganhar proporcionalmente menos que os brancos, também representa ter menores oportunidades no mundo dos negócios.

Entre 2002 e 2012, o número de negros à frente de empreendimentos cresceu 27%, enquanto o número de empreendedores brancos reduziu para 2%. Hoje, 51% dos empreendedores brasileiros são negros, mas apenas 29% deles empregam ao menos uma pessoa.
“Hoje, em dia, existem mais ou menos três milhões de empregadores, mas entre eles, menos de um milhão são negros, ou seja, apenas um terço. Porém, os negros são maioria entre os empreendedores”, disse ao HuffPost Brasil Luana Marques, especialista em Desenvolvimento Social da Divisão de Gênero e Diversidade do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).
Segundo a especialista, os afro-brasileiros enfrentam não só barreiras cumulativas devido à História brasileira, mas ainda o racismo que persiste na própria sociedade. Uma pesquisa realizada em 2010 pelo Procon-SP (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor de São Paulo) chamada “Discriminação Racial nas Relações de Consumo”revelou que mais da metade (56,4%) dos entrevistados afirmou ter presenciado atitude discriminatória de raça ao comprar um produto ou contratar um serviço. Entres as instituições em que esses brasileiros mais se sentiam discriminados, estavam bancos, lojas e shoppings.
É neste contexto que entra em cena o Inova Capital, programa de apoio a empreendedores afro-brasileiros criado em 2015 pelo BID para identificar e promover os negócios deles. Liderado por Marques em Washington, nos Estados Unidos, o projeto quer preparar os empreendedores negros e criar estratégias para promover investimento público e privado direcionados a apoiá-los.

O projeto teve investimentos de US$ 500 mil para, até o final deste ano, preparar 33 empresários e empresárias negras de todas as partes do Brasil para apresentar seus negócios a investidores. Nesta quarta-feira (17), Marques estará em São Paulo em um evento promovido pelo BID com 16 especialistas e investidores brasileiros e americanos para discutir a promoção de negócios de alto impacto social no Brasil.

Ao HuffPost Brasil, a especialista do banco falou sobre os objetivos do projeto, as dificuldades que os negros ainda enfrentam para empreender no Brasil e como este cenário está mudando aos poucos. Leia os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: Qual foi principal objetivo do BID ao promover a Inova Capital?

Luana Marques: Essa iniciativa tem como objetivo identificar uma carteira de projetos de empreendedores afro-brasileiros, que seriam projetos de alto potencial de crescimento com impacto social que pudéssemos visibilizar no mercado de capitais no Brasil e desenvolver, ao mesmo tempo, uma metodologia de prospecção de negócios liderados por afrodescendentes.

Junto com nossos parceiros, como Sebrae, Endeavor, Anjos do Brasil, Secretaria Municipal de Igualdade Racial de São Paulo, entre outras organizações, a gente conseguiu desenvolver um modelo de aceleração.

Então, por um lado, a Inova Capital tem esse objetivo, de desenvolver modelo de aceleração, prospecção, visibilização e conexão dos empreendedores afro-brasileiros com o capital de investimento, e por outro lado, gerar dados e informações sobre o mercado consumidor afro-brasileiro – que a gente desconhece. Sabemos que [o mercado de consumidores negros no Brasil] tem um potencial gigante, mas a gente desconhece as preferências, o que consome e como consome.

Vamos gerar dados através de uma pesquisa representativa nacionalmente sobre os hábitos de consumo, e a gente está coletando dados tanto de consumidores negros quanto consumidores de outras etnias para poder traçar perfil e ver se tem diferenças.

O programa, iniciado em 2015, ocorre até o final de 2017. Em que pé que ele está agora?

Os resultados até o momento foram justamente a criação e consolidação de uma estratégia de prospecção de afro-empreendedores de alto potencial de crescimento e o desenvolvimento e aplicação dessa metodologia de capacitação, que é integral, inclusiva, tem pertinência cultural.

