IV Copene Sul discute, em Jaguarão RS, “Ancestralidades, conquistas e resistências, em tempos de intolerâncias”

Congresso bienal realizado pela quarta vez na região sul do Brasil, reúne cientistas nacionais e internacionais, pesquisadores, professores, alunos e movimento social para discutir, com enfoque internacional, a produção da pesquisa científica no campo da cultura negra

A mesa de abertura foi composta pelo coordenador de ações afirmativas da Unipampa Sebastião Cerqueira Adão (à esquerda), da coordenadora do IV Copene Sul, Giane Vargas Escobar, do prefeito de Jaguarão Favio Teles, da vice-reitora da Universidade Federal do Pampa – Campus Jaguarão, Nádia Fátima dos Santos Buco, da diretora do Campus Jaguarão, Ana Cristina Rodrigues, da presidenta da ABPN, Nicéa Quintino e da escritora moçambicana Paulina Chiziane. (Foto: Banco de Imagens/NaçãoZ)

Por Juarez Ribeiro*

Com centenas de participantes, o Copene Sul – Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as da Região Sul do Brasil completou a sua 4ª edição, reunindo estudiosos e especialistas que desenvolvem pesquisas acadêmicas sobre temáticas africanas e afro-brasileiras nas diversas áreas das ciências no Brasil e em outros países. O Copene Sul, congresso que ocorre bienalmente na região sul do Brasil, foi realizado de 16 a 19 de julho de 2019, no Campus da Unipampa, em Jaguarão RS.

Antecedendo a abertura oficial do IV Copene Sul, nos dias 15 e 16 de julho, também nas dependências da Unipampa, foi realizado o II Congresso Nacional do Conneabs – Consórcio Nacional de Núcleos de Estudos Afro-brasileiros, presidido pelo professor Cleber dos Santos Vieira, do Neab da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp. O encontro reuniu núcleos de quase 20 estados da federação para a troca de experiências e discussão de temas de interesse dos núcleos consorciados.

Organizado pela Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as – ABPN e pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas – Neabi – Mocinha, da Unipampa, o IV Copene Sul contou com o apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Ufrgs, Universidade do Paraná – UFPR, Universidade Federal de Santa Catarina – Ufsc, Universidade Federal de Santa Maria -UFSM, Universidade Federal de Pelotas – Ufpel, Universidade Federal do Rio Grande – Furg, Universidade Luterana do Brasil – Ulbra, Universidade do Vale dos Sinos – Unisinos, Universidade Estadual de Maringá – UEM, Asociación de Investigadores [as] Negros [as] de America Latina y el Caribe –  Ainalc, Instituto Federal do Rio Grande do Sul – IFRS, Clube Social 24 de Agosto, Ministerio de Desarrollo Social – Mides, Secretaría de Género Dirección de Gestión Social – Goberno de Cerro Largo-Uruguai, Espacio Pro Afro – Cerro Largo- Uruguai, Teatro Esperança – Secult – Jaguarão, Fundação de Amparo à Pesquisa RS – Fapergs e diversas parcerias colaborativas.

A cerimônia de abertura oficial do encontro aconteceu na terça-feira [16/07], às 18h, no Teatro Esperança, com a participação do prefeito municipal de Jaguarão, Favio Teles, da vice-reitora da Universidade Federal do Pampa – Campus Jaguarão, Nádia Fátima dos Santos Bucco,  da Diretora do Campus Jaguarão, Ana Cristina Rodrigues, do coordenador de ações afirmativas da Unipampa Sebastião Cerqueira Adão, da coordenadora do IV Copene Sul, Giane Vargas Escobar, da presidenta da ABPN, Nicéa Quintino.

Presidindo a mesa, após as saudações de boas-vindas aos congressistas, a Profa. Dra. Giane Vargas Escobar, coordenadora do IV Copene Sul destacou a dimensão que o evento assume por reunir os três estados da região sul do país – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de estar sendo realizado no município de Jaguarão, no extremo sul do RS, junto a uma fronteira internacional, favorecendo, com isto, a possibilidade de intercâmbio e a presença do Uruguai, representado por instituições de estado e organizações culturais afro-uruguaias. Manifestou ainda sua saudação à escritora moçambicana Paulina Chiziane como símbolo da conexão do evento com o continente africano e aproveitou a oportunidade para agradecer aos colegas da Diretoria de Assuntos Estratégicos e de Relações Institucionais e Internacionais da Unipampa – DAEINTER pelos esforços para trazer palestrantes internacionais ao evento – Paulina Chiziane e Dionízio Bahule, de Moçambique e também os 30 convidados do Uruguai.

