Clubes negros: espaços de identidade e resistência lutam para se manter abertos e relevantes

Os tempos são de dificuldades para os clubes sociais negros como o Floresta Aurora, o mais antigo do Estado. (Foto: Omar Freitas/Parêntese)

Por Patricia Lima, do Matinal News

Existentes no Rio Grande do Sul desde antes da abolição da escravidão, os clubes sociais negros tentam manter a relevância para a comunidade que os criou

Foi em uma noite de 1971, em um clube social negro do Rio Grande do Sul e pelas mãos do poeta Oliveira Silveira, que se plantou a semente para a criação, 40 anos depois, do Dia Nacional da Consciência Negra.

Entidades formadas a partir da segunda metade do século 19 em todo país, essas agremiações foram erguidas para reunir a comunidade afrodescendente, proibida de entrar nos espaços tradicionais das cidades. Tornaram-se muito populares ainda nas primeiras décadas do século 20 por sua programação, abundante em bailes, festas e concursos de beleza.

Mas, à medida em que os negros começaram a circular mais livremente por todos os espaços da sociedade, inclusive pelos clubes que ofereciam uma infraestrutura de lazer mais atraente, o público nas sociedades negras minguou. Filha do poeta, Naiara Oliveira lamenta que hoje, enquanto o movimento negro toma as ruas de cidades do mundo inteiro, as entidades gaúchas lutem para se manterem de pé.

Para a família Oliveira, o clube era sagrado. Quando chegou a Porto Alegre, vindo de Rosário, Oliveira Silveira, conheceu uma mulher apaixonada pelos clubes sociais de Porto Alegre. Assim, pelas mãos de Julieta, ele passou a frequentar o Floresta Aurora, o Prontidão e o Marcílio Dias, os mais prestigiados da Capital. Foi no Marcílio Dias, aliás, que Oliveira e Julieta se casaram.

Naiara viu o pai fazer campanhas para recuperar os clubes, combalidos não só pela falta de sócios, mas por administrações pouco competentes. Da mãe, ouvia que o avô, também frequentador, tinha no clube um esteio para o fortalecimento da comunidade preta. “Cresci frequentando os clubes, não perdia um baile de carnaval. E tinha os bailes sociais, os jantares, os chás. Meu filho também frequentou. Era um espaço muito importante para a família”.

Os clubes negros fazem parte da história da família de Naiara Oliveira. (Foto: Omar Freitas/Parêntese)

De dentro dos clubes, Oliveira Silveira impulsionou o movimento negro no Rio Grande do Sul nos anos 1970. Foi nessa época que ele fundou o Grupo Palmares, voltado para o estudo de artes, literatura e teatro com temática negra. Na noite de 20 de novembro de 1971, o poeta organizou no salão do Marcílio Dias, um dos mais populares clubes sociais negros de Porto Alegre na época, um ato em oposição às comemorações do dia 13 de Maio, que marca a abolição. A data atribuída à morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares entraria no calendário nacional em 2011 como o Dia da Nacional Consciência Negra.

Apaixonado pelos clubes, Oliveira inaugurou o movimento clubista, que culminou, já depois de sua morte, em 2009, no reconhecimento de mais de 150 clubes sociais negros no Brasil por parte do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Seu ativismo foi fundamental para revigorar muitas sociedades, que passaram a abrigar debates, mostras e a sediar ações voltadas à valorização do povo preto. Em muitos cantos do Estado, esses locais seguem promovendo festas e eventos sociais, mas também abriram espaço para rodas de conversa, grupos de pesquisa e projetos culturais – como ocorre em clubes como o 13 de Maio, em Piratini, e o próprio Floresta Aurora, o mais antigo do Estado, localizado em Porto Alegre.

O poeta Oliveira Silveira casou-se no Marcílio Dias com Julieta, que lhe apresentou os clubes negros na Capital. (Foto: Omar Freitas/Parêntese)

Segundo Naiara, que é secretária geral da Associação Negra de Cultura, os clubes não têm mais o papel que tinham no passado, que era de abrigar exclusivamente a comunidade negra, alijada de tantos outros lugares. “Lutamos para ocupar todos os espaços, não estamos mais restritos aos clubes”. Isso não significa, porém, que os locais dedicados à cultura negra não sejam mais necessários – pelo contrário. As entidades precisam se reinventar para atender os anseios dos sócios, defende Naiara. “A comunidade perde sem esses espaços. Qual o nosso lugar na cidade? Onde as pessoas podem achar o acervo do meu pai? Onde está a história dos negros gaúchos? Os clubes fazem parte desse contexto de fragilização. Temos que lutar por eles como mais um espaço que é nosso”, afirma.

