Ela seria a primeira escritora negra da Academia Brasileira de Letras. Mesmo com a maior campanha popular da história, perdeu.

By / 3 meses ago / Brasil / No Comments

Por Mateus Campos, Paula Bianchi, do The Intercept Brasil

Evaristo passou a última Flip, a Festa Literária de Paraty, no entanto, praticamente em campanha. Teve seis compromissos durante o evento – mais que os presidenciáveis Guilherme Boulos e Manuela Dávila –, e foi questionada sobre sua candidatura em todos eles. “Que Ogum te ilumine até a Academia Brasileira de Letras”, disse o poeta e escritor também mineiro Robson di Brito em uma das mesas. Qual seria “sua bandeira na inserção cultural dentro da ABL?”, perguntou o escritor e pesquisador carioca Jorge Luiz Alves em outro encontro.

Ao falar com o Intercept na semana passada sobre o conservadorismo e a quase inexistência de intelectuais negros na academia, ela adotou um tom moderado e conciliatório. “A ABL não está fora da dinâmica social de relações sociais e raciais do nosso país. Na verdade, essa formação da academia é uma formação de quase todas instituições brasileiras. A falta de representatividade se dá em todo lugar.”

Sua candidatura causou desconforto nos salões da academia, desacostumada a ter suas escolhas escrutinadas. Alguns acadêmicos interpretaram a movimentação em torno do nome de Conceição Evaristo como uma forma de pressão. Outros chegaram a se dizer “intimidados” com o vozerio que veio da rua. Após o abaixo-assinado, a ABL passou até a receber ligações em sua sede questionando o processo decisório, a paridade entre homens e mulheres na casa e mesmo a raça dos imortais. A uma dessas ligações, um funcionário teria respondido: “Aqui na casa não tem isso, somos todos da raça humana”.

Nem Conceição nem Martinho

Mesmo que tivesse seguido o protocolo, nada garante que Conceição teria chances nesta eleição. Em 2010, o compositor Martinho da Vila decidiu concorrer e seguiu à risca a etiqueta da casa. Na época, o sambista contava tanto com o apoio do movimento negro quanto com o suporte de aliados entre os 40 imortais. Ele foi incentivado e aconselhado por Marcos Vinicios Vilaça, ex-presidente da ABL. Sua aproximação com o mundo acadêmico foi feita dentro do protocolo centenário. A campanha começou anos antes de anunciar a candidatura (o músico chegou até a cantar para os funcionários da ABL em 2007), ele tinha um padrinho articulador e ofereceu os jantares para cortejar os eleitores.

Martinho recebe o diploma de acadêmico Academia Carioca de Letras.Martinho recebe o diploma de acadêmico Academia Carioca de Letras. (Foto: Agência O Globo)

Martinho tentou uma vaga ao lado do diplomata Geraldo Holanda Cavalcanti, vencedor, Eros Grau, à época ministro do STF, e Muniz Sodré, então diretor da Biblioteca Nacional. O sambista e escritor amargou a última colocação: não teve sequer o voto de seu “padrinho”, Vilaça. Ele ensaiou uma nova campanha após a morte de Ferreira Gullar em 2016, mas recuou. Em 2018, cogitou uma nova tentativa e convidou os acadêmicos para um show, mas desistiu em apoio a Evaristo. Hoje integrante da Academia Carioca de Letras, não carrega boas lembranças da eleição de oito anos atrás.

“A tradição manda que os candidatos conheçam primeiro os eleitores e alguns membros da ABL me orientaram nesse sentido. É um trabalho de campanha política. Eu não gostei. Achei chato à beça”, disse em entrevista por telefone, durante um intervalo da gravação do seu próximo disco.

No Rio como em Paris

Criada à semelhança da Academia Francesa, que remonta ao século 17, a ABL importou da França muitos dos seus hábitos e tradições, como os fardões fechados até o pescoço e em um tecido grosso, pouco afeito à tropicalidade brasileira, e o lema (“à imortalidade”). Ela reúne notáveis de diferentes áreas, não apenas escritores. Para ser eleito, basta ter publicado um livro sobre qualquer tema. Além de prestígio, a entrada na instituição pode trazer benefícios financeiros aos seus membros: todos recebem um salário que gira em torno de R$ 3 mil e ganham R$ 1 mil a cada participação nos encontros e chás promovidos pela casa. Quem participa das diretorias, também recebe pagamentos adicionais.

