Justiça para João Alberto Silveira Freitas – Não seremos a carne mais barata do Carrefour

Manifestantes em frente ao Carrefour em Porto Alegre protestam pelo assassinato de João Alberto. (Foto: Guilherme Gonçalves/FotosPublicas)

Por Wania Sant´Anna*

Nenhum de nós ativistas do movimento negro e de mulheres negras poderíamos supor que esse 20 de novembro de 2020 acontecesse do jeito que aconteceu. Temos sido insistentes em denunciar a violência e a brutalidade policial contra a juventude negra, contra as favelas e periferias, esses lugares de residência, sim, re-si-dên-cia, de uma maioria negra – mulheres, homens, crianças e jovens negros. Temos sido enfáticos em denunciar que as chacinas e os homicídios de jovens negros são, sim, expressão do racismo e da discriminação racial no país. Nenhum de nós ativistas do movimento negro e de mulheres negras poderíamos supor que esse 20 de novembro de 2020 acontecesse do jeito que aconteceu. Temos sido insistentes em denunciar a violência e a brutalidade policial contra a juventude negra, contra as favelas e periferias, esses lugares de residência, sim, re-si-dên-cia, de uma maioria negra – mulheres, homens, crianças e jovens negros. Temos sido enfáticos em denunciar que as chacinas e os homicídios de jovens negros são, sim, expressão do racismo e da discriminação racial no país.

Temos sido contundentes em sinalizar que o sistema de justiça brasileiro encarcera desproporcionalmente homens e adolescentes negros.  Temos vindo a público com inúmeros e inquestionáveis indicadores: a pobreza é negra, o desemprego é negro, a informalidade é negra, a mortalidade materna é negra, a ausência de saneamento básico é uma realidade cotidiana das famílias negras. A escola pública brasileira tem duvidosa qualidade de serviços, não temos dúvida, porque a clientela é formada, majoritariamente, de crianças e jovens negros.

Nós vimos o sangue de João Alberto Silveira Freitas derramar no chão. Nós vimos o corpo de João paralisar, esfacelar inerte no chão. O noticiário já nos informa que as agressões que resultaram no assassinato de João Alberto Silveira Freitas duraram cinco minutos e vinte segundos.

Todos nós vimos a covardia, o grotesco animal e o assassinato. Todos nós vimos uma mulher branca assistir essas agressões tão próximo da cena que a faz, igualmente, uma cúmplice e partícipe da brutalidade e do assassinato.

Todos nós vimos – adultos e crianças. Todos nós vimos e ouvimos as súplicas de João, ouvimos os apelos de testemunhas que gravaram o vídeo.  Todos nós vimos e ouvimos tudo o que importa nesse momento. Nós vimos e ouvimos o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, negro, 40 anos, casado, 4 filhos, morador de Porto Alegre e cliente da rede de supermercados Carrefour. E isso foi estarrecedor!

O movimento negro poderia, com certeza, esperar brutalidade e violência contra a população negra nesse 20 de novembro.  Afinal, não está escrito em nenhum lugar que é proibido matar negros o dia 20 de novembro e esse é um país que mata um jovem negro a cada 23 minutos. Mas, não estávamos preparados para assistir o que assistimos e o que todo o país assistiu.

Diante de toda essa brutalidade, assistimos igualmente incrédulos as respostas, em tom de justificativa, do Carrefour, a rede de supermercados. A nota à imprensa, no início do dia, mencionava que adotaria “medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos neste ato criminoso”, que romperia “o contrato com a empresa que responde pelos seguranças que cometeram a agressão”, que “o funcionário que estava no comando da loja no momento do incidente será desligado” e que estando “profundamente consternados” acompanhariam “os desdobramento do caso, oferecendo todo suporte as autoridades locais”.

Uma nota à imprensa cinicamente protocolar, com 132 palavras distribuídas e dois parágrafos e que, no fundo dizia, “não é comigo que as coisas precisam, realmente, esquentar”. A ideia de oferecer “suporte as autoridades locais” seria, penso, o primeiro escárnio do dia. Vejam que a palavra assassinato, que todos nós assistimos, não é mencionado.  Ao invés disso decidiram qualificar o fato filmado como: um ato criminoso, uma agressão, um caso. Havia na nota à imprensa todos os elementos de terceirização da responsabilidade. Nesse caso, a culpa pelo ocorrido, o ASSASSINATO, seria de responsabilidade da empresa de segurança contratada. Nós já vimos e ouvimos esse argumento antes.

