É Neymar Black? Brasil e a dolorosa relatividade da raça

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Desde que seu comentário “Não é como se eu fosse negro, sabe?”, Neymar tem servido como um ponto focal no cálculo cultural do Brasil com racismo, branqueamento, identidade e políticas públicas.

Neymar da Silva Santos Júnior, no centro, comemora um gol com seus companheiros de equipe durante a partida da Copa do Mundo contra a Sérvia, na quarta-feira. (Michael Steele/Getty Images)

Por Cleuci de Oliveira, do TNYT

Anos antes ele se tornou o jogador mais caro do mundo; antes de sua medalha de ouro olímpica; Antes que a Torre Eiffel se acendesse com seu nome para saudar sua passagem profissional de Barcelona para Paris, Neymar da Silva Santos Júnior, o atacante brasileiro conhecido no mundo simplesmente como Neymar, enfrentou sua primeira polêmica de relações públicas.

O ano era 2010, e Neymar, então com 18 anos, havia chegado à fama no Brasil após uma temporada sensacional de fuga. Durante uma entrevista para o jornal O Estado de S. Paulo, entre uma conversa sobre a Disneylândia e carros esportivos, perguntaram a ele se já havia experimentado racismo. “Nunca. Não no campo nem fora dele ”, respondeu ele.

“Não é como se eu fosse negro, sabe?”

Sua resposta foi ouvida como um rasgo de recorde em todo o país. Foi este jovem em negação sobre sua identidade racial? Particularmente, na mesma entrevista, ele delineou seu meticuloso regime de cuidados com os cabelos, que envolvia o endireitamento de suas mechas a cada poucas semanas e depois o branqueamento da loira.

Ou houve uma explicação menos alarmante por trás de seu comentário? Poderia Neymar estar meramente apontando que, como filho de pai negro e mãe branca, seu tom de pele mais claro o protegia do abuso racista dirigido a outros jogadores? Teria ele, pelo menos em seu contexto, atingido a brancura? Qualquer que seja a interpretação, as palavras de Neymar revelaram as maneiras complicadas, muitas vezes contraditórias, que muitos brasileiros falam, e falham em falar, sobre raça em um país com a maior população de descendentes de negros fora da África.

Quando os espectadores assistem ao Brasil, eles são tratados com um rico espectro de tons de pele que piscam vibrantemente na tela. A composição racial da seleção brasileira, na verdade, geralmente reflete a demografia do país. De acordo com dados de 2017 divulgados pelo departamento de recenseamento, 47% dos brasileiros se identificam como mestiços, enquanto outros 8% se identificam como negros. Um terço dos casamentos acontece além das fronteiras raciais. Esses números confirmam a crença comum dos brasileiros e dos milhões de viajantes internacionais que visitaram o país no ano passado de que o país é uma sociedade racialmente fluida.

Diferentemente da seleção nacional, no entanto, os altos escalões da maioria das profissões no Brasil – seja medicina, mídia, negócios, entretenimento ou governo – são ocupados por brancos. Os dados demográficos brutos do país pintam um retrato preciso de pessoas diversas; mas também acrescenta pátina ao antigo mito, promovido há gerações pelo governo e primeiro intelectualizado pelos sociólogos há quase um século, de que o Brasil é uma democracia racial, ou “democracia racial”.

Como o Brasil nunca teve um sistema de apartheid como a África do Sul, ou a proibição de casamentos de raça mista como a América, foi o argumento, um espírito de relações calorosas floresceu através de divisões raciais.

Não importa que o Brasil tenha sido o último país das Américas a abolir a escravidão em 1888; ou que, após a abolição, a classe dominante organizou uma campanha para branquear a população negra majoritária, subsidiando totalmente a imigração de mais de quatro milhões de europeus brancos, dando-lhes terra livre e obrigando os brasileiros a lidar com eles.

“O povo brasileiro, mais que qualquer outro, precisa da influência dos povos avançados na construção de uma corrida”, dizia um panfleto de 1914, “especialmente no momento histórico em que a porcentagem representada pela raça africana começa a declinar e deve desaparecer redemoinho da raça branca ”.

Mesmo quando a democracia racial foi amplamente desbancada por uma nova geração de cientistas sociais, o legado duradouro do mito foi que, em vez de se envolver com a questão racial, os brasileiros transformaram o racismo e o racismo em um tabu. Ao esconder o problema do vigoroso debate público, permitiu-se que uma hierarquia baseada na cor da pele se solidificasse.

Hoje, as conseqüências socioeconômicas da “pigmentocracia” brasileira ainda reverberam: o 1% da economia do Brasil é 80% branco; três quartos dos 10% de baixo, enquanto isso, são negros ou mestiços. Em 2016, mais da metade dos estudantes negros ou mestiços entre 18 e 24 anos não atingiram o ensino médio. E apenas 13 por cento daqueles na mesma faixa etária foram matriculados na faculdade.

Até mesmo a estatística mais feliz de que um terço dos casamentos são mestiços vem com um asterisco: segundo o sociólogo Edward Telles, autor de “Raça em outra América: o significado da cor da pele no Brasil”, as taxas de casamentos mistos são insignificantes entre os ricos. Brasileiros.