Giane  enfatizou que realizar o evento no atual contexto brasileiro, de transição política foi bastante difícil e muitas vezes teve medo, mas ao mesmo tempo pensava em todas as mulheres corajosas de ontem e de hoje que conhece. Encontrou inspiração também na escritora e teórica cultural norte-americana Gloria Evangelina Anzaldúa que, em “Uma carta para as mulheres do terceiro mundo” revelou que se tornara escritora justamente porque tinha medo de escrever, porém o seu medo maior ainda era o de não escrever. “Então, entre o não fazer e o fazer, nós escolhemos superar todo e qualquer medo, pela resistência, pela insistência, pelo desafio de seguir, mesmo diante de todas as dificuldades que a educação enfrenta neste momento no país”, afirmou Giane. E concluiu: “é preciso celebrar os avanços que tivemos por conta das ações afirmativas. Não foi sem razão a escolha da Unipampa como sede acadêmica para estes momentos, já que ela é uma das ações afirmativas, um ponto visível desses avanços que obtivemos nos últimos tempos, graças às lutas dos movimentos sociais negros no Brasil por políticas públicas de expansão das universidades em lugares esquecidos. Não é em vão que o tema que nos move neste evento é justamente ‘Ancestralidades, Conquistas e Resistências em Tempo de Intolerância’”.

A noite de abertura do IV Copene Sul contou também com a palestra inaugural proferida pela Profa. Dra. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (UFSCar).

A movimentação provocada pelo Copene

Foram 467 inscritos, 120 trabalhos aprovados em 7 sessões temáticas, 11 minicursos e 35 apresentações de pôsteres, além de espetáculos artísticos de música, performances , lançamento de livros e artesanato, cabendo salientar que encontros desse porte trazem mobilidade para a economia da cidade que os recebe. Durante uma semana, Jaguarão teve seus ativos de mercado e serviços impulsionados pelos congressistas que, vindos dos três estados do sul do Brasil e do Uruguai, utilizaram hotéis, restaurantes, bares e lojas, fazendo turismo nacional e internacional.

No final do Congresso, a coordenadora enfatizou que os esforços conduziram aos bons resultados alcançados. “Não podemos mais dar nenhum passo atrás e a palavra que nos move é resistência. Temos o direito de existir na academia, nas universidades e em qualquer lugar que queiramos”, concluiu Giane Escobar.

Palestrante africana fala sobre “Tradição oral moçambicana, ancestralidade e resistência negra”

Paulina falou por algumas horas de temas de sua paixão como as tradições moçambicanas, a ancestralidade e a resistência negra. (Foto: Banco de Imagens/NaçãoZ)

A escritora moçambicana Paulina Chiziane, convidada internacional do IV Copene Sul proferiu palestra na noite de quarta-feira (17/07), com o Teatro Esperança tomado pelos congressistas. Com brilhantismo, no seu estilo firme e ao mesmo tempo sereno, falou por algumas horas de temas de sua paixão como as tradições moçambicanas, a ancestralidade e a resistência negra. Valendo-se dos valores civilizatórios que têm a oralidade em realce, apresentou conceitos e apreciações teóricas de uma forma lúdica fazendo a plateia participar e acompanhá-la na contação de histórias usualmente animadas por cantigas tradicionais.  Apesar da metodologia leve e encantadora, a palestrante pontuou fortemente a necessidade de identificarmos e desconstruirmos hábitos de opressão nos nossos processos educativos, que anulam nossas tradições e, consequentemente, esvaziam nossa identidade e que devemos  começar pelos núcleos familiares e pela nossa comunidade onde se inicia a socialização humana, alcançando também os outros ambientes formadores como a escola e a academia.

