Consciência negra sim. E para todos

Luiz Silva (Cuti). (Foto: Divulgação)

Por Cuti*

Consciência não tem cor, certo? Certo… e errado! Certo porque a consciência não uma coisa material e, portanto, não sustenta uma tinta que corresponda a qualquer cor. Errado porque é uma palavra que se refere a uma instância abstrata e, assim, pertencendo ao mundo simbólico, está incorporada à zona flutuante da linguagem.

Flutuante porque as palavras ganham significados para corresponder aos nossos sonhos, medos, crenças, emoções, intenções, ideologias, interesses, significados que tentam justificar racionalmente o nosso estar no mundo enquanto indivíduo pertencente a este (s) ou àquele (s) grupo (s) humano (s). Por isso se fala em “alma branca”, a paz é simbolizada pela cor branca, o espírito santo pela pomba “branca”. Então, vem a pergunta: se a alma pode ser concebida como branca, por que há questionamentos quando se propõe que a consciência seja negra? O domínio simbólico, no qual até as coisas materiais ganham qualidades imateriais (uma cadeira “divina”, por exemplo) é regido.

Quem detém o poder (em todos os níveis) procura controlar o campo simbólico, com o único propósito de manter e ampliar seus domínios. Porém, há questões outras na nossa história, digo a história da humanidade, que elucidam comportamentos primitivos dos quais seguimos impregnados ao longo do tempo, demonstrando que respostas simplistas não dão conta do que nos move.

Nossa espécie, Homo Sapiens, se originou na África, ali viveu, com outras espécies – Australopitecus, Homo Habilis, Homo Erectus e outras – do gênero humano, e como aquelas, a partir dali, foi migrando para outros lugares do planeta, carregando consigo o medo do escuro, escuro que como proteção contra os raios solares já lhe cobria a pele em um processo gradativo de substituição dos pelos do estágio primata.

E porque o medo do escuro? Nossa espécie e as anteriores à nossa tiveram desde sempre o desafio de lutar pela sobrevivência, conseguir alimentos e se proteger dos animais predadores e outros perigos da natureza, inclusive a sua própria. A noite sempre representou o aumento das ameaças. A limitação de ver era – e em certa medida ainda é – um grande perigo, apesar da audição, o olfato e o tato também atuarem na prevenção dos riscos. A noite também significou e significa o cansaço, o sono e o sonho a nos povoar com a reprodução mental da realidade, em imagens e sons distorcidos por nossos desejos e medos.

Dormir era estar entregue à própria sorte, ou melhor, à drástica redução da vigilância. O escuro só poderia nos marcar com um profundo medo transmitido de geração para geração. Mesmo hoje, com o conhecimento adquirido pelo desenvolvimento da ciência, esse medo ainda está no nosso encalço. Agora, nossos predadores são quase sempre nossos semelhantes, mas, além destes, pode haver outros escondidos no espaço cósmico prontos para nos atacar.

Não é à toa o sucesso de séries como Guerra nas Estrelas e outras tantas produções que projetam nosso medo em meio aos astros. Resistimos em reconhecer a nossa fragilidade e insignificância diante do cosmos. As dimensões astronômicas serão por longo período futuro deixadas de lado pela maioria nas relações do cotidiano. Uma vez ou outra a abordamos como ficção. Os motivos são de ordem educacional. A astronomia não faz parte do currículo básico. Mas também de ordem emotiva. Como suportar a noção de universo, com nossos tão mesquinhos sentidos da vida, baseados sobretudo nas noções de transcendência (outra vida após a morte) e confrontos diários com seres da mesma

espécie para ter como sobreviver ou manter conquistas e/ou privilégios? Para nossa capacidade de enxergar, o cosmos é representado como o escuro, pontilhado de pequenos brilhos. Os grupos de Sapiens que, em longos confinamentos em áreas de pouca incidência solar, tiveram reduzido o teor de melanina na pele, acabaram por projetar seu medo do escuro naqueles que o conservaram alto, por terem permanecido em regiões climáticas originais ou terem ido para regiões similares, com forte incidência solar. Aqueles projetaram seu medo nestes últimos. E por quê?