A gente completou o ciclo de consolidação de um modelo de aceleração e a gente justamente está organizando um evento neste 17 de maio para ter uma conversa com especialistas de investimentos sobre mecanismos e instrumentos mais adequados para esses empreendedores. A conversa é para mostrar a realidade brasileira e debater as possibilidades para mudar algumas dificuldades que os afro-empreendedores enfrentam no Brasil. Como o mercado de capitais pode ser mais inclusivo?

A gente está trabalhando bastante para concluir a pesquisa nacional sobre afro-consumidores, que deve ser lançada no primeiro trimestre do ano que vem.

Por que ainda é preciso ter todo esse esforço para alavancar os negócios desses empreendedores?

O BID tem trabalhado na apoio empresarial há muitos anos, então o papel desse programa é pensar: como a gente faz para acelerar o desenvolvimento dos empreendimentos de negros, uma vez que, no Brasil, a taxa de empreendedores negros vem crescendo mais alta do que qualquer outro segmento demográfico, o rendimento desses empreendedores também vem crescendo em uma taxa mais alta do que qualquer outro empreendedor? Mas a gente sabe que ainda sim existe uma baixa representação deles entre os empregadores.

Hoje, existem mais ou menos três milhões de empregadores, ou seja, empresários que empregam ao menos uma pessoa, mas entre esses, menos de um milhão são negros – sendo que eles são mais que maioria entre os empreendedores no Brasil. Mas quando olha só empregadores, eles são menos de um terço.

Nesse contexto, precisamos saber ao certo quais são as barreiras que eles enfrentam, entendê-las, e assim, podemos atuar, através de políticas públicas ou investimentos no setor privado, e dar condições para todos os empreendedores afro-brasileiros, para eles desenvolverem bons negócios e impactar assim a economia brasileira.

Como esse projeto pode impactar a economia brasileira?

A população negra no Brasil são mais de 100 milhões de pessoas. Cerca de 80 milhões de consumidores e cerca de 11 milhões de empreendedores, entre eles os autônomos. Mas quando você olha dentro destes 11 milhões, apenas um milhão deles estão gerando emprego hoje em dia. Se conseguirmos acabar com as barreiras e encontrar os fatores de sucesso, e que estes fatores ajudem esses empreendedores a deslancharem, é um bom investimento, seja público, seja privado. Porque a ideia, no final das contas, é criar empregos.

Apesar de ser maioria, a população negra ainda tem pouca representatividade entre os que empregam no Brasil.Luana Marques, do BID

Quais são as barreiras que empreendedores negros enfrentam?

Grande parte vem pela questão social, o que está muito bem documentado. Hoje, os empreendedores negros, por toda a exclusão histórica que já conhecemos, tem menor acesso à educação de qualidade e até à cultura empreendedora.

Os negros sempre foram empreendedores, sempre contribuíram grandemente para a economia brasileira, mas sempre tiveram uma exclusão em termos de ativos (financeiros). As famílias negras não têm o mesmo nível de ativos que família brancas, historicamente falando. A questão do acesso à educação, só nos últimos dez anos que vimos um incremento rápido do acesso à educação, quando cresceu quatro vezes a participação dos negros no ensino superior.

As mudanças sociais estão ocorrendo, e as econômicas também. Acreditamos que também podemos contribuir para diminuir essas barreiras.

Mas se queremos acelerar esse empoderamento, precisamos saber muito bem quais são as barreiras para os empreendedores negros. O Inova Capital quer enfrentar essa desigualdade, mas como fazer isso? Quais fatores que um programa de aceleração deve ter para acabar com as barreiras? Precisamos, primeiro, identificá-las para combatê-las, dando aos empreendedores negros o que eles precisam.

O racismo impacta de que forma em uma empresa liderada por um negro?

O acesso a financiamento e capacidades de gestão, acredito que sem dúvida são alguns dos principais fatores que impedem os empreendedores negros.

Eles mesmos, durante o programa, reportaram que enfrentam discriminação no acesso a capital, na entrada de redes de negócios, de se associar. Ou seja, eles sentem discriminação financeira e, muitas vezes, se veem obrigados a procurar métodos alternativos, através de amigos e família ou mesmo através de financiamentos de terceiros que impõem taxas abusivas. Tudo isso são barreiras cumulativas.

