Finalistas Prêmio Jabuti: O resgate da obra de um intelectual negro no período da pós-abolição

Livro do historiador paranaense Fábio Garcia traz artigos escritos Ildefonso Juvenal, um dos mais importantes escritores e precursores no combate ao preconceito racial no

Ildefonso Juvenal da Silva publicou 17 livros, além de centenas de artigos e crônicas em jornais. (Foto: Arquivo Família/Divulgação)

Por Camile Triska, do CG

A reunião de artigos escritos por um dos mais importantes intelectuais da história de Santa Catarina é abordada em um dos livros finalistas do Prêmio Jabuti deste ano, “Ildefonso Juvenal da Silva – Um memorialista negro no sul do Brasil” (Editora Cruz e Sousa), organizado pelo paranaense Fábio Garcia, historiador e escritor radicado em nosso estado vizinho.

O livro traz artigos de Ildefonso Juvenal escritos ao longo de mais de 50 anos, publicados em diversos jornais de Santa Catarina e na imprensa paranaense e rio-grandense, além de uma apresentação do percurso de pesquisa feita por Fábio Garcia, seguido de cronologia de vida e obra do intelectual.

“A contribuição de Ildefonso Juvenal para a história de Santa Catarina é incomensurável, sendo ela fundamental para a compreensão das estratégias e sociabilidades desenvolvidas pela população negra no pós-abolição”, avalia o historiador.

Esse não é a primeira vez que a produção literária e jornalística de Ildefonso Juvenal é abordada pelo escritor e historiador. Em seu primeiro livro, “Negras Pretensões: a presença de intelectuais, músicos e poetas negros nos jornais de Florianópolis e Tijucas no início do século XX”, lançado no ano de 2007, o intelectual já é mencionado. Em 2009, a biografia dele foi inserida em outra publicação de Garcia, “Africanidades Catarinenses”.

“Porém, sempre idealizei a reedição dos textos, tal qual eles foram concebidos pelo autor em vida. Ao longo dos últimos 15 anos, busquei por diversas vezes viabilizar o projeto de reeditar toda a produção feita pelo Juvenal. O livro que temos em mãos reúne uma pequena parcela desse acervo, pois dos 400 artigos escritos em jornais, reeditamos apenas 90”, revela o historiador e escritor, comentando ainda que até 2007 eram poucos os pesquisadores que conheciam Ildefonso Juvenal e sua obra.

Ildefonso Juvenal da Silva: um memorialista negro no Sul do Brasil | Editora Cruz e Sousa

(Foto: Divulgação)

“Ildefonso Juvenal da Silva – Um memorialista negro no sul do Brasil” foi lançado oficialmente em abril de 2019, na Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina, dentro das comemorações dos 125 anos de nascimento do escritor, que ainda teve a estreia do documentário “Uma herança, um dom: aspectos da vida e obra de Ildefonso Juvenal da Silva, uma coprodução da Editora Cruz e Sousa com a Iashar filmes (disponível neste link) e uma mostra de artigos de jornais escritos por Juvenal, a qual circulou pelas cidades de Florianópolis, Itajaí e Criciúma.

Para o próximo ano, Garcia ainda fará a conclusão da biografia de Ildefonso Juvenal no curso de Mestrado em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, além de finalizar um romance sobre a vida São Jorge e uma reedição da poesia completa de João Rosa Júnior, também escritor do pós-abolição em Santa Catarina.

“Até 1920, João Rosa Júnior era conhecido como um ilustre maestro musical. A poesia surge na vida do maestro após ter ficado cego em decorrência do glaucoma. O livro está previsto para abril de 2021”, adianta Fábio Garcia.

Quem foi Ildefonso Juvenal da Silva

Natural da antiga cidade de Desterro, hoje Florianópolis, Ildefonso Juvenal da Silva (1894 – 1965) se destacou por ajudar a superar estigmas que mantinham a população negra à margem da sociedade e a combater a discriminação racial e preconceitos.

Sua estreia na literatura foi em 1914, aos 20 anos, quando publicou com recursos próprios o livro Contos Singelos, o primeiro de 17 obras que lançou, com contos, poesia e teatro. Entre os jornais para os quais Ildefonso Juvenal escreveu crônicas e artigos estão “O Azar” e a “A Casaca”, ambos de 1911; “Folha Rosea”, de 1915; “O Acadêmico”, de 1923; e “O Miliciano”, de 1927.

Ildefonso foi ainda cofundador da Associação dos Homens de Cor, do Centro Cívico e Recreativo José Boiteux, do Centro Catarinense de Letras, da Associação Promotora da Herma de Cruz e Sousa, além de membro correspondente da Academia Rio-Grandense de Letras (Rio Grande do Sul), da Academia de Letras José de Alencar (Paraná), da Academia de Letras do Paraná, do Instituto Histórico de Geográfico de Santa Catarina e da coirmã na cidade de Santos, São Paulo.

Além da carreira literária, atuou como farmacêutico, sendo fundador da Associação dos Farmacêuticos de Santa Catarina e foi Major da Polícia Militar, instituição na qual ainda ministrou aulas de alfabetização.

O “Ildefonso Juvenal da Silva – Um memorialista negro no sul do Brasil” está à venda no site da Editora Cruz e Sousa.

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