Comissão de Trabalho acelera a revitalização da Sociedade Recreativa União Operária de Criciúma SC

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Clube social negro fundado há mais de 80 anos está com sua sede fechada e em precário estado de conservação. Associados e organizações do movimento negro da região mobilizam-se para a retomada das obras de restauração

 Projeto arquitetônico da nova sede do clube, área esportiva e de lazer. (Ilustração: Michele dos Santos Maciel)

Da Redação

Sendo um dos principais espaços de sociabilidade da comunidade negra local, a Sociedade Recreativa, Esportiva e Cultural União Operária, de Criciúma, município da região sul do estado de Santa Catarina teve papel fundamental para a população negra da localidade, como lugar de resistência e afirmação do pertencimento étnico-cultural negro, garantindo espaço para grandes encontros, bailes, festas, blocos carnavalescos e atividades esportivas, promovidos por várias gerações.

Fundada em 14 de abril de 1937, por trabalhadores (as) e operários das minas dessa região carbonífera, a sociedade completou 80 anos em 2017, com sua história incorporada à história da cidade. Também denominada “Clube”, como foi usual na história deste segmento social no Brasil, teve suas atividades paralisadas em 2005, devido à escassez de recursos financeiros principalmente para a manutenção do prédio. Em 2015, um grupo composto por ex-sócios, organizações culturais negras e simpatizantes resolveu retomar as atividades da entidade.  No ano seguinte foi então criada uma Comissão de Revitalização, presidida por Dejair Fernandes dos Passos, 34 anos, profissional ceramista, representante, nesta comissão, do Coletivo Chega de Racismo; a vice-presidência ficou com Renato Costa, 51 anos, representante da Eneb – Entidades Negras Batistas e Cíntia dos Santos ficou responsável pelo GT de Comunicação.  Foi dado início à campanha “Viva União Operária” buscando parcerias com diferentes setores da sociedade, como a Prefeitura Municipal de Criciúma e empresas privadas que vêm apoiando a iniciativa, além do envolvimento da comunidade na promoção de eventos cuja arrecadação se destina ao custeio das despesas de reconstrução e manutenção.

O jovem Coordenador da Comissão de Revitalização Dejair Fernandes, pretende em breve entregar o prédio com nova estrutura para a comunidade. (Foto: ACR)

Assim como diversos clubes sociais e associações espalhados pelo país, a Sociedade União Operária passou por um período de declínio que resultou no seu fechamento repentino em 2005, sem um processo de transição ou eleição de novas diretorias que se dispusessem a tentar administrar a entidade e manter o seu funcionamento. O resultado disso foi o completo abandono da estrutura, tanto física quanto administrativa. O espaço físico passou a ser usado como dormitório por andarilhos e pessoas em busca de um teto para não dormir ao relento. Essa situação perdurou por vários anos, mas o clube não deixou de ser pauta nas rodas de conversas das famílias negras que contavam as histórias com um misto de tristeza e saudosismo, por ver o seu patrimônio se tornar alvo de especulações imobiliárias e outros interesses alheios à comunidade negra, relata Dejair Fernandes Passos.

Espaço de convergência da comunidade

O clube recebia um público local e estadual, proporcionando o encontro da sociedade negra do estado de Santa Catarina. Alguns eventos eram famosos como a Grande Festa em Homenagem a Santa Bárbara, que acontecia no mês de dezembro, seguida pelo baile no clube que virou tradição na cidade de Criciúma; o baile do Havaí que acontecia no mês de Janeiro, com vestes, decoração e rituais a caráter, incluindo o famoso colar de flores oferecido aos participantes; o baile da Mais Bela Negra e o Baile do Sol Raiar, famoso por só acabar no momento em que o sol surgia através das vidraças que o refletiam no interior do salão.

Feijoada beneficente para as obras e comemorativas aos 80 anos do clube realizada em 2016. (Foto: Divulgação)

A Sociedade também recebeu grandes artistas como Sandra de Sá, Alcione, Agepê. A partir das memórias repassadas por alguns membros da Comissão que tiveram a oportunidade de fazer parte desta história, vemos no União Operária um ícone capaz de promover a Unidade do Movimento Negro em seu processo de revitalização, afirma Dejair que, emocionado, relembra o árduo trabalho dos antepassados para lançar os primeiros alicerces numa época em que os negros precisavam de um lugar específico para a sua congregação, diversão e lazer, pois eram proibidos de frequentar muitos lugares por serem espaços destinados somente aos brancos. Fato comum na época, diante do racismo explícito da década de 1930, que, infelizmente, ainda persiste nos dias de hoje, acrescenta.