Privada, a instituição é responsável por editar o “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”. Grande parte da renda da ABL provém dos escritórios alugados no palácio Austregésilo de Athayde, que fica ao lado do Petit Trianon, e tem 29 andares. Metade das 300 salas do lugar, diz uma reportagem do Jornal do Brasil publicada em maio, estão vazias por conta da crise econômica que tomou o estado do Rio nos últimos anos. A queda na receita mensal teria chegado a 50%: de R$ 2,4 milhões para R$ 1,2 milhão. A diminuição gerou demissões no quadro de funcionários em fevereiro e também acarretou o cancelamento das sessões de terça-feira – antes, os imortais se reuniam ao menos duas vezes por semana. Procurada, a ABL informou que não comenta as finanças da instituição ou a eleição.

Machado negro?

A questão racial está presente nos debates entre os escritores da ABL desde praticamente a sua fundação. Muito por conta da polêmica em torno da cor da pele e da origem dos ancestrais de Machado de Assis, fundador da casa e cuja escultura de bronze feita por Humberto Cozzo adorna a entrada do Petit Trianon.

Na época do falecimento do autor de “Dom Casmurro”, seu amigo e confrade Joaquim Nabuco reagiu com indignação a um artigo de José Veríssimo, que empregou o termo “mulato” para se referir ao primeiro presidente da academia. “A palavra não é literária e é pejorativa. O Machado para mim era branco, e creio que por tal se tomava: quando houvesse sangue estranho, isto em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego”, escreveu.

Em 2015, Evaristo ganhou o prêmio Jabuti pelo romance "Olhos D'água".

Em 2015, Evaristo ganhou o prêmio Jabuti pelo romance “Olhos D’água”. (Foto: Reprodução/Editora Pallas)

Anos mais tarde, Lima Barreto tentou entrar para a Academia em duas oportunidades, entre 1917 e 1921. Mais virulento do que Conceição Evaristo, o autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” era crítico contumaz da instituição e a acusava de frivolidade de tempos em tempos. Chamados de “diplomatas chics” e “médicos afreguesados” por ele, os acadêmicos não se empolgaram com as suas pretensões. Na época, considerava-se que Barreto, um boêmio incontornável, não tinha os predicados necessários para um imortal. Certamente, suas passagens por sanatórios e hospitais psiquiátricos também não fizeram muito bem à sua imagem.

A negritude de Machado de Assis é uma questão na ABL desde a sua inauguração.A negritude de Machado de Assis é uma questão na ABL desde a sua inauguração. (Foto: Reprodução/Arquivo Nacional)

Foi preterido duas vezes, desistiu em uma outra e jamais ocupou um dos quarenta assentos da casa. Na última tentativa, escreveu um artigo magoado na revista Careta para justificar suas pretensões: “Eu sou escritor e, seja grande ou pequeno, tenho direito a pleitear as recompensas que o Brasil dá aos que se distinguem na sua literatura”. Em 2017, 96 anos depois do derradeiro pleito de Lima, a academia reconheceu a importância do autor carioca e de outros que nunca foram eleitos em um ciclo de conferências desenvolvido por Ana Maria Machado e batizado com o simbólico título de “Cadeira 41”.

O imortal Proença Filho, por sua vez, acredita que a questão racial não desempenha papel relevante na sua eleição. Presidente da casa entre 2016 e 2017, o professor, poeta e pesquisador carioca foi entrou em 2006 para suceder o jurista Oscar Dias Corrêa na cadeira 28.

“Costumo dizer que sou um escritor negro, e não um negro escritor. Me apresentei como um candidato orgulhoso da minha afrodescendência e tenho que dizer que o problema racial não interferiu nem a favor, nem contra. Não posso afirmar se existe preconceito velado, porque não estou dentro da cabeça das pessoas”.

Único acadêmico negro, Proença Filho diz que não há preconceito na ABL.Único acadêmico negro, Proença Filho diz que não há preconceito na ABL. (Foto: Reprodução/ABL)

Há dois anos, Evaristo deflagrou uma pequena revolução na Festa Literária de Paraty. Durante um evento paralelo, ela leu uma carta que questionava a falta de diversidade do evento, assinada pelo Grupo de Estudo e Pesquisa Intelectual Negra da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O protesto reverberou e, a partir de 2017, a festa passou a ser mais plural – tanto na programação oficial quanto no público que viaja até a cidade do interior fluminense.

Para ela, cedo ou tarde, essa mudança de paradigma levará mais autores e autoras negros à ABL: “Cada vez mais, nós vamos colocar alunos negros nas universidades. As ações afirmativas, apesar de a gente viver um momento temeroso, já produziram seus efeitos. E eles vão se tornar mais concretos. Nas universidades, tem um grupo de jovens que chegou pra deixar a sua marca. Com muita luta, afinal não estamos nem na metade da metade, a nossa presença vai se sedimentar em determinados espaços antes geridos pelos homens brancos”, nos disse Evaristo, a suposta derrotada do dia.

 

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked. *