Joel Rufino dos Santos, um autêntico intelectual orgânico

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15247180Joel Rufino dos Santos (1941-2015). (Foto: Divulgação)

Por Marcelo Gentil*

Recebi na tarde de ontem (29/11) em no grupo de watsapp um artigo intitulado A Galinha dos ovos de ouro, do premiado escritor Joel Rufino dos Santos (Rio de janeiro 1941 – 4/9/2015), o qual recomendo litura em sua página (https://goo.gl/JeHwC1). Ali,

ele discorre de forma fácil, a respeito da pobreza e da riqueza com base no que Karl Marx chamou de divisão social do trabalho.

Em tempos de intolerância política e de acirramento do racismo, do preconceito e da discriminação racial em nosso país, as idéias de um intelectual negro do porte de Joel Rufino, faz muita falta.

Conheci Professor Joel Rufino dos Santos, para mim Professor Joel, no início dos anos 80 em Salvador, por meio do Olodum, em uma época em que eu ainda não fazia parte dessa grande família.

Eu até então era um jovem estudante de história, mas já havia lido algumas de suas obras, a exemplo de “O dia em que o povo ganhou” e  “O que é racismo” – da Coleção Primeiros Passos (Editora Brasiliense). Na minha época de universidade, era comum os professores incentivarem a leitura rápida dos títulos dessa coleção. Li “Zumbi” e “História Nova do Brasil, volume IV”, além de outros.

Quando resolvi estudar história, ainda não conhecia o Professor Joel. Portanto, ele não teve influência na minha escolha. Porém, tomar contato com a sua obra, conhecê-lo pessoalmente e ter o privilégio de com ele trocar ideias fez eu me apaixonar ainda mais pela história.

Fui junto com ele diretor da Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura, no governo do saudoso presidente Itamar Franco e, em um curto período de tempo, também, no do presidente Fernando Henrique Cardoso. Neste período, ele era presidente do órgão e eu, diretor de Estudos, Projetos e Pesquisas e, em suas faltas e impedimentos eu era o presidente substituto da instituição. Na prática, em termos cronológicos, exerci a presidência por muito mais tempo que ele. Uma vez que problemas de ordem pessoal o privaram de uma maior presença na instituição.

Em Brasília, ainda que não se possua o título acadêmico, quem ocupa um cargo relevante é chamado e tratado com Doutor. A todos que a ele se dirigia com essa deferência ele brincava dizendo, “pode me chamar de professor mesmo. Me sinto mais à vontade assim”.

Descobri que tínhamos outras coisas em comum. Éramos comunistas: ele militou no PCB e eu era do PCdoB e apaixonados pelo bom futebol. Ele botafoguense (ainda bem que não era flamenguista) e eu tricolor baiano.

Em uma noite de quarta-feira saímos da Fundação Palmares, passamos no meu apartamento, deixamos os ternos, nos uniformizamos de peladeiros e fomos à casa de um amigo na Península dos Ministros, aonde todas as quartas à noite uma turma do bem se reunia pra jogar futebol. Professor Joel estava com uns 53 ou 54 anos na época e, ainda assim, demonstrou ser o “fino” da bola, destacando-se entre os “trintões”. Não fez gols, mas deu passes decisivos. Aquilo que hoje chamam de assistência. Ao final do jogo, quando  um dos craques “trintões” veio cumprimentá-lo e falar sobre a sua performance ele disse: “O Falcão (aquele que jogou no Internacional de Porto Alegre), costuma dizer que quem tem que correr é a bola e não o jogador e eu faço exatamente isso”. Todos riram.

Voltamos para o apartamento, degustamos alguma coisa (ele era um bom gourmet e excelente someliê – sabia harmonizar muito bem alimentos e bebidas), bebemos vinho tinto e ainda assistimos futebol na TV. Durante todo o período do seu mandato à frente da Fundação Palmares, Professor Joel ficava algumas vezes em hotel e na maioria das vezes no meu apartamento. Afinal, naquela época, ainda que os membros do chamado “alto escalão”, tivessem direito a imóvel funcional, não existia disponível, uma vez que o presidente Collor vendeu a maioria.

O Professor Joel era um grande contador de causos, irônico e gozador por natureza. Um desses eu reconto sempre a outros amigos: Estávamos assistindo ao Rolando Boldrin recitar um verso, em que em uma determinada parte ele dizia: “… Olá seu doutor/Até esse apelido o vento levou”. Ele começou a rir, mas não do verso. Foi que ele lembrou uma história bem familiar.

Ele me disse:

– Marcelo, sabe que eu tenho uma prima que o apelido dela é Maria Pirolha?

– Não Professor (eu respondi).

Aí ele disse:

– Vou contar por quê!

E começou:

– Teve uma época em que vovó estava muito doente e internada e nós, parentes, ficávamos nos revezando no hospital para que ela não ficasse sozinha, e para que ninguém ficasse sobrecarregado.

Um dia, eu cheguei à noite para substituir a minha prima Maria e ao entrar no quarto perguntei: “Maria, como está a vovó?” e ela respondeu: “Do mesmo jeito Joelzinho. Não mirolha e nem pirolha”.

– Pois é Marcelo, emendou ele: eu caí no riso e a partir daquele dia a minha prima se tornou a querida Maria Pirolha.

Foi com essa figura simples, carismática, alegre, bom papo, comprometida com as transformações sociais e preocupada em fazer com que pudéssemos entender as estruturas do racismo brasileiro que tive o privilégio de conviver e muito aprender.

Por tudo isso, no mês da consciência negra considero importante lembrar de um dos mais importantes intelectuais orgânicos da nossa luta.

Obrigado Professor Joel.

Olorum, Kosi Puré! (Deus lhe dê o descanso eterno).

*Marcelo Gentil é licenciado em história pela UCSAL, é especialista em gerência social para afrodescendentes da América Latina e Caribe (INDES/BID – EUA), foi diretor de Estudos, Projetos e Pesquisas da Fundação Cultural Palmares/MinC e é vice-presidente do Olodum 

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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