Escravidão, racismo e a personalidade aprisionada

Marisa Corrêa da Silva. (Foto: Arquivo pessoal)

Por Marisa Corrêa da Silva*

O mês da consciência negra evoca questionamentos em relação às inscrições da escravidão e do racismo no desenvolvimento da personalidade e consequentes padrões de comportamento da população brasileira, afrodescendente ou não.

A proposta deste texto introdutório é fomentar o desenvolvimento e a construção de discussões, pesquisas, intervenções, narrativas, projetos e outras iniciativas que permaneçam e proliferem para além do mês de novembro.

Vivemos uma sociedade marcada por uma enorme discrepância social, econômica e cultural, com a qual nos confrontamos diariamente. Daí podermos falar de, no mínimo, duas realidades distintas, diversas em seus hábitos, suas experiências de vida, seus parâmetros e referenciais. O país em que vivemos abriga, no mesmo contexto político-social, mundos que não conversam entre si. Em um deles, vivem as pessoas que “mandam porque podem” e, no outro, as que “obedecem porque têm juízo”. Este dito popular retrata o cerne da temática que será apresentada, resumidamente, a seguir.

A escravização da população africana em território brasileiro dizimou milhares de homens e mulheres ao longo de mais de 300 anos e nos legou um complexo discurso racista, atos de violência discriminatória e profundos traumas psíquicos individuais e coletivos. A partir desta constatação, é razoável presumir que esses traumas afetem o desenvolvimento psíquico e a formação da personalidade da nossa população. Entretanto, não se tem o entendimento de que a vivência e a prática do racismo, enquanto herança da escravização, precisem, necessariamente, ser consideradas como trauma e, por consequência, receber atenção específica na abordagem do sofrimento físico, psíquico e da constituição da personalidade.

Diferentemente de outros crimes hediondos contra a humanidade, a escravidão nunca foi considerada como tal. Pelo contrário, ela foi justificada por uma teoria pseudocientífica sobre a existência de raças inferiores, legitimando, desta forma, a coisificação e o genocídio da população negra.

Se o crime foi negado, os acometidos por esse crime também não são identificados como tais. A negação de um crime implica uma tolerância do mesmo ou até a sua exaltação, o que dificulta o reconhecimento da brutal malignidade desse crime até mesmo por quem foi por ele acometido, neste caso, a população negra. No entanto, essa tolerância ao crime de abuso de outro ser humano não impede que essa dor seja vivida pela população abusada. Essa dor, porém, por não ser reconhecida, permanece sem a possibilidade de ser simbolizada e, consequentemente, sem a possibilidade de ser elaborada. Essa não simbolização propicia um sofrimento invisibilizando e silencioso da população descendente de seres humanos escravizados expostos continuamente a violências que visam à destituição de sua condição de humanidade.

Esta vivência secular e crônica não é considerada pela sociedade. Ela existe e se mantém presente, não só no dia a dia da nossa sociedade, mas também como uma experiência transgeracional que inscreveu e continua inscrevendo verdades mentirosas, falácias subjetivas e inconscientes no comportamento coletivo da população tanto negra quanto branca.

A prática de violências legitimando a coisificação desse ser humano contribui para que ele se vivencie como um sujeito lesionado e fragmentado, com diversos graus de comprometimento psíquico. É um sujeito permeado pelo pavor, pelo medo, pelo ódio, pela dor, pela raiva, pela culpa, pela vergonha, pela humilhação, igualmente em diversos graus de intensidade. A dimensão destes sentimentos é equivalente à dimensão de sentimentos consequentes a um trauma gravíssimo, porém a sequela escravocrata não é identificada como tal pela sociedade em que vivemos – incluindo sociedade psiquiátrica, psicanalítica, áreas da saúde e da educação.

Um exemplo de que a herança da escravização raramente é identificada como experiência traumática é o fato de que, nos dois principais codificadores de diagnósticos psiquiátricos – o CID (Código Internacional de Doença ) e o DSM V ( Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais), não há esta referência como fator traumático e lesivo nos diagnósticos de stress pós- traumático.

