Lute como uma Antonieta: a força das mulheres negras no Carnaval de Florianópolis

Composição com fotos do Cores de Aidê, Jardim das Palmeiras e Consulado/Montagem: Catarinas

Por Paula Guimarães, do Catarinas

“Catarina, nesta terra quem é santa. É mulher que se levanta pela força da verdade. Ê Antonieta”, diz o trecho do enredo “Lute como Antonieta” que embalou as/os componentes da Consulado, escola vice-campeã do Grupo Especial do Carnaval de Florianópolis. A homenagem à professora e primeira deputada negra de Santa Catarina e do Brasil manifesta a força da negritude na capital do estado mais branco do Brasil.

Esse não foi um grito dissonante, pelo contrário, a força das mulheres negras também foi destaque em pelo menos mais duas escolas do Grupo de Acesso que se apresentaram na Passarela Nego Quirido, no último sábado. Com o enredo “Liberata, uma história de resistência que inspira liberdade”, Jardim das Palmeiras, de São José, homenageou Liberata, mulher negra escravizada que viveu há 200 anos em solo catarinense e encampou uma luta na Justiça para conquistar sua liberdade. Dascuia cantou o samba “Yalodês, reflexos de Oxum”, que tratou da força e da resistência de mulheres negras que ao longo da história resistiram contra a opressão da Casa Grande.

Consulado em desfile na Passarela Nego Quirido. (Foto: Tenfen Fotografia)

“Essa “Liberata” (nós) existe em cada mulher preta que todos os dias têm que resistir ao sistema atual, lutar para garantir e conquistar seus direitos. O importante é saber que não estamos sozinhas. Por isso, é fundamental fortalecer laços de fraternidade e solidariedade, pois desde as invasões nos solos africano e americano foi isso que nos manteve vivos até hoje”, afirmou Bruna Maria Antunes, 32 anos, estudante de licenciatura em História e coordenadora da ala das Liberatas do contemporâneo.

Antunes conta que um coletivo de mulheres negras se formou a partir dos encontros de preparação para o carnaval. “Já somos 30 mulheres, nos reunimos e tentamos nos auxiliar, compartilhando nossas histórias e nos apoiando. Acreditamos nos novos quilombos, os urbanos. O grupo vem para fortalecer para as pessoas entenderem o poder da mulher negra”, afirma.

De acordo com a coordenadora, mesmo que as escolas de samba sejam espaços originalmente construídos pela comunidade negra, essa população ainda não ocupa os devidos lugares de destaque. “Dentro da escola também enfrentamos o racismo estrutural. Queríamos estar ocupando a corte das escolas e, mesmo com o enredo, as mulheres brancas ainda são maioria. Estamos lutando para sermos aceitas e ocupar nosso lugar nas escolas. Devagarinho estamos conseguindo”.

Desfile dos Blocos Afro

O desfile dos Blocos Afro realizado ao redor da Praça XV, no Centro da capital, na sexta-feira, também exaltou a resistência da cultura negra na potência dos tambores, e em especial na batida do samba e do maracatu. Baque Mulher abriu caminho com seu maracatu de resistência feminista, seguido dos blocos Manden Ikanawá, Cores de Aidê, Africatarina e Arrasta Ilha.

Baque mulher em seu terceiro carnaval nas ruas da capital catarinense. (Foto: Paula Guimarães)

Baque mulher em seu terceiro carnaval nas ruas da capital catarinense. (Foto: Paula Guimarães)

“Azmina, azmona, ozmano representa, na batalha a rima é ação, revolução, o pop tranca a rua: fascistas não passarão”. Africatarina cantou o samba em homenagem às/aos moradoras/es de rua, as batalhas de rap, as mulheres da frente 8M e do #EleNão, ao Instituto Arco-íris, organização que desenvolve ações sociais, à marcha contra a intolerância religiosa, à marcha da periferia e manifestantes que se mobilizam contra o fascismo.

Africatarina foi acompanhado por uma multidão durante o cortejo. (Foto: Karol Braga)

“Um axé para a diretora Elenir que, na tarde do dia 19, foi assassinada. Esse desfile vai para ela e que a gente possa sempre lutar por justiça social e que não haja mais feminicídios. E que as mulheres andem livres”, bradou do carro de som Elaine Sallas, que cantou o samba.

Ao final da apresentação, o Arrasta Ilha também protestou contra o feminicídio da diretora Elenir de Siqueira Fontão e pediu o fim da violência contra as mulheres.

Arrasta Ilha finalizou seu maracutu com uma homenagem à diretora assassinada pelo ex-companheiro. (Foto: Paula Guimarães)

Homenagem às Mulheres Anciãs

Mulheres quilombolas, agricultoras, sem terra, indígenas, mulheres das religiões afro-brasileiras e benzedeiras foram homenageadas durante a apresentação do Bloco Cores de Aidê, que neste ano teve como tema “Mulheres das Folhas”.

