Desde a escravidão a mineração mata negros e negras em Minas Gerais

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Minas Gerais carrega, em seu nome e sua história, a mineração e a escravidão. Essa relação também pode ser observada nos dados e nas vítimas do crime socioambiental de responsabilidade da Vale, que ocorreu em Brumadinho no último dia 25. Os números dessa tragédia capitalista se atualizam diariamente e já são 142 mortos e 194 desaparecidos, dentre os quais estão trabalhadores efetivos e terceirizados, que são, em sua maioria esmagadora, trabalhadores negros.

Do Esquerda Diário

Minas Gerais leva a mineração não apenas no nome, mas também profundamente ligada à sua história. Desde o surgimento da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro até os dias atuais, a mineração faz parte do dia-a-dia dos mineiros, seja como trabalhador, vendo as montanhas fatiadas enquanto passa por alguma estrada, visitando as cidades históricas, pintando os pés de vermelho com o minério de ferro no chão ou vendo o trem levando e voltando para buscar mais matéria prima.

Assim como a mineração, Minas Gerais também foi marcada pelo trabalho escravo nas minas e nas cidades, o que gerou um estado com grande proporção de negros e negras, descendentes de escravos ou fruto dos chamados nascimentos “ilegítimos”, os estupros de mulheres negras pelos seus “senhores” brancos. Esse processo de formação do estado ecoa até hoje na composição da população e da classe trabalhadora mineira.

Escravos especializados em mineração vinham da Costa da Mina

A maioria dos negros e negras que vieram escravizados para Minas Gerais vieram da Costa da Mina, uma região no golfo da Guiné que corresponde atualmente à faixa litorânea de Gana, Togo, Benim e Nigéria. De lá vieram muitos negros e negras escravizados, chegando primeiro na Bahia e depois sendo vendidos e enviados a outras capitanias, principalmente a das Minas Gerais.


Foto: A porta do não-retorno: monumento na cidade de Ouidah, no Benin, construído no local de embarque dos escravos, que eram enviados para as Américas. Fonte: Wikipedia.


Os escravos africanos vindos da Costa da Mina iam em sua maioria para a região de mineração, porque esta é uma região mineradora muito antiga do continente africano e os escravos conheciam técnicas específicas de mineração que passaram a ser usadas aqui, como a mineração de aluvião (feita nos rios) e posteriormente a mineração subterrânea executada dentro das minas, a qual os africanos tinham muito conhecimento sobre.

A mineração foi considerada o trabalho mais doloroso e árduo exercido pelos africanos que eram escravizados no Brasil. Os escravos trabalhavam perante o perigo de morte por meio de afogamento ou soterramento ocasionado pela ruptura das barragens de controle das minas, o que dava uma expectativa de vida de apenas mais 5 a 7 anos para cada escravo que trabalhasse ali. Esse era o acidente mais frequente nas minas e o principal responsável pela morte dos escravos. Além disso, o trabalho se dava diante de condições deploráveis de higiene, onde os escravos, no caso da mineração de aluvião, permaneciam dentro d’água por um período longo, sob baixas temperaturas e, no caso da mineração subterrânea, permaneciam muito tempo no interior das cavernas e nas minas.

Com isso, tanto portugueses quanto ingleses, exploravam a mão de obra escrava (e especializada) na região para garantir seus lucros.

Séculos depois, muita coisa não mudou

Nos anos do Brasil colônia, a escravidão era a garantia de lucro dos “colonos mineradores”, portugueses e ingleses, que exploravam território brasileiro e milhares de negros e negras africanos.

Nos dias atuais, quem busca obter lucro da exploração das montanhas e dos trabalhadores de Minas são as mineradoras multinacionais, dando um novo nome e rosto para a exploração capitalista e imperialista dos tempos do Brasil colônia.

A Vale, responsável pelos crimes socioambientais de Mariana e Brumadinho, emprega 73 mil 596 trabalhadores e trabalhadoras no mundo todo. Desses, milhares se encontram concentrados nas cidades mineiras, e ainda outros milhares, contratados como terceirizados, estão dia após dia nas áreas de mineração, correndo riscos de soterramento ocasionado pela ruptura das barragens de controle das minas, assim como os escravos levados para lá, há centenas de anos atrás.

