Curso Dandaras fortalece a luta contra o machismo, o racismo e o sexismo no estado do Rio Grande do Sul

Organização de mulheres negras Akanni realiza mais uma etapa de curso de capacitação para ativistas negras do estado, a fim de fortificá-las para o reconhecimento de seus direitos no cotidiano social e para o enfrentamento do racismo e do machismo

As novas alunas do Curso Dandaras reunidas no seu primeiro encontro. (Fotos: Maria Helena dos Santos)

Por Maria Helena dos Santos

Na sexta-feira 26 de julho, na semana de celebração do Dia Mundial da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, iniciaram as aulas da Turma B do Curso Dandaras – Construindo o Pensamento Crítico e Promovendo Formação Política com Mulheres Negras no RS. Idealizado pela organização de mulheres negras Akanni – Instituto de Pesquisa e Assessoria em Direitos Humanos, Raça, Gênero e Etnias, o Curso é um reflexo da luta de mulheres negras para além das ações realizadas nas datas celebrativas já inseridas nos nossos calendários e que marcam o enfrentamento ao racismo e ao machismo da nossa sociedade.

Durante a abertura deste primeiro encontro, a potência do pensamento crítico produzido por nós, mulheres negras, foi representada. A artista gaúcha Adriana Rodrigues, umas das primeiras modelos negras brasileiras, apresentou uma performance do poema “Mulher Negra”, escrito pela pesquisadora negra Cristiane Maré. Quando recitou, a última estrofe do poema “mulheres negras são tantas, tão múltiplas que me inquietam; sabe, às vezes me fazem calar: tenho medo de falar bobagens; quando me calo, é para que minhas palavras não as sufoquem ainda mais!!”, era possível ver nos olhos das ouvintes o quanto nosso encontro traz poder.

Contexto histórico da mulher negra

No Brasil, mesmo pertencendo à maior parcela da população, a mulher negra encontra-se em uma das posições mais vulneráveis e isto pode ser constatado sempre que analisamos indicadores sociais como taxa de homicídios, inclusão no mercado de trabalho, disparidade salarial, condições de trabalho e desemprego.   As estruturas políticas deste país não foram criadas para o nosso povo, por isto essa vulnerabilidade nos é imposta. Contudo, precisamos lembrar que somos oriundas de um continente marcado por experiências históricas de resistência, o que nos autoriza e nos dá condições de dizer que este país precisa de nós, de nossa inteligência e de nosso protagonismo político. Milhares de mulheres negras enfrentaram e enfrentam cotidianamente o peso do racismo, do machismo e da exploração capitalista, mas resistem, por isso temos condições de pensar em um novo projeto político de país.

Reginete Bispo, coordenadora da Akanni, apresenta o Curso Dandaras para as novas alunas.

“Nós da Akanni, acreditamos que este projeto não se constrói sozinho, por isso pensamos em um curso de formação política voltado para mulheres negras, para ampliar as suas ferramentas de luta, um existir e resistir juntas, pois esta é uma construção coletiva entre a Akanni e todas as Dandaras, durante as aulas e após os encontros”, assim Reginete Bispo (coordenadora da Akanni – Instituto de Pesquisa e Assessoria em Direitos Humanos, Raça, Gênero e Etnias) apresenta os principais objetivos do curso.

Proposta de formação da Akanni

Neste primeiro encontro, as novas Dandaras participaram da aula da disciplina “Marcos Legais das Políticas de Enfrentamento ao Racismo”, ministrada pela Dra. Lilian Conceição da Silva que desenvolveu uma dinâmica em que as mulheres desenharam o contorno de suas mãos ou pés e neles escreveram dois momentos de enfrentamento ao racismo e machismo, vivências que marcaram a história de suas vidas.

Os relatos individuais demonstram que nenhuma de nós tem um problema único. “O evidente problema da homogeneidade está na negação da diversidade como oportunidade de valorização e de reconhecimento da identidade do sujeito, ignorando, inclusive, a composição étnico-racial do Brasil. Para nós mulheres negras as coisas não são dadas, por isso devemos conhecer e analisar os marcos legais das políticas afirmativas, frutos de muito sangue e suor daquelas e daqueles que vieram antes de nós, a partir dos nossos próprios marcos legais”, afirma Lílian.

Dra. Lilian Conceição da Silva saudando as alunas.

O Curso Dandaras tem duração de 48 horas divididas entre disciplinas que visam a discutir a diáspora africana em solo brasileiro, o papel da mulher negra nas políticas econômicas brasileiras, as transformações culturais e de representações identitárias dos corpos negros na contemporaneidade, além das políticas de saúde pública para a população negra. Ao final, as Dandaras têm que realizar uma ação política em suas comunidades ou nas instituição em que estão inseridas, com o objetivo de dividir com outras mulheres negras os saberes e conhecimentos adquiridos durante as aulas, para formar e fortalecer a articulação de diversos segmentos de mulheres negras, principalmente quilombolas, jovens, trabalhadoras domésticas, moradoras de periferia, transexuais, lésbicas, bissexuais.

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