Mas a pior manifestação de cinismo estava por vir. A final do dia, outra nota oficial, com 150 palavras, e de “esclarecimento” à sociedade em canais de televisão foi mais longe no cinismo. Diriam, então: “Este dia, que deveria ser um dia marcado pela conscientização da inclusão de negros e negras na sociedade, está sendo o mais triste da história do Carrefour”; em tom de condolência afirmam, “Daremos todo apoio à família de João Alberto Silveira Freitas e, em respeito a ele, nossa loja de Passo D’areia fechou hoje e permanecerá fechada amanhã; e, finalmente, em viés de escárnio compensatório anunciam que “todo o resultado das vendas de hoje das lojas Carrefour Hipermercados será doado para entidades ligadas à luta pela consciência negra” e que “Amanhã, abriremos mais tarde para reforçarmos o treinamento antirracistas com todos os nossos funcionários e terceiros.”  Fiquemos atentos ao fato de não mencionarem a palavra ASSASSINATO.

Eu imagino que a ideia e decisão indecente de “meter a mão no bolso” tenha partido do conselho da alta administração.  Então, eu pergunto: isso é um cala-boca? Indo mais além, a alta administração da empresa e o seu CEO, Sr. Noël Prioux, está mesmo considerando que esse dinheirinho e “treinamento antirracistas” podem aliviar a responsabilidade legal sobre o fato de um seu prestador de serviços ter sido capaz de assassinar a socos um cliente no estacionamento de uma de suas lojas?  O Sr. Noël Prioux, CEO do Grupo Carrefour Brasil, pensa ser essa a forma correta de se livrar de um assassinato filmado e assistido por adultos e crianças nesse Dia Nacional da Consciência Negra de 2020?  Se pensam assim, isso é mesmo indecente!

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Nós JAMAIS esqueceremos o que aconteceu e a ideia de justiça é justamente essa: não esquecer que em 20 de novembro de 2020 um homem negro foi espancado até a morte em um supermercado da rede varejista Carrefour.

Se essa rede de supermercados julga ser capaz de corromper o devido julgamento legal e moral do ocorrido, se pensa ser possível cuspir na cara de todas as autoridades, instituições, sociedade civil e movimento negro do país que se levantaram uníssonas no repúdio ao assassinato, é bom avisar aos engravatados e perfumados da alta administração que nós não estamos à venda e que a justiça é o mínimo esperado. JUS-TI-ÇA!

Diante dos fatos, e os claros sinais de cooptação, em transparente estratégia de “lavar a imagem”, o Sr. Noël Prioux deveria estar pronto para retornar à Paris.  É isso o que o Carrefour deveria fazer nessa próxima semana.  Indo além, deveria ser capaz de trazer para o cargo um CEO capaz de responder a todas as irregularidades que, já estamos publicamente tomando ciência, rondam as sombrias e espúrias contratações de suas empresas de segurança patrimonial.  Sim, SUAS empresas de segurança porque eles são responsáveis por proteger aquilo que a empresa mais preza: os seus produtos e os seus lucros. Suas empresas de segurança patrimonial não são contratadas para proteger um João, homem negro.  Todos nós brasileiros e brasileiras, adultos, jovens e crianças, brancos e negros, vimos isso estarrecidos nesse 20 de novembro de 2020.

Nós não iremos esquecer João Alberto Silveira Freitas, nós não esquecemos o Quilombo dos Palmares e faremos Palmares de novo contra o racismo, contra a discriminação racial e contra a rede varejista Carrefour.

*Wania Sant´Anna é historiadora e pesquisadora de relações raciais e de gênero, é vice-presidente do Conselho Curador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Comparada do IFCS/UFRJ. Foi secretária de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro, na gestão Benedita da Silva; conselheira do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher; pesquisadora e assistente de direção da Fase e do Ibase; consultora, por dez anos, do Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça da Petrobras e do projeto “A cor da cultura”, do canal Futura. Entre outros livros, publicou Dossiê Assimetrias Raciais no Brasil: alerta para elaboração de políticas e Desigualdades étnico/raciais e de gênero no Brasil.

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