Assim falou Paulina Chiziane, com seu sotaque moçambicano

Se nós olharmos  para a identidade dos moçambicanos hoje (eu acho que mesmo nas fotografias isto é possível ver) veremos que as mulheres do norte são mais coloridas, são mais alegres, são mais arrumadas. Uma mulher do norte não sai de casa sem fazer maquiagem. Há uma coisa muito bonita que eu vi nos povos do norte que é a hora do banho da “mamã”. Todo mundo em casa pode  tomar banho, esse banho é rápido, de cinco minutos, mas reserva-se uma hora de tempo para a “mamã” tomar banho. Achei aquilo estranho, mas a “mamã” toma seu banho, ela faz a maquiagem, usa aqueles panos coloridos e vai à vida. Este grupo de pessoas foi socializado pela tradição dos mitos que dizem que a mulher é que construiu o mundo, a mulher é uma rainha, a mulher tem um lugar na vida. No meu livro Niketche tento falar  um pouco neste assunto que é uma realidade. É só ver as imagens no meu matice. Se por acaso circularem  “Mulheres Moçambicanas” podem verificar.  Vê-se à distância – quem é do norte, quem é do sul. E no sul, porque a tradição é o patriarcado, o nosso mito de origem diz que foi o homem quem começou, então a mulher é uma mulher submissa e o aspecto mais interessante para mim, quando eu tento fazer a comparação desses mitos, é perceber que muitas vezes nós mulheres africanas   saímos à rua para reclamar os direitos da mulher e, por circunstâncias históricas ou não, às vezes adotamos um mito que é opressor – que é o mito judaico-cristão e deitamos fora o mito libertador que é o mito da criação do mundo a partir de uma mulher.

Especialmente nessas sociedades matriarcais, nós temos os ritos de iniciação. Eu sou do sul e não  posso falar com propriedade desses mitos porque  os mitos são  um pouco secretos. Dizem eles que,  tanto as mulheres como os homens aprendem  a cuidar da família, a respeitar  a sociedade, a cuidar do corpo, a cuidar do  marido na cama e etc. e aprendem muitas coisas.  O mais interessante é que as mensagens desses ritos de iniciação não são escritas. Não se escreve. Esses mitos e ritos são passados de geração para geração através das histórias orais contadas ao redor do fogo, em família. Eu  sou do sul, perguntei a uma  amiga do norte o que ela aprendeu, ela respondeu: “tu és do sul , tu nunca fizeste ritos de iniciação,    por isto não te posso transmitir essa mensagem que eu tenho” . Algumas dessas minhas amigas são formadas, são doutoradas, são professoras, são acadêmicas, mas não falam.  São pessoas  que estudaram, que aprenderam, que sabem, mas  não escrevem e nem falam com qualquer pessoa.  Então o olhar da sociedade não africana ensina: “olha, coitados eles só contam à volta da fogueira porque não sabem escrever”. Não é verdade! Este é o olhar do outro. Eu pessoalmente e uma amiga que faleceu no ano passado, Fátima Langa, várias vezes fomos a escolas primárias e até secundárias  pra trabalhar com alunos de 10, 14, 15 anos e contar histórias, as mesmas histórias    que nós ouvimos à volta da fogueira. É uma experiência tão gratificante, tão   enriquecedora que eu pergunto:  o que é que faz com que esses alunos de uma escola vibrem quando ouvem a história contada, se a mesma história está escrita no livro?  Esta é uma das reflexões que eu também gostaria de trazer – a história à volta da fogueira – uma coisa que eu recordo com muita saudade. O fogo é aquele  lugar de conforto e depois, quem conta a história é a minha avó, a minha tia, o meu avô, a pessoa de quem eu gosto. O outro aspecto é que eu sei, eu confio nessas pessoas que estão a falar do coração deles para o meu coração. Então, o lugar da tradição oral naquilo que é , por exemplo a contação de histórias, é o lugar de  afeto e o afeto é tudo de que o ser humano precisa. A criança nasce e leva um tempo até dominar a leitura e a escrita – digamos que pode começar a ter o domínio e ser mais segura talvez aos 10  ou 12 anos -mas dos zero até os 9,  aquilo que  socializa e cria a sua identidade  é exatamente este lugar da tradição oral. Com isto quero dizer que todo mundo tem tradição oral. Todo mundo tem. Não há povo que não a tenha. Então, por que quando é africana  é preciso olhar pra essa tradição como uma tradição menor? Tenho visto bastante bibliografia e há sempre esta etiqueta por baixo:  as sociedades “primitivas” as sociedades “ágrafas”, as sociedades “subdesenvolvidas”. Eu, às vezes pergunto: o que é mais agradável para uma criança – ler a história num livro frio, ver a história na televisão ou num ekran ou ouvir a história a partir daquela pessoa que lhe ama? Pode ser que um dia eu traga alguma conclusão sobre isto, mas a minha reivindicação é sempre a mesma: nós temos que  olhar para a nossa cultura com os nossos próprios  olhos e não permitir que as bibliografias do mundo contem aquilo que querem a qualquer um sobre nós.

