Monumento ao torcedor entorpecido

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Charuto, o Sócrates do pensamento ocidental colorado

Ninguém tem qualquer prova, nem a TV conseguiu mostrar, mas alguns juram que viram Charuto correndo entre os degraus da arquibancada do Beira-Rio após o voo de Danilo Fernandes. Deu um jeito de fugir do trabalho no porto, entornar um rabo-de-galo em algum boteco de reputação duvidosa da Borges de Medeiros e chegar já com o jogo em andamento para percorrer o estádio, para ele sem divisão de setores, gritando de forma incontrolável, até que o cansaço e o marafo lhe vencessem e ele pegasse no sono antes do gol de Vitinho. Colorado em estado puro, como Luis Fernando Verissimo o definiu, Charuto, que morreu em 1952, até hoje leva a vida demonstrando o que é torcer para o Inter.


A mão que balança a bandeira (Foto: Inter/Divulgação)

A situação do Internacional é tão, mas tão cabulosa que as duas vitórias seguidas em casa deram aos colorados apenas o direito de voltarem a se desesperar. Porque dias atrás estavam somente desenganados, vagando pela tabela e pelas ruas como almas-danadas, pregados de forma inapelável ao rodapé da tabela, companheiros de quarto de Belzebu, escovando os dentes com enxofre. É uma evolução tímida na escala da desgraça: não estão muito mais vivos, só um pouco menos mortos. E, se o Inter ainda se acha no direito de espernear, isso acontece por um único motivo: um Beira-Rio que LATE como nunca havia feito desde sua reinauguração.

Quando este novo Beira-Rio ainda estava sendo DIGERIDO pela torcida colorada, escrevi no Impedimento um texto onde confessava quão repelido me sentia pela nova versão da ancestral cancha colorada. Sobre como a noção moderninha de espetáculo contrariava os velhos hábitos de torcedor e a impressão de que esta segregação duraria apenas até o momento em que fosse necessário trazer o povo de volta para fugir da segunda divisão, fazer a arquibancada LATEJAR, o concreto expandir até rachar o acrílico e, se preciso, tacar fogo na relva, em sentido metafórico ou literal. Mais ou menos como está acontecendo agora.

Ao contrário do que pregam os cientistas, arquibancada é sábia e tem noção de contexto histórico. Quando o Inter começou a despencar na classificação, processo natural diante de tantos desmandos de uma gestão desastrosa, os protestos multiplicaram-se, alguns inclusive violentos, e o presidente era verbalmente acossado a cada partida. Isso enquanto a torcida acreditava que o time poderia reagir. Quando percebeu que os espasmos já eram mais espaçados, que o curso natural apontava para a falência múltipla dos órgãos e o consequente apocalipse, a torcida deixou de fazer força para tentar enxergar um arremedo de time e voltou os olhos para a história do clube.

Não importava mais o técnico, o lateral-esquerdo ou o presidente. Todos eles são passageiros, inclusive o cobrador e o motorista. O que permanece é o Beira-Rio, o passado que engole a si mesmo e a relação que cada um tem com aquela camisa. O clube pedia amparo, e no fim das contas este é o arsenal espiritual sobre o qual se assenta a força de uma torcida. Como aquele filhote de cachorro que passa a noite chorando na chuva, até que em plena madrugada a porta se abre e uma mão benevolente lhe ergue pelo cangote e o coloca pra dentro de casa, em cima do tapete. A mão, no caso, é a que neste momento também embala o Beira-Rio. Era isso ou a tragédia coletiva, a vergonha íntima refletida pelo fracasso do século. Quando se precisa sobreviver, tudo mais é supérfluo.

Para qualquer colorado, só havia uma escolha possível: gritar como se não houvesse amanhã. Porque desse grito depende o lugar em que se vai amanhecer em 2017 – e pelo resto da história. E a diretoria, a mesma que relegou o carimbo de Clube do Povo a favor de um insosso e esnobe Campeão de Tudo, sentindo o garrote apertar, não viu alternativa a não ser praticamente abrir as portas do Beira-Rio para que a torcida protagonizasse uma imensa e abnegada massagem cardíaca naquele time que sucumbia em campo.

Quando Danilo Fernandes, envergadura semelhante à sombra dos refletores que não existem mais, transmutou-se em Manga na noite de quinta-feira, após defender aquele pênalti sob encomenda para que o jogo se tornasse a epopeia necessária (porque ninguém aqui é mais criança e, se aqui chegamos, ninguém quer mais saber de sessão da tarde: exigimos demência completa e irrestrita) e observou a arquibancada começar um carnaval sem pudores, contrariando qualquer lógica, mesmo com o time continuando encaixotado pelo Coritiba por mais intermináveis cinco minutos, deve ter se deparado com uma visão aterradora de empatia e cumplicidade. Um vulto que percorria a noite. Colorado em estado puro.

O cenário continua macabro, mas o que este presente recheado de agonia mostra é que a torcida do Inter sempre esteve disposta a abraçar mesmo as causas mais inglórias. Que ao fim do campeonato, independentemente do desfecho, o clube mandasse erguer em frente ao portão 8 um Monumento ao Torcedor Colorado, isso seria não apenas um mea-culpa momentâneo e factual, mas uma restituição histórica de identidade. Afinal, somos todos filhos de Charuto, legítimos ou não. Ou que use como inspiração Vicente Rao, o patrono da galhofa colorada, Tim Maia da Coréia ou qualquer demônio de asas quebradas catado aleatoriamente enquanto se esgoela numa destas noites de desespero. Talvez seja uma forma de o próprio clube reatar a relação que rompeu de forma unilateral com sua torcida para privilegiar uma visão de mundo de novo-rico. Porque o torcedor colorado sempre esteve lá. Quem precisa voltar para casa é o Inter.

Fonte: Globoesporte.com – Meia Encarnada

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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