Uma demanda por parte dos próprios empreendedores dentro do cronograma do programa foi discutir o racismo e discriminação no acesso ao capital. Os próprios empreendedores pediram um módulo disto, de debater entre eles mesmos para poder enfrentar as próprias barreiras.

No grupo, temos startups, outras empresas já estão em operação e algumas delas empregam muitas pessoas. Escolhemos empresas com diferentes estágios de maturação.

Você tem percebido uma diminuição nas barreiras?

Sim, como citei os dados decrescimento no rendimento, na escolaridade e no número de empreendedores no Brasil. Aqui, o tema é entender como esses ecossistemas empresariais – seja de São Paulo, seja de Salvador – podem ser mais inclusivos com relação ao empreendedor afro. Entender o que eles precisam em cada ecossistema, investir nas empresas lideradas por negros que têm alto impacto e que vão poder gerar empregos.

Ou seja: possibilitar que essas empresas tenham ferramentas e recursos para expandir os negócios, tal qual qualquer outro empreendimento no mesmo nível de maturidade.

A gente está observando um progresso em termos de números de empreendedores e empregadores, e nos rendimentos. A gente vê positivamente a tendência de crescimento nos últimos dez anos.

O que o setor público e o privado podem fazer para ajudar a tornar o ecossistema empresarial mais igualitário?

Acredito que o evento pode trazer essa resposta. Vão participar bancos públicos, bancos privados, empreendedores, investidores, educadores que vão debater e citar quais seriam essas iniciativas que poderiam acelerar o desenvolvimento de empresas com impacto social.

Queremos conectar os recursos que já existem e canalizar eles para quem mais precisa. Para quem está excluído desses recursos.

Por outro lado, precisamos discutir a questão do acesso a capital e financiamento com quem é do mercado de capitais. A gente ainda não teve essa discussão e será no evento que teremos essa resposta.

O BID também está atento às mulheres negras empreendedoras?

No Inova Capital, mais da metade dos empreendedores são mulheres negras. Nós, da Divisão de Gênero e Diversidade do banco, temos uma agenda toda voltada para o desenvolvimento de empoderamento econômico das mulheres. Quando se olha os dados de toda a região, vemos uma exclusão das mulheres negras e indígenas.

Com certeza, têm estado no centro dos desenhos do programa e a gente vai continuar trabalhando nesse sentido: de investir na autonomia e no desenvolvimento dos empreendimentos das mulheres negras do Brasil.

Uma maneira de tentar entender o problema é priorizar qual o fator que pesa mais para a exclusão: combater o racismo ou a desigualdade de gênero. Outra maneira de ver é atacar os dois problemas ao mesmo tempo, como a exclusão racial – que pode ser sistemática por capacidades de gestão, ou devido ao desconhecimento dos investidores sobre o potencial dos consumidores negros no Brasil – e medir o quanto esses fatores pesam. Mas, ao mesmo tempo, as mulheres enfrentam uma barreira adicional que é o tempo.

O tempo das mulheres, ou seja, o que a gente chama de custo de oportunidade de sair de casa e fazer um curso, sendo que ela é responsável por tantas outras tarefas (que é a norma de gênero da sociedade, seja no Brasil e na América Latina). As mulheres têm uma escassez de tempo que não pode ser comparada com igualdade com os homens. Então, você não pode fazer um programa empreendedor priorizando só o tema racial, porque também tem a questão de gênero. Temos que priorizar os dois, que são problemas importantíssimos.

Quais são os benefícios de promover a diversidade para a economia brasileira?

Quando tem empreendedores com ferramentas suficientes para poder fazer seu negócio crescer e gerar emprego, a gente vê um cenário de ganhos para toda a sociedade. Teremos uma economia mais dinâmica, que gera emprego, e assim, gera produto nacional, e enfrenta suas desigualdades históricas. São programas dessa natureza que realmente fazem a agenda de desenvolvimento avançar, que contribuem para isso.

Este projeto será usado como referência para outros países da América Latina que querem promover o empreendedorismo afro e indígena. O Brasil tem a maior população negra fora da África, então é excelente começar esse programa no Brasil e usá-lo como referência na América Latina.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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