Quantas vezes eu fui à Europa e  a partir desse dia fiquei famosa e todos me pedem pra contar uma história e eu conto estas histórias com muito prazer e eu noto que essas crianças desse mundo dito desenvolvido estão sedentas dessa comunicação corpo-a-corpo, coração para coração. Então, conforme eu disse na minha biografia, eu sou aquela pessoa que gosta de contar histórias.  Romancista ou não, isto é coisa do outro. Eu tenho uma cultura, tenho a minha base que foi a tradição oral. Então, quando eu vou trabalhar,  eu chamo o conto  pro meu texto, chamo o provérbio pro meu texto, chamo  as referências, sei lá, os enigmas da minha tradição pro meu conto e, na minha tradição, quando alguém quer falar, primeiro nós introduzimos a grande conversa com o provérbio muito curto e depois tratamos do assunto que queremos tratar.

Quando eu vou escrever um livro, sinceramente tenho muita dificuldade de escrever assim como escrevem os outros. Eu vou escrever do meu jeito. Por  exemplo,  no meu livro “Ventos do Apocalipse” , isto é claro – um livro que fala sobre a guerra, mas eu comecei o livro com três contos introdutórios, o que  não é comum. Contos  que introduzem um romance, então foi a grande guerra. “Ih, Paulina, isto não é romance!” Não é para ti. Eu não vou deitar fora aquilo que eu sou, para agradar seja a quem for.

Fui escrevendo coisas – coisas grandes, coisas pequenas, mas, confesso, o que tem dado força ao meu trabalho que caminha, circula no mundo é exatamente a minha cultura  e a minha tradição. Em plena Frankfurt aparece uma criança que quer conhecer a história africana. Da mesma forma, eu saí da minha casa e vim até aqui pra partilhar com vocês a experiência africana. Aos mais jovens eu tenho dito sempre: se tu procuras imitar o outro, vais perder tempo. É preciso que sejas tu mesmo: a tua cultura, a tua língua, a tua tradição. Com os teus medos, verdadeiros ou não, tu tens que ser tu. É claro, existem coisas boas ,existem  coisas más, a gente sabe disso,  mas eu quero verdadeiramente chamar a atenção, se é que posso fazer isso,  é para a maneira como nós, moçambicanos, ou nós, africanos, olhamos para a nossa própria  literatura.

