Goli Guerreiro e Goya Lopes falam sobre a arte negra na diáspora, em seminário da Bienal

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As palestrantes Goya Lopes (esquerda), e Goli Guerreiro. (Foto: Tuane Eggers)

Por Airan Albino

Na sexta-feira (10/04) aconteceu mais uma atividade paralela à 11ª Bienal do Mercosul: o seminário “Artes Negras – criação, estilos e africanidade”. Composta pela antropóloga e escritora baiana Goli Guerreiro, pela designer têxtil , artista plástica e empresária Goya Lopes e mediada pelo publicitário Juarez Ribeiro, a mesa apresentou e debateu aspectos teóricos, técnicos e estéticos das representações visuais do mundo negro, tanto em África quanto na diáspora.

Goli é autora de dois livros-irmãos “Terceira diáspora: culturas negras do mundo atlântico” e “Terceira diáspora: o porto da Bahia”. Escreveu também “A trama dos tambores – a cena afro-pop de Salvador” e “Terror e aventura — tráfico de africanos e cotidiano na Bahia”. Com pós-doutorado em antropologia, fez também pós-doutorado em Letras do qual resultou seu primeiro romance, “Alzira está morta – Ficção histórica no mundo negro do Atlântico”, vencedor do Selo Literário João Ubaldo Ribeiro (2015).

É criadora do projeto Estúdio África, em Salvador através do qual realizou uma série de fotografias com soteropolitanos do bairro de Castelo Branco, periferia da capital, inspiradas em técnicas africanas de fotografar. Neste seminário em Porto Alegre explicou como a arte de fotografar se desenvolveu no continente negro, falou das características das diferentes escolas que surgiram ao longo do tempo em determinados países africanos, como as de fotos domésticas e de duplos que Alex Acolatse (1880-1975) do Togo criou; do uso dos tecidos, da expressão nas mãos e do olhar diagonal como traços dos fotógrafos do Senegal, como Meïssa Gaye (1892-1982) e Mama Casset (1908-1992); do uso dos fundos decorativos, do uso de relógios e rádios no Mali, com Mountaga Dembélé (1919-2004), Seydou Keïta (1921-2001) e Malick Sidibé (1936-2016) e de Philip Kwame Apagya, de Gana, que aperfeiçoou os fundos, deixando-os interativos, além de históricos. Concluiu sua fala neste evento ressaltando a riqueza estética das diversas culturas em África cuja influência pode ser constatada pelo mundo, inclusive e especialmente deste lado do Atlântico.

Goya trouxe ao evento sua história como artista e também empresária do design têxtil de produtos com estampas afro-brasileiras. Formada em Artes plásticas no Brasil, concorreu a uma bolsa de estudos para especialização na Itália (1977) e ficou 3 anos em Florença estudando na Universitá Internazionale dell’Arte di Firenze onde estudou também litografia. Atuando há mais de 30 anos no mercado, contou que seu trabalho é baseado em pesquisa. Provérbios africanos, o uso de cores quentes e frias, contar a história da tecelagem e reconhecimento de figuras e de fundos foram seus nortes para desenvolver sua arte.

Em 1986, criou a marca Didara (“o que é bom”, na língua africana Iorubá) e suas coleções são inspiradas por elementos da diáspora, como a Feira de São Joaquim, o Candomblé, o Baobá e os próprios ambulantes negros. Como seu trabalho é criar e expressar um estilo, ela foi além da moda, tendo trabalhado com hotéis, hospitais, revistas, museus, prédios, empresas de cosméticos e universidades. Sua influência ao longo dos anos fez com que ampliasse a visão de negócio sobre seu produto, assim promoveu seminários, criou grupos de trabalho e a Associação Nacional da Moda Afro-Brasileira (Anamab), em 2012. Hoje, na continuidade do trabalho têxtil, a marca Didara passou a ser Goya Lopes Design Brasileiro e ela fala sobre economia criativa, mercado da moda e procura conhecer o trabalho local das regiões por onde passa. Em Porto Alegre não foi diferente: Clau Estampas, Iris Abreu, Pimenta Mimosa, Consome foram algumas das marcas gaúchas com traços de africanidade lembradas na sua apresentação.

Os temas apresentados pelas duas artistas mobilizaram intelectual e emocionalmente os participantes. Tanto, que apoiadores da exposição, atuantes do ramo têxtil se propuseram a dialogar com a presidência da Bienal e pensar na construção de mais um momento que consiga ampliar o alcance do mesmo sentimento, da mesma representatividade que o seminário “Artes Negras – criação, estilos e africanidade” propiciou.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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