Grupo perturba e interrompe aula sobre saúde da população negra na UFSM-PM

“Conseguimos. Qual vai ser a próxima?”, comemora grupo após debate ser interrompido

Professora Fernanda Bairros, da UFRGS, ministrante do curso que foi atacado. (Foto: Divulgação)

Por Bruna Homrich*

Na última segunda, 6 de julho, a disciplina de Vigilância e Segurança Alimentar e Nutricional do curso de Nutrição da UFSM/RS em Palmeira das Missões promoveria a palestra “Saúde e Nutrição da População Negra”. A aula pública que seria ministrada pela professora Fernanda Bairros, da UFRGS, ocorreria pela plataforma virtual Google Meet. Nossa narrativa está no pretérito imperfeito porque, embora tenha iniciado, o debate nunca se encerrou. Em meio às discussões, um grupo composto por 10 a 15 pessoas solicitou entrada na sala e passou a promover uma série de entraves ao andamento da palestra. Num segundo momento, tais pessoas ligaram o microfone e passaram a desferir frases de deboche e ameaças contra os participantes. O incômodo foi tamanho que a aula teve de ser encerrada.

Vanessa Kirsten, docente responsável pela disciplina e pela organização da palestra, conta que seu trabalho aborda a temática da vigilância alimentar em populações vulneráveis como indígenas e quilombolas. Para esta atividade em específico, a ideia era debater a saúde da população negra, tema pouco inserido nos cursos de Nutrição ou mesmo naqueles pertencentes à área da Saúde. Uma vez que o tema era de relevância social, a docente resolveu abrir a aula para toda a comunidade interessada. Desta forma, o link para acesso à sala de debate foi amplamente divulgado nas redes sociais e no site da UFSM em Palmeira das Missões.

Estavam presentes na aula pública diversos professores, alunos de graduação e pós-graduação, inclusive de outras universidades, além de profissionais da área de Nutrição. Ocorre que, em torno de 40 minutos após o início da aula, Vanessa, que era a responsável por aceitar as solicitações das pessoas para ingressarem na sala, passou a receber vários novos pedidos de ingresso. “Eu acabei confirmando esse ingresso. Por ingenuidade, por não prever que essas coisas poderiam acontecer”, conta.

Evento, por ter temática importante inclusive em tempos de pandemia, era aberto ao público. (Imagem: Divulgação)

“Foi um grupo relativamente grande, dez ou quinze pessoas, que entraram no mesmo momento e começaram a fazer comentários no chat como ‘eu não entendi, professora, pode voltar a isso?’ ou ‘como assim isso é racismo?’. Se tu for avaliar os comentários, sem entender o contexto, não os entende como comentários racistas. Não posso dizer que foi uma invasão porque o link era aberto e eu permiti a entrada dessas pessoas. Mas no momento em que percebemos que eles queriam atrapalhar o debate, eu solicitei aos participantes que saíssem da aula pois iríamos encerrar”, relata.

A partir daí, o grupo passou a celebrar. “Então eles abriram os microfones e começaram a fazer insultos, ameaças. Queriam nos dar uma sensação de medo, diziam que invadiriam nosso IP, que se fizéssemos uma nova aula eles iriam derrubar de novo, que iriam pegar nossos números de cartão de crédito. Quando eles viram que todas as pessoas saíram da sala, eles celebraram e disseram ‘Conseguimos. Qual vai ser a próxima?’”.

Investigação

Imediatamente após o encerramento da aula, Vanessa contatou a assessoria jurídica da UFSM, o reitor Paulo Burmann e a direção do campus de Palmeira das Missões, que forneceram as orientações necessárias. A docente buscou, em seguida, a Polícia Federal, onde registrou boletim de ocorrência para que se instaurasse a investigação.

Na aula organizada pela disciplina de Vanessa, o racismo não se expressou de forma escancarada, a partir de xingamentos explícitos com esse teor. O grupo adotou outra estratégia, colocando empecilhos ao andamento da discussão. Após conquistado seu objetivo, expressou deboches e ameaças. A docente relata estar bastante abalada com a situação.

“Esse ano completo 15 anos de docência no ensino superior. Por mais que a gente ouça e leia sobre isso acontecendo em outros lugares, a gente não imagina que vai acontecer conosco. Fica um sentimento de impotência, fragilidade, medo. Sinto muito também pela nossa palestrante ter vivenciado isso. Convidamos alguém sempre com as melhores intenções e jamais imaginamos que isso possa acontecer”, conclui Vanessa.

A UFSM lançou uma nota lamentando o ocorrido, manifestando total repúdio a esse tipo de ação e solicitando à comunidade acadêmica que redobre os cuidados com a segurança em atividades virtuais.

Cartilha de combate ao racismo

Cabe lembrar que o ANDES-SN lançou, ano passado, a Cartilha de Combate ao Racismo, produzida pelo Grupo de Trabalho de Políticas de Classe para as Questões Étnico-Raciais, de Gênero e de Diversidade Sexual. Clique aqui para ter acesso ao documento.

*Bruna Honrich é Assessora de Imprensa da SedUFSM/RS.

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