Milton Santos: le gauche na geografia das idéias

Pessimista quanto ao que via, mas otimista quanto ao que estava por vir, o geógrafo Milton Santos superou rótulos graças ao brilho de suas idéias e à força de sua postura. Grandeza retratada agora na telona sob a maestria de Silvio Tendler, escreve Sionei Ricardo Leão

Prof. Milton Santos completaria 94 anos, e um dos principais pensadores brasileiros mais premiado no exterior. (Foto: Divulgação)

Por Sionei Leão, do Congresso em Foco

Ao mesmo tempo, o geógrafo demonstrava profética esperança nas classes oprimidas, para ele, portadoras de uma condução a um mundo melhor, a partir da esperada manifestação política. Esses conteúdos estão no documentário por intermédio de imagens de protestos de populações “periféricas”, como os cocaleiros bolivianos, manifestando contra a presença de interesses econômicos e financeiros norte-americanos no país de Evo Morales.

“Nunca houve uma humanidade. Creio que as condições da história atual permitem ver que outra realidade é possível. A gente é pessimista quanto ao que está aí. Mas é otimista quanto ao que pode chegar”, declara Milton Santos em um dos trechos da entrevista que concedeu a Tendler.

Consoante a manifestações como essa, a verve de Milton Santos direcionava-se também a preocupações de natureza étnica. Ele, a respeito da causa afrodescendente, costumava considerar que a postura fratricida das organizações desse universo identitário estava arrefecendo e, por esse motivo, o Movimento Social Negro acenava para momentos mais robustos e profícuos na defesa de suas causas.

Felizmente, apesar do engajamento, Milton Santos não foi vítima de simplismos e estereótipos como cientista negro, intelectual negro, ou rótulos equivalentes. O brilho de suas idéias e a força da postura impediram que lhe fosse taxada uma marca reducionista qualquer.

Embora procurasse ficar ao largo da política, muito antes de Luiz Inácio Lula da Silva conquistar o primeiro mandato presidencial, dizia nos anos 90, do século passado, que partidos como PT, sobretudo, tinham o compromisso de vencer eleições municipais e conseqüentemente fazer boas administrações com vistas à construção de uma política macro coerente e adequada às demandas brasileiras.

“Sei que o Lula tem interesse em se aproximar de mim, mas é impedido por algumas das pessoas que o cercam”, declarou por ocasião de conferência no Congresso 17º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, no ano 1995, em Aracaju, Sergipe.

A respeito do viés artístico, a película de Tendler tem variados méritos, como a trilha sonora original, incumbida a Caíque Botkay. A opção por uma narração compartilhada, da mesma maneira, confere qualidade, sobretudo por ter nomes como Beth Goulart, Fernanda Montenegro, Milton Gonçalves, Matheus Nachtergaele e Osmar Prado, sob a batuta do maestro Silvio Tendler, compondo uma sinfonia à altura de Milton Santos!

*Sionei Ricardo Leão é jornalista e professor do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). Dirigiu seis documentários, entre eles, o Kamba’Race, que recebeu o Prêmio Palmares de Comunicação (2005) do Ministério da Cultura. Integra a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Distrito Federal (Cojira-DF).

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