Kbela: Um filme feito por mulheres negras

Um burburinho está tomando conta da cena independente do audiovisual no Rio de Janeiro: a realização do filme KBELA. Com o roteiro e direção de Yasmin Thayná – fazedora que atua em diferentes campos como cinema, literatura, jornalismo, entre outros – KBELA é um filme produzido por mulheres negras. Adaptado do conto autobiográfico Mc K-bela, escrito pela diretora do filme e publicado no livro Flupp Pensa – 43 novos autores em 2012, KBELA narra a construção e a afirmação da identidade da personagem como mulher negra a partir da relação com seu cabelo crespo.

Com lançamento previsto para agosto de 2015, o filme, que encontra-se em processo de edição, está dando o que falar dentro e fora da rede. Mais de 50 pessoas estão envolvidas nesse processo que é todo colaborativo, desde as atrizes que contribuíram com suas histórias e memórias até as refeições servidas durante os dois dias de gravação, feitas pela mãe da produtora do filme Erika Candido. KBELA se baseia nas redes de afeto e da internet. Uma vaquinha online feita no ano passado arrecadou 5 mil reais para ajudar na realização do filme.

A possibilidade de se comunicar com mulheres de diferentes espaços demonstra o quão capilar é esta produção. KBELA é um curta-metragem de gênero experimental que se ramifica em diferentes linguagens artísticas, como literatura, teatro, e uma de suas inspirações é o filme “Alma no Olho” (1974) de Zózimo Bulbul. Representatividade, empoderamento, autoestima e reconhecimento são disputas que o KBELA se insere, onde o desafio é, a partir da criação de novas narrativas sobre a mulher negra, garantir alguma visibilidade que possa interferir, e quem sabe, alterar efetivamente a realidade.

 

Mais de dez mulheres negras encabeçam o elenco, entre elas Maria Clara Araújo, mulher trans negra, pernambucana, que veio ao Rio exclusivamente para gravar as cenas do filme. Para Maria Clara a importância do filme se faz na “luta por uma representatividade maior. O filme mostra uma nova ótica, pouco vista pelo grande público, uma ótica onde a mulher trans negra também pode ser atriz, e traz uma visão diferente da habitual que a grande massa tem sobre travestis e transexuais”, explica a universitária que acaba de ingressar no curso de pedagogia da Universidade Federal de Pernambuco.

A atriz portuguesa Isabel Martins Zua Mutange – que além de atuar no filme assina a direção de movimento, considera um privilégio fazer parte dessa equipe. “O filme é um marco muito importante, feito pela nossa geração que vai servir de referência para muitos outros filmes e que vai chegar em muitos lugares. Qualquer menina negra, tendo questões ou não com seu cabelo vai se reconhecer nesse filme. KBELA vai contribuir para a autoestima da mulher negra por onde ele passar”, afirmou a atriz.

Quando começou

Em 2013 o conto Mc K-bela foi adaptado para o teatro pelo diretor Anderson Barnabé e estrelado pela atriz Veruska Delfino no Home Theatre – Festival Internacional de Cenas em Casa. No mesmo ano o projeto do filme foi iniciado, quando jovens da Revista Cranta lançaram no Facebook uma chamada para atrizes e não atrizes negras que vivem/viveram histórias de transição capilar. Em dois dias de divulgação da chamada foram mais de 100 emails recebidos. Depois da seleção das atrizes, o grupo filmou a primeira versão do KBELA na antiga fábrica da Bhering, na Zona Portuária do Rio. Filme pronto para edição, Yasmin foi assaltada com todo o material já filmado que estava em seu computador que foi levado dentro da sua mochila.