Outro aspecto interessante: na maior parte das nossas comunidades quem faz a socialização das crianças  são as mulheres. É  uma avó, é uma tia; os avôs aparecem de vez em quando, raras vezes, mas aparecem; contudo, esta é uma função feminina. Portanto, na nossa tradição africana, as mulheres são artistas por excelência. São elas que fazem a literatura oral  pros meninos, são elas que fazem o canto, portanto elas são compositoras. Eu, muitas vezes digo, a brincar, que toda mulher que foi mãe é compositora nata, porque cada mulher compõe a canção de embalar pra seu filho, portanto, na nossa tradição as mulheres cantam, dançam, compõem e têm um lugar, têm um espaço  dentro da sociedade. Quando entramos no mundo dito moderno, as mulheres  já não vão à escola, só pode ir o rapaz. Quando chega a hora de fazer a apresentação pública daquilo que é escrito, prefere-se o homem, a mulher vai ficando para trás e então a grande questão que eu quero colocar com isto é (não sei se é o vosso caso – vejo que a maior parte das pessoas aqui é de origem africana) não sei se já fizeram esta reflexão:  por que na nossa tradição  temos lugar , nós mulheres temos lugar , mas no mundo dito moderno, de repente, as mulheres deixam de existir? Mesmo para pegar o microfone e cantar, para  publicar um disco,  as mulheres têm muito mais dificuldade do que os homens.  Para mim, isto prova que a tradição africana tem valores: todos os componentes da sociedade, sejam homens, sejam mulheres têm seu valor, têm seu espaço. Este mundo dito moderno, para mim não responde a todos os nossos anseios. O estereotipo criado pela Europa é de que a tradição africana é menor. Essa cultura é preservada por mulheres. E se as mulheres  ousam, como eu,  a escrever um pedaço de texto, então este texto tem de ser inferior porque é de mulher e essa mulher penetrou no santuário dos homens. Mesmo agora, sendo escritora,  vou às comunidades e sento-me com as mulheres e converso. A recepção é muito maior porque elas reconhecem em mim aquilo que é nossa tradição. Agora, um aspecto que eu gostaria também de  vincar aqui, ligado a essa questão do matriarcado e patriarcado é o seguinte: disse há pouco tempo que a região sul de Moçambique é patriarcal porque é muito próxima da África do Sul. Lá ocorre uma grande onda de migração. Ficam em casa as avós, as esposas, as crianças e os avôs. Os homens ativos estão a trabalhar ou no Zimbabwe ou na África do Sul. E quem socializa as crianças pro machismo são as mulheres. É um fenômeno muito interessante. Eu, às vezes farto-me de rir quando nós lá  dizemos muitas vezes que há opressão, porque o homem oprime, que a mulher tem direitos, etc. Eu digo:  se vocês  soubessem que na minha terra , Manjacaze, de onde eu vim, o machismo é feminino! Feminino! É a avó que diz: olha, este filho é um  rapaz, tem que mamar dois anos; esta é uma menina, tem que mamar um ano e esses  avós mesmos vão construir histórias, vão compor histórias pra socializar,  pra assustar, para criar medo e para submeter as mulheres. Neste livro – Niketche, eu tenho a história da  Vuiazi. Vuiazi é a mulher que foi estampada na lua. Segundo este conto, esta Vuiazi era uma mulher desobediente e porque era desobediente, o pai dela, que era o rei, num dia de trovão retirou a Vuiazi  do chão e a estampou na lua. É por isso que quando a lua é cheia se vê sempre uma imagem de uma mulher com um bebê às costas. Então, segundo este conto machista  da minha terra, é uma mulher, a Vuiazi, que foi colocada na lua como castigo. A lua é um lugar frio e por isto ela menstrua todos os meses, por castigo. Este é o mito com  que as mulheres, desde meninas, são socializadas no sul donde eu vim. É um conto e um meio de submissão.

Quando vamos para o norte, nós encontramos o medo do Monte Namúli , que é uma montanha lindíssima, uma paisagem lindíssima. Lá onde Deus era uma mulher. Os homens apareceram só para roubar o poder delas. Então as mulheres começam a lutar e a ter exército. A história tradicional das mulheres do norte é tão poderosa porque elas vêm  de uma região cujo   mito de origem dá lugar ao feminino.

Há um conto que eu gosto muito – não sei se poderei contar –  pela importância que ele tem para mim e para os seres humanos de uma maneira geral. Aceitam que eu conte? Para percebermos melhor isto que eu tento explicar. É um conto que está em um daqueles livros que estão aí que é “O voo da águia”.

 E a plateia virou criança… moçambicana

Para contarmos uma história, nós sempre começamos da seguinte forma:

Eu digo: “carenganoa carengare” e vocês todos respondem: “carengare”

Então:

 “carenganoa carengare” ,” carengare”

“carenganoa carengare” “carengare”

Era uma vez um lavrador que foi trabalhar no campo e encontrou lá uma águia muito pequenina. Ele disse: – Coitada desta águia. Onde está a mãe? Deve ter morrido!  Vou levar para a minha casa e vou criar como se fosse uma galinha. E levou.  A ave cresceu. As asas ultrapassavam cinco metros quando abertas. Um dia chegou um amigo e disse: – uma galinha dentro de uma capoeira?

O homem disse: – Era  uma águia, criei com galinha. Será sempre uma galinha porque a criei como galinha.

O amigo disse: – Não, amigo, não é bem  assim. A águia é uma águia, nasceu para a liberdade e para governar os céus.

O homem disse: – Não, não, não, não! Cresceu aqui e será assim.

Discutem, não discutem. Então chegou o dia de fazer o teste para ver se era águia ou era galinha. Tiraram a águia da capoeira para fora.