A história não é feita tão somente de medo. Dos enfrentamentos entre os grupos humanos, o principal motivo sempre foi e continua sendo a pilhagem, em outras palavras, o roubo de território, alimentos, instrumentos, força de trabalho e tudo o mais. Tais enfrentamentos ensejaram, até mesmo para o auto encorajamento, a prática de estigmatizar o inimigo. A aparência física diferente vem sendo usada desde sempre com esse propósito.

Assim, como argumenta Carlos Moore: “O racismo pode efetivamente ter surgido aquém dos últimos quatro ou cinco mil anos da nossa história, como resultante de longínquos conflitos concretos, em torno da posse de recursos entre povos nômades invasores e povos sedentários, já fenotípica e culturalmente diferenciados. Essa interpretação ganha sustentação no exame das Escrituras fundadoras de diversas religiões (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo) nas quais repetidas vezes fazem referências a uma ‘maldição’ divina da pele negra.” (Racismo e sociedade, 2012, p.192) Considerando, por exemplo, que um dos livros mencionados pelo autor é o Rig Vedas, que data de 1700 a 1100 a.c., podemos perceber que ao longo da história foram criados “potentes símbolos mitológicos e signos fantasmáticos”, com a racialização de confrontos entre os povos.

Na história humana, brancos escravizaram brancos, negros escravizaram negros. A escravidão moderna, que se caracterizou como o maior deslocamento humano da história, foi racial ou racializada. Brancos escravizaram negros (com auxílio de negros que escravizavam, de forma peculiar, seus semelhantes fenotípicos). O objetivo principal foi a produção de bens em larga escala. Como regime a escravidão perdurou a partir das chamadas grandes navegações que geraram a invasão da América pelos europeus, a partir do final do século XV. O racismo já estava inserto em várias culturas há mais de dois milênios, enquanto simbologia, fantasmagoria e prática. Daí à tentativa de dar uma feição científica foi um passo e uma necessidade de justificar atrocidades tão duradouras, em nome da acumulação de riqueza. Afinal, teses de que a aparência reflete a essência já vinham da Grécia antiga. Um exemplo é o livro Fisiognomia, de Aristóteles.

Ante a invenção de crenças racistas, lastreadas em dogmas religiosos e ideologias, que poder tem o conhecimento científico da antropologia, da paleontologia, da genética para alterar as relações humanas? Ainda muito pouco. Conteúdos racionais na formação escolar são mais operantes nas ciências exatas do que nas humanidades, não por conta de não terem estas atingido graus de excelência, mas porque os fundamentalismos – políticos, ideológicos e religiosos – os bloqueiam, chegando a impedi-los. E nos currículos escolares básicos a História da Humanidade apenas é insinuada em tímidos capítulos, cedendo o amplo terreno para a história dos povos, quase sempre tratando de guerras, reis, rainhas e déspotas de todo tipo. E, muitas vezes, como se a História Humana fosse feita de leis que independeriam da ação da espécie sobre si mesma.

Somos da mesma espécie e todos somos afrodescendentes (e não só as pessoas de pele escura); ocupamos de forma dominante o planeta que estamos destruindo pouco a pouco; somos finitos e nossa condição existencial é nascer e morrer envolto pela ignorância, por mais que nos esforcemos para conhecer nosso entorno e nós mesmos; continuamos nos destruindo por esse ímpeto de pilhar o outro, envolvendo indivíduos, grupos, religiões, países, blocos econômicos; fazemos de conta que há um teto sobre a terra (uns imbecis ainda a concebem plana!), a nos proteger do que insistimos não ver: o restante do cosmos … E o que o racismo tem a ver com isso?

A persistência da pilhagem entre nossa espécie faz do diferente a presa ideal para o assalto. Roubar é a base do sistema que se instalou no planeta pelas inúmeras formas de colonização. Da fome primitiva e real à acumulação de bens e capital, a humanidade segue fazendo do roubo seu motivo, seu ideal de viver, apesar de toda sorte de crueldade, ódio e rancor que ele cria. A troca, que se denominou mercado, apenas camufla com regras o jogo da pilhagem que anima o objetivo de se obter sempre mais vantagem e, consequentemente, prejudicar o outro.