Não considerar este aspecto é uma lacuna na abordagem psiquiátrica e psicanalítica, assim como o é na abordagem social, pedagógica e da saúde. É essencial entendermos que todo afrodescendente no Brasil carrega dentro de si, de alguma forma, com alguma intensidade, no mínimo resquícios desse trauma não reconhecido e não elaborado. É trauma transmitido transgeracionalmente, podendo dar origem a uma personalidade escravizada, aprisionada, sem condições de análise e entendimento do projeto de poder por detrás da perpetuação do racismo. Daí resulta uma personalidade inibida de ação por séculos de violências impostas, institucionalizadas, autorizadas e legalizadas; uma personalidade com a autoestima, a autoconfiança e a autopreservação extremamente prejudicadas.

Um aspecto importante de ser destacado é que essa transmissão de geração a geração pode acontecer mesmo que a geração seguinte não tenha diretamente vivenciado o trauma ou não o tenha vivenciado com a mesma intensidade e da mesma forma que a geração anterior. Com esta afirmação, não estou excluindo a probabilidade de que o modo como cada um, nesse contexto, se vivencia, lida, reage e se comporta em relação a esse trauma seja também influenciado pela sua história individual. De qualquer maneira, mesmo levando-se em consideração o histórico individual, acredito ser fundamental que esse trauma seja levado em consideração, rotineiramente, nas avaliações realizadas nas áreas médica, pedagógica e social. Desta forma conseguiremos entender, com maior facilidade, as dinâmicas que perpetuam as condições de precariedade social, cultural, educacional, econômica e de saúde do País.

Construirmos juntos um diálogo a partir de uma escuta desse silêncio e de um enxergar dessa invisibilidade é a proposta principal. Trata-se de um enorme desafio, pois vamos ouvir um silêncio extremamente ruidoso, com gritos horripilantes de dor que precisam, ainda, ser simbolizados e decifrados. Vamos identificar uma invisibilidade, cuja imagem é negra, um enorme breu que nos causará, certamente, um grande mal-estar.

Tais inscrições na personalidade, que não chegam à consciência, nem mesmo do indivíduo que sofre o trauma, apesar de presentes, propiciam também o estabelecimento de mecanismos psíquicos inconscientes e nocivos que, por sua vez, podem levar a própria população afrodescendente a perpetuar o seu status de invisibilidade e exclusão. Explicitando melhor, podemos dizer que a reação a essa vivência traumática, que não é legitimada nem nomeada como tal, é, muitas vezes, paradoxal, pois o indivíduo percebe as dores do trauma, mas como o trauma não é identificado, a simbolização dessas dores fica extremamente prejudicada. Com isto, os mecanismos de defesa acionados para lidar com esse sofrimento não estão necessariamente a serviço de quem sofre a dor. Por exemplo, “querer casar com um branco, para melhorar a raça” é uma postura muitas vezes adotada com a intenção de diminuir o sofrimento da humilhação, do abuso e de outras violências pelo simples fato de ser negro. É como se a pessoa dissesse: “se as próximas gerações vierem mais clarinhas não terão que passar pelo sofrimento que passei”.

Analisando sob esta ótica, poderíamos entender a reação paradoxal de querer ser igual ao agressor e discriminador branco. Mas se houvesse a consciência de que se é portador de inscrições traumáticas e, portanto, portador de lesões, amputações e deformações psíquicas com consequências inclusive físicas, e que esse trauma foi, ao longo dos séculos, intencionalmente introduzido na população negra, sendo perpetuado até os dias atuais, muito provavelmente não haveria a reação de tomar para si o discurso do dominador branco. Na psicanálise esse mecanismo de defesa é chamado de identificação com o agressor.