A partir daí, re-filmar o KBELA virou mais do que um objetivo, se tornou um ato de resistência. Diversas mudanças aconteceram nesse meio tempo e o filme foi ganhando dimensões cada vez maiores, alcançando mais e mais pessoas que abraçaram a proposta. “O projeto amadureceu de uma maneira muito forte. Era outro filme, a gente não tinha direção de arte, figurino, maquiagem. Era uma galera a fim de fazer um vídeo que falasse das questões da mulher negra. De lá para cá, amadureci o roteiro e a minha proposta de direção. Foi fundamental ter realizado diversos ensaios antes de gravar pra valer. E a cada encontro o KBELA ia ficando maior, e fica maior a cada dia que passa, e ele ainda nem estreou. Espero que ele tenha um tamanho infinito e quem fará isso são as pessoas que se identificaram e usarem o trabalho para desconstruir os conceitos que nos oprimem”, explica Yasmin Thayná.

Sobre mulheres negras no cinema

Na Bahia, desde 2010 a galera do coletivo Tela Preta vem produzindo filmes que colocam a discussão da representação do negro no cinema, bem como o papel do negro atrás das câmeras. Larissa Fulana de Tal, cineasta e integrante do coletivo, comenta que um dos maiores desafios de fazer cinema no Brasil é permanecer junto, realizando e propondo, e às vezes não apenas na temática, mas na reflexão do olhar e da linguagem.

“Ser um/a realizador/a negra consiste na busca da desconstrução, ou seja, uma descolonização do olhar, para buscarmos as formas que queremos nos ver. Este fundamentado na busca da linguagem estética, é um longo processo, além da apropriação técnica, na qual nos possibilita acesso aos meios de produção, é um desafio triplo.  Reforço que a questão não é apenas o assunto negro, mas na necessidade de apresentar e representar o negro de uma forma diferenciada, no qual haja a ruptura dos esteriótipos”, comentou.

Dados  da pesquisa “A cara do cinema nacional: perfil de gênero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros (2002-2012)” realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa – GEMAA – da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) apontam que nos últimos dez anos, mulheres negras representaram apenas 4,4% do elenco dos principais filmes de longa-metragem nacionais. A pesquisa também revela que, no mesmo período, as mulheres ocuparam apenas 14% dos cargos de direção e 26% assinaram roteiros, nenhuma delas era negra. Portanto, no contexto brasileiro, KBELA é um projeto político feminista e anti-racista no campo das artes pela construção e afirmação de espaços de autorrepresentação das mulheres negras.

todxs em baixa

Mais de 80% da equipe do filme entre técnicos e elenco é formado por mulheres e mais de 50% destas são negras. A formação de equipe do KBELA não aconteceu de forma aleatória, como explica Yasmin Thayná. “Quando a pesquisa da UERJ caiu no meu colo, olhei pra equipe e vi que existia uma força feminina forte. O filme sempre foi produzido por mulheres negras, mas ele começou a crescer, ganhar formato de cinema mesmo, e a gente sabe que o mercado e quem detém contatos/equipamentos, são os homens, brancos, principalmente. A gente ainda tá começando a hackear isso. Tinha muito medo de fazer um set em que na frente das câmeras eram mulheres negras e atrás homens brancos. Eu queria ser mais uma questionando isso, quebrando esse protocolo”, afirmou a diretora.

Janaína Oliveira Re.Fém, rapper, cineasta, diretora do filme Rap de Saia questionou o acesso às grandes verbas do cinema. “Para fazer um filme desses de bilhetaria são milhões de reais, tem muito filme bom de mulher negra, mas que não vão para os circuitos comerciais. Existe um desafio enorme de acessar as grandes verbas e espaços. Eu acredito que a gente está num processo. É importante que a continuemos fazendo, produzindo e acreditando” comentou a publicitária que vê no domínio das técnicas do audiovisual uma possibilidade importante de diálogo em sociedade. Re.Fém também coordena a comunicação do 8º Encontro de Cinema Negro que acontecerá no Rio de Janeiro nos dias 14 e 15 de abril. Essa é uma oportunidade para ver as produções que nem sempre estão nas grandes salas, mas que trazem discussões pertinentes e outros olhares sobre o nosso mundo.

Assista o teaser do KBELA  aqui.

Fonte: Observatório de Favelas

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