Fora dos clubes, alguns esforços têm sido feitos para recuperar a memória e reunir a extensa obra de Oliveira Silveira. Uma das mais notáveis foi a coletânea Oliveira Silveira – Obra Reunida, organizada pelo poeta e pesquisador Ronald Augusto e publicada pelo Instituto Estadual do Livro em 2012. No ano passado, a Câmara de Porto Alegre aprovou uma emenda impositiva proposta pelo vereador Engenheiro Comasseto (PT) no valor de R$ 10 mil, destinados à realização de um concurso para elaborar o projeto de uma escultura em homenagem ao escritor. Segundo a assessoria do vereador, porém, o projeto está parado, sem previsão de liberação dos recursos previstos na emenda pela prefeitura. Em função da situação de emergência decretada em razão da pandemia, o Executivo dá prioridade aos projetos relacionados à emergência sanitária na cidade.

A derrocada 

Assim como Naiara, o jornalista Rogério dos Santos também lamenta o enfraquecimento dos clubes. Ativista do movimento negro, ele cresceu participando intensamente da programação da Sociedade Floresta Montenegrina, fundada em 1913, em Montenegro, e hoje fechada. Na adolescência, os sábados eram os dias de “ir ao clube tomar um refrigerante”, como recomendava o pai. Chegando lá, Santos encontrava os amigos da sua idade, que conviviam com os mais velhos que também estavam ali conversando e jogando cartas e dominó. A convivência de muitas gerações proporcionada pelos clubes no passado era a ferramenta mais eficiente para a transmissão da cultura oral e das histórias do povo negro, afirma. “Os clubes são essenciais para o fortalecimento do debate sobre preconceito, racismo e sobre a conquista do lugar do negro na história. São os locais onde se passa os costumes para as novas gerações. A extinção das sociedades negras enfraquece essa luta”, afirma.

O início da derrocada dos clubes teria ocorrido em meados dos anos 1980, quando a segregação racial deixou de parecer razoável à direção dos clubes de brancos, que passaram a aceitar sócios de todas as etnias. Com recursos mais atrativos aos sócios, como sedes campestres, esportes e piscinas, outras entidades seduziam as famílias que queriam mais do que somente a programação festiva. Sediados em prédios próprios, via de regra nas áreas centrais das cidades, os clubes sociais negros foram deixando de ter a estrutura ampla desejada pela juventude.

Só que os clubes eram muito mais do que apenas espaços de diversão. Conta-se que, em muitos deles, os fundadores, já livres e inseridos na dinâmica do trabalho remunerado nas cidades, cotizavam os recursos necessários para a compra da liberdade de amigos e parentes, que passavam a fazer parte daquela fraternidade. As cotas também financiavam o sepultamento digno dos mortos ou o tratamento de doentes, como lembra a engenheira civil Margarida Ramos, a Guida, que passou infância e adolescência no Clube Floresta Aurora, na Capital. Ainda pequena, ouvia os mais velhos contarem que o clube nasceu a partir da irmandade dos negros que construíram a Igreja do Rosário. Os bailes e uma grande horta cultivada no terreno da Barros Cassal serviam para levantar os recursos necessários.

Entre tantas memórias que Guida tem do Floresta Aurora, está o baile de debutantes. (Foto: Omar Freitas/Parêntese)

Turmas de alfabetização também eram organizadas para os adultos. Hoje com 67 anos, Guida lembra de ouvir do pai que o estudo era um meio de subverter a condição subalterna reservada aos negros, e foi por incentivo dele que fez faculdade e pós-graduação. Segundo ela, somente depois da década de 1960 é que o Floresta Aurora começou, lentamente, a abrir espaço para o debate sobre os valores da comunidade negra.

Memória e resistência

Discípula e amiga do poeta Oliveira Silveira, a professora da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) Giane Vargas encampou a recuperação desses espaços. Ao longo dos anos 2000, junto com o poeta, ela mapeou 57 clubes sociais negros em quase todos os estados brasileiros. Mergulhou na história desses locais e os definiu, no título de seu trabalho, como “lugares de memória, resistência negra, patrimônio e potencial”. Antes disso, quando ainda estudava Museologia na Universidade Federal de Santa Maria, passava com frequência pelo prédio depredado e abandonado do Clube 13 de Maio, pelo qual futuramente Vargas trabalharia para revitalizar e transformar no museu comunitário, que é hoje.