A empresa foi privatizada por Fernando Henrique Cardoso em 1997. Vendida a acionistas do mundo todo pelo valor irrisório 3,3 bilhões de dólares, o que corresponde a 5,5% dos 320 bilhões de reais que foram arrancados do nosso solo como lucro aos “novos colonos” do país. A privatização tucana foi mantida nos anos de governos petistas, e os lucros da empresa aumentaram; em 2015 o crime da Vale em Mariana passou impune sob o governo de Fernando Pimentel em MG e de Dilma a nível federal.

A sede por lucro não mudou. Agora, é saciada com a exploração de trabalhadores e trabalhadoras de Minas Gerais, na Vale e em outras tantas multinacionais mineradoras. Para garantir esse lucro, ignoram as lições do crime socioambiental que cometeram em Mariana há 3 anos, as propostas de endurecimento de regras para barragens e de restrição para impedir a construção de barragens como a que rompeu em Brumadinho e os avisos de risco de rompimentos de dezenas de barragens pelo estado, além da precarização das condições de trabalho, principalmente dos trabalhadores terceirizados, e a demissão em massa de trabalhadores.

Para garantir esse lucro, permitem que uma nova tragédia com o rompimento de barragem ocorra no estado. Os números do crime considerado o pior “acidente” de trabalho do Brasil se atualizam diariamente e contam com 142 mortos e 194 pessoas seguem desaparecidas.

Entre as pessoas desaparecidas estão trabalhadores efetivos e terceirizados, que são, em sua maioria esmagadora, trabalhadores negros e os que ocupam os postos de trabalho em condição mais precária e correm os maiores riscos de acidente de trabalho.

Às mulheres negras também são reservados descaso e postos de trabalho precários, salários inferiores e inúmeras situações machistas. Por trabalhar em um ambiente majoritariamente masculino, todas as mulheres dentro da Vale são cobradas para serem masculinizadas e fazerem “trabalho de homem”, sofrendo muito preconceito. As trabalhadoras contratadas pela Vale, em grande parte terceirizadas, são as trabalhadoras da limpeza, as que fazem manutenção de escavadeiras e caminhões “fora de estrada” com mais de 19 metros de altura, as que recebem um salário mínimo ou ao redor de dois salários mínimos, com postos de trabalho rotativos e direitos flexibilizados, mostrando como a terceirização nas minas e nas mineradoras também tem rosto de mulher e, na maioria das vezes, de mulher negra.

Mariana e Brumadinho são tragédias fruto do capitalismo e da sede de lucro de mineradoras multinacionais, que expressaram a nova cara da exploração nas minas do estado. Hoje, são outros os chicotes que estalam nas mãos de novos senhores, mas com o mesmo objetivo: explorar a terra e a vida humana até a última gota. A última gota da exploração em Brumadinho é de sangue de trabalhadores e trabalhadoras da Vale.

Para que crimes como os de Mariana e Brumadinho nunca mais aconteçam é preciso enfrentar as propostas de Bolsonaro e Zema, que querem mais privatizações e desregulação ambiental, lutando pela reestatização da Vale sob gestão dos trabalhadores e controle popular, sem nenhuma indenização aos acionistas nacionais e estrangeiros, parasitas que, como na época da escravidão, continuam lucrando com as riquezas do país.

Só assim será possível enfrentar o modelo atual de mineração, que além de fatal é predatório para o meio ambiente. Toda a mineração deve ficar sob gestão de seus trabalhadores e controle da população e de especialistas eleitos nas universidades e comunidades, para garantir as mais seguras práticas de mineração e trabalho e para que os recursos do minério sirvam aos interesses do povo brasileiro, transitando para um modelo de mineração que não destrua os nossos recursos naturais. É preciso também levantar um plano de obras públicas financiado pelo confisco de todos os bens dos acionistas da Vale para reconstruir o que foi destruído pela lama tóxica, gerar empregos, garantir moradias para todos, e acabar com a dependência de comunidades inteiras das mineradoras.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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