Desfile de comemoração do aniversário de Joinville tem protesto

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WhatsApp Image 2017-03-10 at 09.11.20 (2)(Fotos: Banco de Imagens NaçãoZ/Divulgação)

Da Redação, de Joinville

Na tarde de ontem, 09 de março, a Prefeitura Municipal de Joinville organizou um desfile que contou com a presença de 70 entidades. O evento, que começou às 17 h, contou antes com um protesto do Movimento Negro Maria Laura, Coletivo Ashanti, Movimento Hip-Hop, Grupo Morro do Ouro e Tambores de Maryás.

O grupo protestava contra a retirada, por mais um ano, da verba do Carnaval, pela repressão aos grupos de maracatu que decidiram desfilar pelas ruas da cidade no domingo, dia 26 de fevereiro. Também denunciavam a falta de políticas públicas e efetivação de órgãos e medidas que atendessem as demandas da população negra na cidade.

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Leia abaixo, na íntegra, o manifesto escrito pelos movimentos

O grupo fez um arrastão pela Avenida Beira Rio, local marcado para acontecer o evento. Durante o trajeto, foi feito panfletagens para contextualizar a população sobre o motivo do protesto. Com cartazes com dizeres “Joinville também é negra”, “Carnaval é cultura popular”, “Existimos e resistimos”, o grupo se fixou em frente ao palanque onde estava o atual prefeito, Udo Döhler e sua equipe.

Os cartazes foram erguidos durante toda a parte do evento e chegou a incomodar o Secretário de Comunicação, que é negro. Em um dos momentos do desfile, Marco Aurélio Braga, esfregou uma das mãos por cima do braço respondendo aos movimentos que protestavam. Gesto racista que pessoas brancas fazem para dizer que algo ou alguém é de cor, tem sentido pejorativo. O grupo compreendeu o gesto como uma ofensa aos movimentos negros que realizavam o ato.

Quando a última entidade entrou na avenida para desfilar, os manifestantes ocuparam a avenida novamente e se dirigiram até a frente do palanque, mais próximo do prefeito e da sua equipe. Durante alguns segundos os cartazes foram mostrados de perto ao prefeito que permaneceu estático. O ato terminou após as 19 h, com a dispersão do grupo. O ato ocorreu de maneira pacífica.

Manifesto

A atual gestão cancelou, mais uma vez, a verba para o Carnaval de Joinville. Em 2017, a desculpa foi a recomendação do Governo Estadual aos municípios para economizarem devido a crise. Desculpas semelhantes foram dadas nos anos anteriores.  Mas o que nos chama a atenção é que eventos como a Festa das Flores  ocorrem normalmente enquanto o Carnaval tem sua verba recolhida. Se realmente existe crise, não seria necessária uma mobilização anual, com o cancelamento de verbas em todos os eventos? Seria uma forma de racismo institucional e uma atitude elitista do atual prefeito por se tratar de uma festa popular em que a população negra da cidade tem visibilidade e espaço de atuação? Ficamos com essa dúvida por conta das diversas atitudes tomadas pela atual gestão. Ou melhor, pela falta de atitude.

Já foi solicitado, por meio de reunião com o próprio prefeito, auxílio aos imigrantes haitianos, aulas de português, empregabilidade, tradução de diplomas para os mesmo exercerem suas profissões que são habilitados e uma casa de acolhimento para receber todos os imigrantes sem lugar para morar. Nada foi feito.

O dia da Consciência Negra foi sancionado como feriado municipal pelo prefeito, mas foi impedido por uma ação jurídica de entidades empresarias da cidade. Por qual motivo o prefeito não entrou com uma representação na justiça exigindo o mantimento do feriado? Será que ele realmente queria esse feriado?  Ou será que não foi uma jogada pensada com os empresários para preservar sua imagem? Assim como foi feito com o evento do Mercado Municipal, que foi feito às pressas para tentar sanar a ausência de verba do Carnaval. O Ministério Público cancelou o evento por comprometer a segurança e por falta de alvarás. Quantos eventos são realizados no Mercado? Por que a Prefeitura não auxiliou e agilizou o processo pelos alvarás? O que é mais engraçado é que a atual gestão nunca assume seus atos, nunca se responsabiliza por tais, sempre terceiriza. Utiliza o governo do estado, entidades empresariais, Ministério Público… Nunca é o desejo, a vontade, a necessidade da Prefeitura. É uma estratégia para manter as aparências. Estratégia falha.

Existe um Conselho da Igualdade Racial que não está em funcionamento. Mesmo com pessoas eleitas, não houve uma efetivação desse órgão político que até o presente momento não apresentou muita eficácia para resolver os problemas das desigualdades raciais e sociais em Joinville. Por essas e por outras que estamos aqui não só reivindicando a retirada da verba do Carnaval, mas também questionando cada um desses pontos. O racismo institucional pode ser velado, mas com o tempo ele fica explicito. Parece que o tempo passou para essa gestão e nos mostrou a sua verdadeira face.

A população negra também está em Joinville. Contribuímos e trabalhamos para o crescimento e desenvolvimento da cidade e não vamos nos calar diante todas as tentativas de esconder a nossa história e a nossa cultura. Existimos e resistimos.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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