Giane Vargas, professora na Unipampa. (Foto: Acervo pessoal)

Antes mesmo de defender sua dissertação, em 2010, passou a articular com entidades civis e com o governo federal políticas para o mapeamento e a preservação desses espaços de memória que já viviam, na época, um intenso processo de esquecimento. “Nossa história está em vários espaços, inclusive dentro dos clubes. E mesmo que as paredes caiam, eles seguem existindo oralmente, na transmissão da história e das memórias”, explica Vargas, que trabalhou junto à extinta Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (Seppir) para a pesquisa e valorização desses clubes.

Seu trabalho em favor do reconhecimento dessas agremiações como bens culturais e históricos se estendeu até 2011. No ano seguinte, partiu para um doutorado-sanduíche em Portugal, reduzindo aos poucos sua dedicação à causa. A semente, no entanto, estava plantada.

Em 2014, em parceria com a Seppir e com a Fundação Palmares, o Iphan decidiu liderar um amplo mapeamento desses clubes pelo Brasil, com base na pesquisa inicial de Vargas. Em 2018, o órgão lançou um relatório identificando mais de 150 clubes sociais negros em todo o Brasil, o que abriu o caminho para que eles fossem reconhecidos como patrimônio nacional imaterial. Apesar do relatório, o Iphan declarou que é impossível fazer o registro desses clubes como patrimônio em função da falta de informação sobre eles – o que, na prática, impossibilita o seu tombamento. “Por que é tão fácil tombar uma igreja ou a casa de uma personalidade conhecida? E por que é tão difícil reconhecer mais de uma centena de espaços negros que fazem parte da cultura brasileira?”, questiona a pesquisadora.

Hoje é no ensino superior que a professora Giane Vargas se dedica a transmitir a cultura negra. Desde seu primeiro semestre de licenciatura no curso de História, criou a disciplina de relações étnico-raciais, obrigatória para todos os alunos. Também ministra cadeiras optativas sobre Clubes Sociais Negros e sobre Imprensa Negra. Tudo para, segundo ela, minar por dentro a estrutura racista da sociedade, que se perpetua desde a escravidão. “Um dos primeiros debates que fazemos é sobre a natureza dos clubes, que reflete a organização do povo negro. Eles surgiram para o povo se organizar como comunidade negra”, completa.

Giane Vargas mapeou clubes sociais negros em todo o Brasil. (Foto: Acervo pessoal)

Proteger o patrimônio dos clubes e manter sua relevância tem sido um desafio para as lideranças. Uma das saídas, pelo menos em Livramento, foi recorrer ao Ministério Público. Em 2016, por exemplo, uma decisão judicial resgatou o Farroupilha, erguido em 1935 em um velho casarão no centro do município. Por iniciativa do MP, a Justiça determinou ao Iphan o tombamento do prédio do clube social negro que embalou a cidade ao longo do século 20 com suas batucadas, bailes, jantares e sua animadíssima programação de carnaval. Interditado por oferecer risco de incêndio e com a promessa de ser leiloado para sanar dívidas trabalhistas, o Farroupilha estava fechado desde 2014. Protegida pelo Iphan, a sede do clube se tornou um dos raros casos de tombamento desse tipo de edificação no país. Arrendado por um empresário local, ganhou cores novas na fachada e hoje abriga bailões e jantares – a comunidade negra, porém, não o frequenta como no passado.

A sentença, proferida pelo juiz Lademiro Dors Filho, lembra que “o Clube Farroupilha representa para a comunidade local um marco de resistência e afirmação da raça negra junto à sociedade santanense, revelando-se como uma instituição que foi criada para assegurar àquela parcela expressiva de cidadãos alijados da participação integral nos diversos eventos sociais da época”.