Conscientizar-se de que o racismo atua como o desejo sádico de prejudicar o semelhante fenotipicamente diferente, com a intenção de pilhá-lo, incluindo, além de seus bens, a sua liberdade e a sua vida, é o passo mais importante para entendermos as relações de poder em todos os sistemas sociais. Suas disposições hierárquicas apresentam ampla obediência a fatores fenotípicos, em todo o mundo, apesar de analistas de sistemas econômicos que funcionariam, com seus “ismos”, como entidades autônomas independentes dos humanos, não gostarem dessa abordagem.

No âmbito do “20 de Novembro”, a palavra “consciência” traz consigo o compromisso com o pensamento, com a reflexão; com a responsabilidade perante o outro; com o aprofundamento do saber de si enquanto indivíduo e também enquanto parte de um coletivo planetário.

A palavra “negro” nos presenteia com o conhecimento acerca de nossos atavismos, da nossa história enquanto espécie; nos leva a pensar sobre a nossa constituição física e o papel protetor que a melanina representa em nós, desde a pessoa mais retinta até a pessoa mais desprovida de melanina (o olho mais claro tem a pupila preta).
“Eu tenho a alma e o peito descobertos
à sorte de ser homem, homem negro,
primeiro imitador da noite e seus mistérios”

(Oswaldo de Camargo – “Atitude”, em Cadernos Negros 1, 1978, p.42) A palavra negro demonstra, entre outras coisas, que a expressão “pegar uma cor” guarda em si inúmeras identidades reprimidas, inclusive estéticas (ter a pele muito clara tem também conotações pejorativas); nos conduz a pensar o mistério dentro e fora de nós, constante, diário, no aqui e agora; propõe uma reflexão sobre a crueldade inserta em nossas crendices e ideologias que levaram a humanidade a produzir diversas hecatombes como a escravidão nas Américas e outras tantas nos mais diferentes lugares e épocas. Sobre este termo, “escravidão”, a palavra “negro” nos leva a pensar nas tentativas de apagamento das lutas dos quilombos, dos movimentos por direitos civis, bem como das conquistas civilizatórias das culturas negro-africanas para a humanidade.

20 de novembro – O Dia Nacional da Consciência Negra – é, portanto, uma oportunidade para refletirmos o destino humano a partir da experiência histórica do Brasil. É a celebração do conhecimento acerca das várias nuanças do racismo.
“Querem que a gente sempre saiba
que eles foram senhores
e nós fomos escravos.
Por isso te repito:
eles foram senhores
e nós fomos escravos.
Eu disse fomos.”

(“Transmissão”, em Axé: antologia contemporânea da poesia negra brasileira, 1982, p.33)
Quando escreveu este poema, o poeta gaúcho Oliveira Silveira, um dos idealizadores do 20 de Novembro, tocou na questão do prolongamento da escravidão e a necessidade de combatê-lo. “Fomos” para algumas pessoas não é passado; elas querem que seja presente e futuro. E isso é alimentado por uma cultura produzida para excluir a população negra.

O racismo, enquanto pré-conceito (ideias, sentimentos, e emoções prévias acerca do outro), promove a crença em hierarquias fenotípicas, produzindo e alimentando ódio e medo; é o culto dos brancos (morenos, loiros, ruivos ou apenas claros) à noção de que a pessoa com pele escura e outros traços (cabelo crespo, nariz largo, lábios carnudos) constitui um inimigo, rejeitando-a (discriminação), o que fazem nem sempre nitidamente mas é capaz de acionar atos mortais de violência; é a forma mais sórdida de tentar justificar o crime (assassinatos e roubos) entre os indivíduos e entre grupos; tenta naturalizar os preconceitos baseados na aparência física das pessoas, e, também, naturalizar a discriminação baseada nestes preconceitos, como se fossem inerentes aos humanos e não elaborações intelectuais para manter privilégios de toda sorte.

Os nacionalismos sempre utilizaram e utilizam o racismo quando havia e há certa homogeneidade fenotípica entre membros de uma população. No interior dos países ele sempre está atuando enquanto xenofobia, considerando os traços físicos. Se a “Consciência Negra” ainda assusta pelo fato de alguém se imaginar que ficará todo preto por dentro, ser invadido pela escuridão, é preciso lembrar sempre que o escuro habitou nosso íntimo individual e ao fecharmos os olhos para dormir, mergulhamos na escuridão pessoal. Mas, já não é o medo do escuro que faz com que muitos brancos rejeitem a ideia de a consciência ser negra, mas o sentimento de culpa e vergonha. Culpa de quê? Vergonha de quê? A identificação com aqueles que escravizaram (mataram, torturaram, estupraram, transmitiram doenças), se a pessoa tiver o mínimo de sensibilidade e bom senso, faz com que ela venha a experimentar os sentimentos de culpa e de vergonha.