“Minha falange sagrada/ Vem de muito tempo atrás/ Da avó de minha avó/ Dos remédios naturais/ “Toda folha” quando dorme/ Sonha as suas ancestrais/ Entrega para quem colhe/ Axé de amor e paz”. A música “Luz das folhas”, de Iara Ferreira, levou uma reza à avenida. A composição foi campeã do concurso realizado anualmente pelas Aidês a partir de um enredo desenvolvido coletivamente pelo grupo.

(Foto: Kamila Novaes)

“A música teve uma repercussão muito positiva, está atingindo vários estados do Brasil. A cada dia a gente recebe mensagens de lugares diferentes com interesse em saber sobre o desfile”, afirmou Sarah Massi, idealizadora e regente do Cores de Aidê.

As cantoras Juliana de Passos, Eloísa Gonzaga e Anis de Flor se revesaram ao longo do desfile no samba que conduziu o bloco do alto do carro de som.

Vanda Piñedo foi uma das homenageadas. (Foto: Kamila Novaes)

Na ala Raízes, dez mulheres consideradas anciãs, foram homenageadas, representando as mulheres do mundo todo e sua conexão com a natureza. Cerca de 200 componentes formaram o bloco que levou ao desfile a sabedoria ancestral das mulheres sobre as folhas para elaborar remédios naturais, fazer benzeduras e realizar a cura. As identidades das mulheres a partir do exercício da religiosidade e da espiritualidade foram exaltadas. “É a primeira vez que fizemos essa homenagem especial a algumas mulheres da cidade, que são inspiradoras para nós e para tantas outras”, afirma Massí.

“O bloco traz as mulheres anciãs, de matriz africana, da Umbanda e Candomblé, traz um pouco de nós para a avenida diante desse desrespeito do governo à nossa religiosidade, a nós mulheres negras e ao povo negro. No carnaval a gente potencializa e bota para fora toda a nossa luta. Estar aqui é celebrar a luta de todo o ano e mostrar a nossa inquietude diante de tudo que acontece contra o povo negro e indígena”, afirmou a integrante da percussão Cirene Cândido.

 

“É emocionante e gratificante não só por ser carnaval e pela homenagem, mas por ser um bloco de resistência com muitas mulheres guerreiras, que escrevem a nossa história todos os dias. Fazer parte disso, sentir essa energia e poder mostrar que a gente existe num dos momentos que a grande maioria das pessoas está na rua é uma das coisas que dá muita força para seguir a batalha diária. A gente se fortalece com essas mulheres incríveis, mostrando que a gente existe e vai seguir a fazer história”, pontuou a homenageada Lirous K’yo Fonseca Ávila da Adeh (Associação de Direitos Humanos com Enfoque na Sexualidade).

Luz das Folhas

Jurema me iluminou
Na mata eu me encontrei
As folhas para benzer
E o rastro de AIDÊ!

Minha falange sagrada
Vem de muito tempo atrás
Da avó de minha avó
dos remédios naturais
Toda folha quando dorme
sonha as suas ancestrais
Entrega para quem colhe
Axé de amor e paz

Minha falange sagrada
Vem de muito tempo atrás
Da avó de minha avó
dos remédios naturais
Toda folha quando dorme
Sonha as suas ancestrais
Entrega para quem colhe Axé de amor e paz

Ta na mão da benzedeira
Ta no canto da xamã
No segredo da floresta
E a força da Cunhã
As mulheres e as folhas
A Aidê veio saudar
Toca forte batuqueira
Que a magía vem do ar
Eu sou a neta da bruxa
Sou menina de vovó
Arruda e abre caminho
Com vocês não ando só

Eu sou a neta da bruxa
Sou menina de vovó
Arruda e abre caminho
Nessa terra não ando só

Jurema me iluminou
Na mata encontrei
As folha para benzer
E o rastro de Aidê.”

No domingo as aidês se apresentaram na Lagoa da Conceição com participação especial da comunidade indígena da Terra Guarani do Morro dos Cavalos. “As mulheres e homens Guarani falaram sobre a sua vida, existência e vida da floresta. Falaram também da importância do cuidado e zelo com os povos das florestas e da permanência nos territórios”, contou a regente.

Também participaram do desfile os grupos É da nossa cor, do Monte Serrat, e Mitos, do Morro do Mocotó, projetos sociais que atuam pelo fortalecimento da autoestima e identidade das crianças e adolescentes negros.

Cores de Aidê é um bloco de percussão, canto e dança, formado há quatro anos. É também uma banda, integrada majoritariamente por mulheres negras. Os ensaios do bloco são abertos e ocorrem durante o ano todo.

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