Em dois dias, Florianópolis perde Nelinho e Dascuia, figuras marcantes do Carnaval da Ilha

Seu Nelinho na festa da vitória da Copa Lord. (Foto: Daniel Queiroz/DN)

Do DN

O Carnaval de Florianópolis perdeu dois de seus expoentes de domingo (8) para cá. O primeiro foi Manoel Domingos Costa, o Nelinho, 96 anos, um dos fundadores e figura importante na história da Embaixada Copa Lord, que morreu há dois dias em Itajaí, onde morava e presidia a Associação dos Ex-combatentes local. Nesta segunda-feira (9), morreu na Ilha o carnavalesco Altamiro José dos Anjos, o Dascuia, fundador do bloco e depois escola de samba que leva o seu nome. Dascuia foi agraciado em fevereiro deste ano no desfile de sua agremiação com um enredo em sua homenagem. Nelinho também foi destaque no desfile da Copa Lord e dias depois veio de Itajaí para comemorar o título da escola, conquistado com o tema “Manjericão – Um banho de fé”. Ele foi enterrado nesta segunda no cemitério do Itacorubi, na Capital.

Nascido em 1922, Manoel Domingos Costa usava marcapasso, mas quase não tomava remédios e ainda realizava duas reuniões semanais com os ex-combatentes de Itajaí, cidade onde também atuava junto ao grupo de idosos da corporação e ao grupo de alcoólicos anônimos do Parque Dom Bosco. No sábado (7), ele recebeu a medalha Eternos Combatentes da FEB (Força Expedicionária Brasileira), em Camboriú, na condição de único ex-oficial telegrafista vivo da Marinha de Guerra do Brasil. O evento ocorreu em homenagem ao 73º aniversário da vitória dos Aliados na Segunda Guerra e ao Dia Internacional dos Mantenedores de Paz das Nações Unidas (peacekeepers). Ele também era o pracinha mais antigo da Marinha na jurisdição de Santa Catarina. Deixa a mulher Maurília Maria Farias Costa e uma filha.

Segundo o diretor de Carnaval da Copa Lord, João Benites, Nelinho dedicou “muitos anos de amor à escola”. O cidadão-samba da mais antiga agremiação da Ilha, Jefferson Willian da Costa, o Nego Gê, teve pouco contato com o carnavalesco, mas este ano foi quem, como responsável pelas alegorias, confeccionou uma coroa imperial onde ele desfilou, num carro exclusivo. “Se a escola faz sucesso hoje, devemos muito aos pioneiros”, afirma Nego Gê, ressaltando que Nelinho fazia questão de participar de todos os desfiles da escola do Morro da Caixa.

Tenente coronel da Polícia Militar do Estado, a escritora Edenice Fraga conheceu Manoel Domingos Costa há cinco anos, mas não cansa de elogiar o seu apego à escola e à cidade de Florianópolis. “Era um exemplo de obstinação e estava sempre brincando e na encorajando na carreira”, afirma. “Ainda viajava a trabalho e no dia 21 deste mês viria prestigiar o lançamento de meu novo livro”.

O samba que vem do Morro do Céu

Campeã do Carnaval deste ano em Florianópolis, a Embaixada Copa Lord vem perdendo aos poucos, como as demais escolas, os seus fundadores, mestres e integrantes das velhas guardas. Figura emblemática da folia na cidade, Altamiro José dos Anjos, o Dascuia, foi vice-presidente da escola do Morro da Caixa e também presidiu a Protegidos da Princesa antes de criar o próprio bloco, em 2004. Ele morreu nesta segunda-feira, aos 82 anos, deixando a mulher Valdeonira Silva dos Anjos, filhos, netos, sobrinhos e bisnetos – que se envolveram, junto com a comunidade do Morro do Céu e arredores, no projeto do bloco e da escola. Das 300 pessoas do primeiro desfile, ainda com o nome de Filhos de Dadá, até o quarto lugar do grupo principal, em 2015, foram muitas conquistas.

Seu Dascuia com a mulher Valdeonira - Marco Santiago/NDSeu Dascuia com a mulher Valdeonira. (Foto: Marco Santiago/DN)

“No ano seguinte [ao da estreia, em 2004] saímos com mais pessoas e depois foi aumentando muito rápido”, depôs Valdeonira ao jornal Notícias do Dia, em janeiro deste ano. “Chegamos a sair com quase 2 mil pessoas como bloco, e aí as pessoas diziam pra gente formar uma escola. Fomos crescendo em estrutura, organização, cultura, componentes. O fortalecimento da escola foi graças ao apoio dos moradores do Morro do Céu”.

Músico e atleta na Base Aérea de Florianópolis, Dascuia era um militar que gostava de frequentar as rodas de samba de Florianópolis. Ao ir para a reserva, nos anos 80, teve mais tempo para se dedicar ao Carnaval, tanto que passou pela Protegidos e Copa Lord. “Era muito dinâmico, praticava esportes como futebol, vôlei, basquete e corrida, e foi medalhista dos Jogos Abertos”, relembrou a mulher. O bloco foi campeão em 2011e um ano depois foi convidado a participar do grupo de acesso, como escola. Em 2014, ficou em primeiro lugar no segundo grupo, e no ano seguinte passou a integrar a elite da folia na Ilha.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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