Mas, a culpa e a vergonha se avolumam com a omissão frente aos casos de discriminação racial que sabe, presencia ou pratica, e, sobretudo, com a manutenção, dentro de si, dos pré- conceitos raciais. Se a Consciência Negra também assusta aqueles que, cultivando sentimentos racistas, imaginam-se correndo riscos da vingança por parte dos negros, tendo em vista o prolongado tempo de exploração e violência (inclusive a preventiva, como processo de intimidação), é preciso que saibam: o desejo de vingança pertence ao primitivo mecanismo de ação/reação. Não passa pela reflexão, pela consciência. Por isso o que se propõe é “consciência” e não “vingança”.

Se a Consciência Negra ameaça a intransigente defesa de privilégios históricos, é necessário pensar que os direitos devem ser iguais e ninguém se conforma com a injustiça, pois, os prejuízos materiais, físicos e psíquicos da população negra têm sido imensos com a prática do racismo. Dos assassinatos aos suicídios por mergulhos depressivos, temos secularmente uma situação que precisa ser alterada urgentemente. A indiferença sarcástica dos racistas demonstra o quanto eles se monstrualizaram ao longo do tempo, perdendo por completo a capacidade de ter compaixão. São aqueles que incorporaram a sanha colonizadora e escravista de seus ancestrais e monstrualizam as novas gerações.

Dia Nacional da Consciência Negra para que não pensemos mais que o que está posto em termos de hierarquia fenotípica se explica pela natureza ou é imutável. Não! Se explica por aquilo que fazemos de nós enquanto espécie e deve ser alterado, inclusive a manipulação da linguagem que atribuiu e atribui o mal à cor preta e aos vários tons escuros da pele. O Brasil não pode ser concebido como país democrático sem a superação desse persistente mal que nos acompanha e que foi calcado pelos quase 400 anos de nossa história escravista (foi o último país a abolir, formalmente, a escravização!).

O resto do mundo também não pode. Para se entender reformas trabalhistas, desemprego, violência cotidiana, genocídio, aprisionamento em massa é preciso levar em conta que a noção de trabalho foi concebida para escravizar [pilhar a capacidade produtiva do (s) outro (s)] e seu usufruto ser consumido por uma minoria, sempre que possível diferenciada fenotipicamente. Com isso, tenta-se perpetuar o desperdício de talentos e sensibilidades e fazer com que todos aceitemos um futuro de opressão crescente.

Não se avança sem a Consciência Negra de todos nós. Ela se interconecta, pelo seu ímpeto de libertação, com todas as outras dimensões da consciência humana: a ecológica, a feminina, a de gênero, etc., porque ela parte de uma resistência contra o processo de desumanização que o racismo promove. Enquanto nação, o Brasil não pode continuar sendo um celeiro de destruição humano com suas cifras absurdas em termos de homicídio. A Consciência Negra é o convite para que todos lutemos em prol do fim das desigualdades econômicas e para que as oportunidades sejam iguais entre pessoas, grupos e povos; a Consciência Negra se contrapõe ao culto do egoísmo, sentimento básico das hierarquias; promove o sentimento de solidariedade e o debate relativo aos significados das diferenças físicas entre os povos e seu uso para estigmatizar.

O Dia Nacional da Consciência Negra propõe mudanças. Como diz a poeta Mel Duarte:
“Há tempos já deram a letra, há três tipos de gente:
As que imaginam o que acontece
As que não sabem o que acontece
E as que fazem acontecer”
(“Pense Grande”, em Empoderamento Feminino, 2019, p.102). Façamos acontecer. Silenciar sobre o racismo é ser seu cúmplice. Esta celebração, Dia Nacional da Consciência Negra propõe que se construa e se dissemine conhecimentos e práticas transversais para um mundo no qual cada ser humano sinta-se parte de uma acolhedora família planetária em meio ao cosmos.

*Luiz Silva (Cuti), poeta e ficcionista.

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