Conceito do Afro Fashion Day 2018 afirma identidade através das cores

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O Afro Fashion Day este ano vai acontecer no dia 24 de novembro, sábado, às 19h, com entrada franca, no Museu du Ritmo (Comércio)

Cores de conceito possuem a ancestralidade na referência. (Fotos: Thiago Borba: Divulgação)

“Usar vermelho diziam que era coisa ruim. O amarelo? Era muito forte, cor berrante. Quando Ilê veio, mudou. O vermelho simbolizou o nosso sangue derramado. O amarelo? O ouro e a independência que a gente busca: o sucesso e vitória. O branco, a paz e tranquilidade. E o preto: nossa cor. Cores trazem felicidade, empoderamento e ancestralidade”, conta Dete Lima, 65, estilista e uma das fundadoras do Bloco Afro Ilê Ayiê, ao relembrar que o uso de cores era uma dificuldade para as mulheres negras. É justamente para reafirmar a liberdade que o Afro Fashion Day, projeto do CORREIO que celebra o mês da Consciência Negra, elegeu como tema deste ano Cor e Identidade. O desfile será aberto ao público e gratuito, com inscrição prévia pelo link  bit.ly/AfroFashionDay2018.

hion Day é uma ação focada em evidenciar as lutas da população negra em suas mais variadas formas.

(Cores fortes homenageiam a afirmação da identidade. Fotos: Thiago Borba/Divulgação)

Goya Lopes, 64, designer têxtil baiana que estudou em Florença, na Itália, na década de 70, conta que, aqui e lá, o problema incomodava, e se diz feliz com o progresso. “A mudança é visível. Hoje, o medo do que o outro iria falar deu espaço a uma estética de autoafirmação, orgulho e resistência. E os criadores estão com um forte conteúdo simbólico e uma criatividade consciente”, pontua ela. Dete lembra, ainda, a gestação do projeto do Curuzu, na Liberdade, para que a estética da população negra permanecesse altiva: “Para a gente foi difícil. Mas ao mesmo tempo não. Porque saímos de uma casa onde Mãe Hilda sempre fortalecia que somos negros e bonitos. Que podíamos ir para qualquer lugar sem ter medo. E o Ilê nos fortaleceu muito mais, trazendo as cores fortes que não usávamos antes”.

Goya Lopes foi uma das pioneiras da moda afro no Brasil. (Foto: Acervo CORREIO)

A designer de moda e pesquisadora baiana Carol Barreto, primeira brasileira a desfilar na Black Fashion Week de Paris e participante do AFD desde o primeiro ano, reconhece a importância do tema. “A nossa história foi quase apagada para construção desse território chamado Brasil. As cores como afro-referências são necessárias. É uma mudança de mentalidade, não apenas uma troca de roupa. Hoje, aparentar ser negro é uma posição de escolha e não de comodismo”, afirma a santo-amarense.

Modelos retintos foram prioridade no ensaio deste ano. (Foto- Thiago Borba: Divulgação)

Barreto ressalta que discorrer sobre cores é falar sobre a conexão global da população negra, mas, também, sobre a dos próprios brasileiros. “No Brasil, a gente teve uma exclusão fragmentada. Foi construído na cabeça dos negros o ímpeto de apagar em si os elementos que lembram a negritude e a cultura africana. Parte desse comportamento de eliminar essas marcas é composto pela negação”, explica a estilista.

Barreto é uma das estilistas de maior reconhecimento internacional. (Foto: Acervo CORREIO)

Considerando que a aparência é um dos elementos da identidade, o AFD valoriza as marcas baianas que são produzidas por pessoas negras ou que evidenciam a cultura dessa parte da população. Goya, que foi uma das pioneiras na discussão do silenciamento dos aspectos identitários, considera que utilizar as cores remete às adaptações da diáspora africana na Bahia, contribuindo assim para a noção de identidade e autoexpressão na sociedade. Para ela, as cores são elementos importantes. “É a ousadia nas combinações, nos adereços, nas texturas. Se apresenta na religiosidade, onde há sintonia com as cores da natureza que encantam e transmitem o Axé, ou nas formas da arquitetura, na arte, em pinturas e desenhos decorativos”.

Dete Lima, do Ilê Aiyê, contribui para quebrar o racismo na moda. (Foto: Angeluci Figueiredo)

Para Lindinalva Barbosa, 56, educadora e mestra em linguagens, e militante do movimento negro e do movimento de mulheres negras desde a década de 80, o uso de cores fortes é algo que atravessou as famílias da sua geração. “Essa coisa de usar as cores mais fortes, mesmo eu sendo negra de pele mais clara, sempre me impactou. Minha família sempre teve mulheres retintas e mais claras e era recomendado o uso de cores mais claras para não chamar atenção”.

Bloco Afro Ilê Aiyê é uma das grandes referências em moda e negritude. (Foto- André Frutuoso: Divulgação)

A pesquisadora que, apesar de todas as orientações familiares sempre gostou de cores, ao conhecer mais sobre cultura africana passou a aderir ainda mais o colorido. “Não era fácil encontrar tecidos africanos. Uma das primeiras africanas que começaram a vender na Bahia, se não me engano, nos anos 90, foi Lola da Ewa, vendendo com sua sacola”, rellembra. Ela finaliza destacando também o papel fundamenta do Olodum, além do Ilê, para desconstruir os estigmas atribuídos as cores, por destacar as cores do pan-africanismo no símbolo e vestes.

O Afro Fashion Day é realizado pelo CORREIO com apoio institucional da prefeitura de Salvador e apoio de Salvador Shopping, Sebrae, Vizzano e Museu du Ritmo. Este ano, vai acontecer no dia 24 de novembro, sábado, às 19h, com entrada franca, no Museu du Ritmo (Comércio).

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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