O teste era um teste musicado. Vamos todos cantar. Podemos? Vocês só dizem assim: ô-i   ô-i

 (Paulina comanda:) Ti-ô  Ti-ô  (e pede para  o auditório ir respondendo , na melodia indicada) – ô-i   ô-i

– Ti-ô   Ti-ô   Ti-ô

– ô-  ô-i

– Ingavona  tinvueni

– ô-i  ô-i

– Acuchonga  cada

– ô-i   ô-i

Então, cantando, estavam a tentar treinar a águia para  ser águia e poder voar. Mas a águia não ligou nenhuma mesmo e continuou a bebicar  o chão, como se fosse uma galinha, até que o amigo que visita pega a cabeça da águia, coloca os olhos da águia  na direção do sol e faz novamente o teste:

– Ti-ô  Ti-ô

– ô-i   ô-i

– Ti-ô   Ti-ô   Ti-ô

– ô-i  ô-i

– Ingavona  tinvueni

– ô-i  ô-i

– Acuchonga  cada

– ô-i   ô-i

A águia olhou para o sol, abriu as asas e voou para a liberdade.

E aqui acaba a minha história!  “ carenganoa carengare”,   “carengare”!

 Retomando a reflexão

Então, eu trouxe aqui o exemplo desta história que me marca muito. Portanto, há aqui alguém que, por circunstâncias que a vida tem, ficou presa na rede do outro que lhe fez acreditar que seria ninguém. Mas vem alguém que lhe diz: não! Tu és uma águia e podes voar. Gosto muito desta história. Ela  foi escrita, registrada pelo criador do Movimento de Libertação de Moçambique. Sempre que ele estiva com os guerrilheiros dele, segundo dizem,  ele  contava esta história, que lhe foi contada pela avó – uma avó que não sabia ler, que era pobre, lá na aldeia mais remota  onde eles cresceram.  O rapazinho foi ouvindo,  a avó contava a história todos os dias e sempre repetia: “Eduardo, tu não és uma galinha, tu és uma águia, tu nasceste para a liberdade”. Pronto! O rapaz cresceu, caminhou pela vida – a avó já tinha morrido – e viu em todo o país o sofrimento de todos os moçambicanos. Então aquela voz daquela avó soava ao seu ouvido: “Eduardo, tu não és uma galinha, tu és uma águia, tu nasceste para a liberdade”. E o homem estuda,  esforça-se,  junta as pessoas. Criou-se então esse movimento de libertação. Hoje o nosso país é independente. Claro que foi o esforço de muita gente, mas o que eu quero aqui trazer é este aspecto: a força que nos dá a voz do nosso ancestral, a mensagem que carrega a identidade que nos forma. Eu , pessoalmente, como toda gente, de vez em quando tenho uma queda, alguma coisa me dói no coração, eu me lembro desta fábula e eu digo para mim mesma: tu não és uma galinha, tu és uma águia, tu nasceste para a liberdade.  Se me lembro disto, levanto-me  e vou à guerra e, podem crer,  venci muitas guerras a partir destes pequenos contos. Portanto, já estive a falar do mito da Vuiazi , da história da Vuiazi que é um mito opressor e temos aqui este caso da história da águia, do voo da águia,  que é um mito libertador ou um conto libertador e não foi preciso haver muitos livros, muitos compêndios, muitas tecnologias para fazer  com que este homem, libertador do nosso país se erguesse e pudesse lutar pela liberdade.

A nossa conversa é realmente esta: as nossas tradições, a nossa oralidade – até  que ponto podem nos dar a força para resistir e para poder caminhar.  Trouxe a questão de haver contos, mitos que são opressores, mas  também há aqueles que são libertadores.  Não apenas é pelo fato de ser um conto à volta da fogueira ou ser um mito que nós vamos abraçá-lo sem analisar e ver as imagens positivas e negativas que ele carrega. Como escritora que sou,  quantas vezes eu caminhei e vi histórias interessantes e no momento de recriar a história, tive que ir buscar nela o que era bom, o que era saudável para poder  preservar.  Há um outro conto que eu  gosto muito e que está no meu livro “As Andorinhas”.   É sobre aquele nosso magno imperador que perdeu o trono por tentar matar uma andorinha. Tem a história formal desse imperador, a história escrita pelos portugueses, mas  o povo conta e  educa a sua sociedade usando  os seus meios tradicionais, míticos.  Esta é a outra aula que a nossa tradição nos dá. Portanto o que eu estou a tentar transmitir é que tradição oral não significa não saber escrever. “Os africanos fazem a tradição oral porque não sabem escrever”. Por favor, retirem este rótulo porque não é verdade. Mesmo sabendo escrever, nós precisamos comunicar-nos frente a frente. Para mim, a tradição oral é um lugar de humanidade, um lugar de conforto, até, um lugar de coração para coração. É um lugar da fé, é um lugar de socialização e socialização pode ser  para o que é bom.