Outro aspecto desta aberração de dois mundos tentando viver em dicotomia é que a discriminação e a exclusão social, enquanto sequelas da escravidão, não são problemas só da população negra. Elas têm grande participação na precariedade socioeconômica, cultural e política em que vivemos. Perpetuam uma mentalidade arbitrária, autoritária e predadora. Essa mentalidade cultiva, intencionalmente, práticas traiçoeiras, imediatistas, levianas que intermedeiam as relações sociais em todos os níveis. Seguindo este raciocínio, é possível identificar o fio condutor da prática do compadrio, da violação dos direitos, dos deveres sociais e políticos em prol dos interesses próprios, da impunidade parcial e seletiva.

Essa prática usual e tolerada no nosso país compromete a qualidade de vida da sociedade como um todo e não só da população negra e pobre. A população não negra, não pobre também é acometida por essa irresponsabilidade político-social. A mentalidade escravagista, ancorada no paradigma da separação e classificação arbitrária de seres humanos em “dignos” e “indignos”, desumaniza as vidas “indignas”. Essa desumanização respinga diretamente nas vidas “dignas”, já que um ser coisificado dificilmente conseguirá contribuir construtivamente, tendendo a uma participação destrutiva ou a uma participação praticamente pouco significativa no funcionamento da sociedade.

Neste sentido, fica claro que dentre as consequências dessa mentalidade escravagista estão as insatisfações e inquietudes da população não negra e não pobre. A instituição e manutenção de dois mundos que não conversam criou uma dinâmica de fantasias e representações de um mundo em relação ao outro que não são, necessariamente, verificadas e entendidas nos seus contextos históricos, políticos e sociais. Se pensarmos nos estereótipos construídos pela classe dominante sobre a população negra, como, por exemplo, “negro é sujo, ladrão, burro, preguiçoso” e “negro é bom de cama, de samba e de futebol”, vemos representações de dois polos: o primeiro com a representação do indesejável em nós negros e que precisa ser extirpado e depositado fora de nós. O segundo, com a representação do desejável porém muitas vezes proibido e recalcado que, igualmente, precisa ser depositado fora de nós. Assim, podemos entender a função de superfície de projeção ocupada pela população negra, superfície essa que gera sentimentos contraditórios como medo, ódio, desprezo mas também cobiça, inveja, despeito.

Por outro lado, há, também, uma representação estereotipada do mundo branco como um mundo idealizado positivamente, onde só existem coisas admiráveis a serem desejadas e, muitas vezes, transformadas em padrões de medida do que é belo e do que é bom. Vemos, contudo, que, no mundo “digno”, confortável e privilegiado, a vida se dá em uma bolha frágil e com enormes restrições, como se transcorresse em uma gaiola de ouro – uma vida com privilégios, mas permeada de angústias, fantasias paranoicas e ilusões narcísicas que fomentam um comportamento de negação e alienação ante à gravidade da existência desses dois mundos.

A análise de aspectos presentes no comportamento da população privilegiada também é fundamental para responsabilizar e incluir esta população no processo de reparação deste trauma. O discurso de que o racismo é um problema só dos negros é definitivamente inaceitável por configurar um modo de fuga da própria responsabilidade na prática da conjuntura traumatizante.

O racismo, no Brasil, nos remete a uma característica chave, embora velada, da nossa sociedade. Observando o imensurável incômodo que a sua tematização provoca, cabe pensar na existência de uma determinante interdependência neurótica entre esses dois mundos. Investigar e entender essa interdependência pode ser um caminho para modificações de comportamentos.

Uma população afrodescendente em maioria numérica, que se mantém em posição socialmente minoritária, bloqueada pelas lesões decorrentes do horror traumático reflete o que denominei, no título deste artigo, de personalidade aprisionada. Propiciar a simbolização do trauma intencionando a elaboração do mesmo é um desafio, mas também um caminho para a libertação da personalidade.

*Médica psiquiatra e psicanalista – São Paulo, Brasil e Erfurt, Alemanha.

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