O futebol é celebrado como uma das esferas meritocráticas do Brasil, onde o talento é o que mais conta. Mas quando o esporte se estabeleceu pela primeira vez no país, no início do século 20, os principais clubes e ligas barraram os não-brancos. O jogador mais famoso de todos os tempos, Edson Arantes do Nascimento, popularmente conhecido como Pelé, teve outro apelido perto do início de sua carreira: a gasolina, a palavra portuguesa para petróleo bruto.

Para a frustração de alguns brasileiros, Pelé há muito tempo prefere uma postura de tentativa de ignorar o racismo e tem resistido amplamente às alianças públicas com ativistas. Em 2014, falando em um canal esportivo brasileiro, Pelé repreendeu o goleiro do clube brasileiro Aranha por confrontar os espectadores que o chamavam de macaco. “Se eu tivesse que parar ou gritar”, disse ele. “Toda vez que eu era abusado racialmente, todos os jogos precisavam ser interrompidos.”

Nesse mesmo ano, na Espanha, um espectador atirou uma banana em Daniel Alves, companheiro de Neymar e companheiro de equipe na F.C. Barcelona. Alves alegremente comeu a banana em desafio. Neymar respondeu iniciando uma campanha viral com a legenda somos todos macacos: “somos todos macacos”. O movimento foi aplaudido como uma resposta insolente por parte de alguns. Mas muitos brasileiros negros não ficaram impressionados. Sua imagem ainda era assombrada pelo incidente de 2010, no qual ele parecia se distanciar de sua herança negra.

“Essa é a diferença entre o Brasil e a América”, disse Paulo César Lima, campeão da Copa do Mundo de 1970 e ativista pelos direitos dos negros, durante o episódio de 2010. “Lá, se você é negro, você se levanta e diz que é negro.”

As palavras de Lima apontam para uma consequência dolorosa e um tanto paradoxal da fluidez racial do Brasil. A política de pureza racial dos Estados Unidos, que culminou com a noção de que mesmo uma gota de sangue africano tornou uma pessoa legalmente negra, promoveu a solidariedade entre aqueles visados ​​por leis discriminatórias. No Brasil, no entanto, a muitas vezes admirável confusão de fronteiras raciais é uma realidade moderna que – em vez de derivada do daltonismo – está contaminada com as origens sinistras das tentativas sancionadas pelo Estado de diluir, até mesmo dissolver a negritude.

Quando em 1965, a revista Ebony começou a investigar por que, no auge dos direitos civis dos EUA e dos movimentos africanos de independência, os brasileiros negros não haviam se mobilizado de forma semelhante, concluiu que o legado de embranquecimento do Brasil tinha um grande lidar com isso.

Grupos de direitos dos negros no Brasil, como o Educafro e o movimento estudantil Coletivo Negrada, lutaram desde então para combater esse legado. Os ativistas não querem que a ascensão social ou a melhoria econômica tenham que se correlacionar com a brancura. Eles querem visivelmente rostos negros e marrons não apenas na amada equipe nacional, mas nos mais altos escalões da sociedade brasileira. E nas últimas duas décadas, eles conseguiram maneiras mensuráveis.

O Brasil agora tem algumas das políticas de ação afirmativa mais robustas do mundo, com metade dos lugares nas universidades federais reservados para estudantes não-brancos e aqueles no nível de pobreza. Em todos os departamentos do governo federal, 20% dos empregos são destinados a candidatos negros e mestiços.

Mas com esses ganhos surgiram novos dilemas. Preocupações com a fraude por ação afirmativa atormentaram alguns dos programas universitários de maior prestígio, fomentando desconforto nos campi. Alunos de heranças e identidades complexas relatam uns aos outros para os administradores por não serem negros, ou pelo menos negros o suficiente. Episódios de expulsões em massa ocorrem várias vezes por ano – seguidos, inevitavelmente, por processos judiciais de estudantes expulsos.

E os mecanismos colocados em prática para coibir fraudes potenciais, predominantemente na forma de entrevistas pessoais com especialistas anti-racismo indicados pelo governo, mostraram-se incômodos na melhor das hipóteses e contraproducentes na pior das hipóteses. Em 2016, um departamento do governo do estado do Pará chegou a elaborar uma lista de candidatos que avaliava características como a largura do nariz, a forma do crânio e o enrijecimento dos cachos. O departamento retirou a lista de verificação após um clamor nacional.

Em 2017, Neymar abordou o racismo em um discurso nas Nações Unidas, como representante da ONG Handicap International. De volta ao Brasil, o público aplaudiu seu discurso, interpretando-o como um ponto de virada em sua disposição de lutar com a questão. “Este tem sido um tema problemático há anos”, disse ele. “E é predominante no futebol. Mas os incidentes estão ocorrendo cada vez menos. As pessoas estão mudando. O mundo está mudando.

Quando os espectadores – sejam eles da Inglaterra, dos Estados Unidos ou da Índia – vêem o jogo do Brasil, devem resistir a qualquer impulso de romantizar o país como uma ilustração viva da harmonia racial. O que eles estão vendo, ao invés de uma sociedade pós-racial, é um país diferente, com seus próprios pântanos raciais.

A Copa do Mundo é um evento maravilhoso, mostrando o melhor do sucesso humano. E o Brasil, com Neymar liderando o caminho, tem uma boa chance de vencê-lo. Mas esse desfile das nações é também um lembrete, no 130º aniversário da abolição da escravidão, de que o mundo moderno, em todo o seu esplendor globalizado, ainda carece de uma sociedade verdadeiramente igualitária e multirracial.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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