Na universidade, eu tive uma rixa com o professor porque ele estava a falar da identidade africana.  Eu disse: professor, não é verdade! Começamos a entrar em pé de guerra e eu disse: professor,  pode me afastar como quiser, mas eu digo: um dia voltarei  para lhe ensinar a si o que  identidade africana é.  E realmente saí da universidade. O tempo passou  e hoje já dei algumas provas – gostaria de dar um pouco mais – de que eu estava certa.  O governo português acabou me atribuindo a ordem Infante D. Henrique; há pouco tempo foi o governo brasileiro que  reconheceu meu trabalho com a Ordem Cruzeiro do Sul e o meu país  acabou reconhecendo-me com a Ordem Artes e Letras pela Liberdade. Por que eu fiz guerra? Uma das coisas que os livros de antropologia dizem é que os africanos rezam nas árvores porque não sabem construir igrejas.  Bom, não são bem  estas palavras, mas é esta a ideia. E  eu acreditei nisso durante muitos anos, até que um dia decidi procurar saber por que os africanos não construíam igrejas. A resposta foi tão bonita!  Primeiro, a igreja é um lugar fechado. Tem  um teto, que é em cima e depois tem um chão de cimento. A pessoa quando reza num ambiente fechado, reza para si. Agrada a si mesmo. Mas quando vai rezar segundo a nossa  tradição,  ajoelha debaixo  de uma árvore. A árvore tem as raízes que vão  pro chão, lá onde dormem os nossos avós, bisavós tataravós, todos. Se rezo embaixo de uma árvore, a minha oração será levada por essa raiz  até aqueles que dormem embaixo da terra. O tronco e a sombra vão levar a minha oração para a comunidade, para a sociedade, para o momento presente. E toda árvore tem ramos levantados para cima. Portanto, se eu quero que a minha oração chegue a Deus eu tenho que pedir aos braços da  árvore para conduzirem a minha oração. Então, a oração africana, a oração tradicional africana abarca três  dimensões em simultâneo: o passado, o presente e o transcendente, enquanto que na  oração na igreja sou eu e o altar que eu construí. Quando eu apercebi-me disso, voltei a caminhar, a ouvir diferentes fontes orais e para mim foi  muito esclarecedor e, quero confessar que, a partir dessa altura, comecei a retirar-me da igreja.  Várias vezes falei sobre isso com algumas pessoas que ficaram simplesmente surpreendidas. Mas lá vem o homem europeu dizer que a minha tradição é inferior.

Concluindo

Vejo a importância de um congresso como este, com  pessoas de saberes muito distintos e que são aqueles que realmente, hoje e amanhã, poderão fazer o trabalho que é para desconstruir estas ideias pesadas que os outros dizem sobre nós.

Há  muito trabalho para ser feito – recuperar o que é  nosso, as coisas boas que a gente tem. A nossa cultura é rica. Se não fosse, não nos teriam usurpado. O ladrão nunca rouba ao mendigo na rua, rouba aos ricos. Se nos tiram, é porque temos!

Perfil

Paulina Chiziane cresceu nos subúrbios da cidade de Maputo, capital de Moçambique, anteriormente chamada Lourenço Marques. Nasceu de uma família protestante onde se falavam as línguas chope e ronga. Aprendeu a língua portuguesa na escola de uma missão católica. Começou os estudos de Linguística na Universidade Eduardo Mondlane, que não concluiu.

Participou ativamente da cena política de Moçambique como membro da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), na qual militou durante a juventude.  Deixou de se envolver na política para se dedicar à escrita e publicação das suas obras.

É a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique. Iniciou a sua atividade literária em 1984, com contos publicados na imprensa moçambicana. Paulina vive e trabalha na província de Zambézia, região central do país. O seu romance Niketche: Uma História de Poligamia ganhou o Prêmio José Craveirinha em 2003.

*Juarez Ribeiro, Publicitário, Educomunicador, Diretor-editor do Jornal NaçãoZ

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