Loretta Lynch, a primeira procuradora-geral negra dos EUA

Loretta Lynch esperou um recorde de 165 dias para se tornar a primeira mulher afro-americana a ocupar o cargo de procuradora-geral dos Estados Unidos —posição equivalente à do ministro da Justiça em outros países. Nomeada por Obama em novembro, a procuradora do Brooklyn foi barrada pela maioria republicana no Senado, que impediu de votar sua confirmação até esta quinta-feira. Uma maioria mínima de 56 senadores votou a favor, e 43 contra.

O polêmico atraso pôs em evidência a profunda divisão entre o Partido Democrata e o Republicano, mas também a brecha aberta entre os conservadores e a Casa Branca. Lynch, cujas credenciais para o cargo não foram questionadas por nenhum parlamentar, esperou o dobro de dias que seus sete predecessores juntos.

Obama comemorou na quinta-feira a confirmação de Lynch e afirmou em um comunicado que, com sua chegada, “os EUA serão um lugar melhor”. O presidente declarou que a procuradora-geral “dedicou toda a vida” à defesa da igualdade e da justiça, “a base de nossa democracia”, e trará para o cargo sua “firmeza, independência e respeito como procuradora em assuntos chave, como a reforma do sistema judiciário”.

O processo “ficará em um lugar de nossa história que nos dará vergonha pela maneira como se comportou o Senado”, disse uma deputada democrata.

Apesar das credenciais de Lynch, o longo processo de confirmação demonstrou que se Obama escolheu uma advogada sem vínculos diretos com Eric Holder, seu antecessor, para evitar complicações no processo, a estratégia não funcionou. Os membros do comitê jurídico do Senado transformaram a audiência de sua confirmação em um exame sobre suas semelhanças com Holder, um dos integrantes do Governo mais duramente criticados pelos republicanos.

Sintoma desse enfrentamento, a procuradora nova-iorquina repetiu em várias ocasiões: “Eu serei Loretta Lynch”. Mas a promessa não bastou. O comitê do Senado deu sua aprovação, mas os republicanos do plenário da Câmara viram em sua defesa das reformas realizadas pelo presidente Obama em matéria de imigração a oportunidade para rejeitar a candidata. Durante cinco meses eles se negaram a convocar a votação para sua confirmação.

O último obstáculo foi uma lei para combater o tráfico de seres humanos. Nas últimas semanas, um artigo que especificava o destino de recursos para financiar abortos dividiu democratas e republicanos. Enquanto a maioria conservadora avisava de que não votaria o cargo de Lynch até que esse debate fosse resolvido, Obama qualificou o atraso de “vergonhoso” e reconheceu que “foi longe demais”.

“Espero que os republicanos a respeitem mais como procuradora-geral que como candidata”, disse na quinta-feira Patrick Leahey, um dos senadores democratas no comitê jurídico. “Loretta Lynch está perfeitamente qualificada, não deveria ter demorado tanto tempo”.

O atraso de cinco meses expôs mais uma vez as tensões entre legisladores democratas e republicanos, assim como entre estes e a Casa Branca. A divisão impediu Lynch de assumir o cargo em um momento em que vários dos principais problemas que os EUA enfrentam passam pelo Departamento de Justiça.

Lynch pode se tornar uma das peças chave das investigações contra polícias locais pela morte  de jovens negros em Ferguson, Nova York, Carolina do Sul e, na semana passada, em Baltimore

A reforma da imigração de Obama, que aprovou por decreto a regularização de cerca de cinco milhões de imigrantes em situação irregular, tem o respaldo da Justiça, mas está bloqueada nos tribunais depois de uma denúncia. Vários republicanos alegaram que não podiam respaldar Lynch depois que ela defendeu uma legislação que consideram “ilegal”. No entanto, vários democratas argumentaram que essa recusa também se devia ao fato de Lynch ser afro-americana.

A tensão fez o senador John McCain, um dos veteranos da Câmara e candidato presidencial em 2008, declarar que “o atraso na votação não tem nada a ver com a raça”. Na quinta-feira, a democrata Marcia Fudge, deputada por Ohio, declarou ao Politico que o processo de confirmação de Lynch “ficará em um lugar de nossa história que nos dará vergonha pela maneira como se comportou o Senado”.

Uma vez superado o bloqueio, Lynch pode se tornar uma das peças chave das investigações iniciadas pelo Departamento de Justiça contra polícias locais pela morte recente de jovens afro-americanos em Ferguson, Nova York, Carolina do Sul e, na semana passada, em Baltimore (Maryland).

Como seu predecessor, a procuradora-geral deverá assumir também o desafio imposto pelas revelações do caso Snowden que revelou os programas de vigilância em massa a que a Agência de Segurança Nacional submeteu milhões de cidadãos, e a resposta dos Estados Unidos aos crescentes ataques cibernéticos contra organismos e empresas privadas.

Fonte: El Pais

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