Desenvolvimento do projeto arquitetônico

O Presidente da Comissão de Revitalização da Sociedade União Operária destaca que as atividades da Comissão inicialmente estão voltadas para a manutenção do espaço físico da sociedade. As promoções realizadas para captar recursos já possibilitaram a pintura interna do térreo do prédio, manutenção da parte elétrica e o parcelamento de pendências com os fornecedores de água e energia elétrica. De acordo com os dados fornecidos pelo Engenheiro Mauro Sonego – CREA/SC: 029.884-2, responsável pelo levantamento orçamentário realizado em maio de 2017, o custo para concretização do projeto será de aproximadamente quatrocentos mil reais, conclui.

 Arquiteta Michele responsável pelo projeto de revitalização do clube. (Foto: Arquivo pessoal)

A arquiteta urbanista Michele dos Santos Maciel, responsável pelo projeto de revitalização, reabilitação e restauração da Sociedade Recreativa, Esportiva e Cultural União Operária traz um planejamento de necessidades que respeita e dá continuidade aos significados dos espaços, das atividades e, ao mesmo, tempo contempla o uso que vai possibilitar ao clube sua autossustentação.

A revitalização trará uma renovação de espaços com dinamismo e acessibilidade a partir do hall entrada.  Haverá dois espaços multiuso. O Espaço Multiuso 1, conterá lanchonete, bar café, espaço cultural, área de exposições, sala multimídia, espaço multiuso, salão térreo para eventos menores, salas comerciais, sala de reuniões, bilheteria, garagem, banheiros, cozinha, depósito, secretaria. No Espaço Multiuso 2 haverá um salão para bailes, congressos, palestras, grandes exposições transitórias, banheiros, camarins, bar e espaços de convivência e lazer com churrasqueiras e decks com vista externa, descreve a arquiteta.

Na parte externa haverá, ainda, um espaço de convivência com churrasqueiras e destinado para jogos, eventos de pátio, academia, instalações para torcidas em competições esportivas, salienta Michele. Receberá também especial atenção uma área especificamente destinada ao conhecimento, onde funcionará uma biblioteca física ou virtual já denominada Biblioteca Preta, com especial atenção para um acervo de trabalhos científicos elaborados por pesquisadores negros, conclui Michele.

Comissão de Revitalização 

A vontade de desenvolver uma ação de integração solidária, fez com que a comissão fosse construída de maneira coletiva para dar mais força ao trabalho e disposição às entidades e pessoas das diferentes organizações do movimento negro de Criciúma e suas representações.

Em  2016 nasce a Comissão para assumir os desafios de revitalizar o clube. A primeira e grande tarefa para a retomada foi organizá-la e formalizá-la. Para isso foi necessário reunir os ex-presidentes para diálogo e legitimação da iniciativa, o que foi feito através da lavratura de procuração outorgando à Comissão o direito de responder pelo Clube. O segundo passo foi estabelecer forma de atuação, sendo decidido que as ações serão viabilizadas através de cinco Grupos de Trabalho (GTs) criados especificamente para esse fim: GT de Manutenção; GT de Comunicação; GT de Eventos; GT de Patrimônio Histórico (em construção); GT de Organização Administrativa.

Dessa forma, a Comissão de Revitalização da Sociedade União Operária passou a ser composta pelas seguintes entidades do Movimento Negro de Criciúma: CCR – Coletivo Chega de Racismo; ConMadiba – Confraria Amigos de Mandela; Eneb – Entidade Negras Bastianas; Neab – Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas e Minorias da Universidade do Extremo Sul Catarinense – Unesc; Copirc – Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial de Criciúma; ACR: Anarquistas Contra o Racismo; Compirc – Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Criciúma; MUNMVI – ONG de  Mulheres Negras Professora Maura Vicência.  Dela também fazem parte representantes do Conselho  Deliberativo da SRUO – Sociedade Recreativa União Operária, do  Siserp – Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Criciúma e do  Blog Vou de Preta.

 

 

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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