O professor de língua portuguesa e literatura João Batista Conceição confirma o que o juiz Lademiro Filho escreveu na sentença que deu uma nova vida ao Farroupilha. Ainda jovem, ele encontrou no clube o espaço que não tinha na sociedade. “Quando comecei a frequentar, o clube era social mesmo, com um carnaval fortíssimo, bailes, eventos. Mas sem esse lado de organização da comunidade, de debate. Quando fundei o Movimento Negro [em Santana do Livramento], nos anos 1990, os associados se assustaram”, relembra. Hoje, Batista comemora o tombamento do prédio e diz que o arrendamento permitiu algumas reformas necessárias. Mas confessa que não frequenta mais o clube. A programação esporádica que havia antes da pandemia não agradava a comunidade negra. Muitos, segundo ele, aguardam o fim do contrato com o arrendatário – branco – para reassumir o Farroupilha.

A Sociedade Recreativa e Cultural 13 de Maio, em Piratini, fundada em 1962, é uma das poucas que se mantém ativa, apesar das dificuldades. Os eventos, o aluguel do salão e a mensalidade dos sócios garantem a sobrevivência do clube. O velho casarão que o abriga, diz-se, pertenceu a uma família negra alforriada. Hoje precisa de restauro e, para isso, corre na Justiça um pedido de tombamento. A assistente social Eva Pinheiro morava no interior do município e guarda na memória a alegria de poder visitar o clube nas idas da família ao centro da cidade. Na juventude, ela e a irmã aproveitaram tudo que o clube oferecia. Quando a família finalmente foi morar no perímetro urbano de Piratini, os pais passaram a integrar a diretoria, para a felicidade das meninas. Pinheiro chegou a ser princesa. “Brancos não entravam de jeito nenhum. Só se fizessem parte da banda. Mas não podíamos dançar com eles”, relembra. Em sua dissertação de mestrado, Pinheiro estudou a origem do clube e a sua importância para o surgimento do movimento negro na cidade. Hoje ela faz parte da diretoria e trabalha para, além das festas, promover debates, eventos culturais e de valorização da cultura negra.

O mais antigo

Localizado no Belém Velho, Floresta Aurora oferece aos 2 mil sócios área para esportes, salão de festas, quiosques e piscina. (Foto: Omar Freitas/Parêntese)

O Floresta Aurora é o mais antigo do Rio Grande do Sul e um dos mais antigos do país, fundado em 1872. Depois dele vieram outros, em todos os cantos do Estado e do país. Muitos fecharam, como foi o caso do 13 de Maio, em Santa Maria, que depois de clube, fundado em 1903 por ferroviários, foi museu. Outros foram deslocados de seus sítios originais, como o Floresta Aurora, que ficava na região central da Capital, na antiga rua da Aurora, atual Barros Cassal, esquina com a rua da Floresta, hoje Cristóvão Colombo. A especulação imobiliária foi empurrando o clube para outros endereços: Cidade Baixa, depois Cristal e, no final dos anos 1990, mais uma mudança, dessa vez para o bairro Pedra Redonda. Em 2013, nova transferência em função dos custos, agora para o Belém Velho, onde está até hoje.

Lá ampliou a oferta de entretenimento. Hoje, o clube tem espaço para esportes, salão de festas, quiosques e piscina. Antes da pandemia, bailes, almoços e jantares, além de eventos particulares, eram as principais atividades da programação. O ponto alto do calendário é o Carnaval. O Bloco Os Intocáveis, formado dentro do Floresta, ensaia na sede do clube e desfila na praia, em Osório.

Os eventos garantem a manutenção financeira do clube, que já não se sustenta mais com as mensalidades dos sócios. Dos mais de 2 mil portadores de títulos, somente cerca de 60 pagam a mensalidade regularmente. Além da programação social, o Departamento Cultural luta para manter o interesse do público nas pautas voltadas à história e à preservação da cultura negra. Palestras, debates, exposições e cursos são promovidos na sede e em outros locais da cidade – um dos últimos foi uma oficina de gastronomia de origem africana. Nem sempre, porém, as atividades atraem o público. “Nosso clube sempre foi familiar, é uma coisa hereditária. Meu avô frequentava, meu pai, agora eu. E tem sido difícil despertar o interesse dos jovens pelo clube”, afirma Sérgio Fonseca, atual diretor financeiro e ex-presidente do Floresta Aurora.

A pandemia fez tudo parar. Para atender os sócios, dois diretores se revezam no telefone. E acompanham uma obra que, durante a quarentena, está sendo feita para renovar a pintura e a estrutura do salão de festas. Quando for possível, uma eleição vai escolher a nova diretoria, que terá pela frente a missão de atrair os jovens e o mesmo desafio enfrentado pelos pioneiros fundadores do clube em 1872: valorizar a cultura e história do povo negro.

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