Mulheres negras inovam em estratégias de apoio comunitário na resposta à COVID-19

Pandemia gera novos desafios para resposta da Agenda 2030 e da Década Internacional de Afrodescendentes às mulheres negras e à eliminação das desigualdades de gênero e raça no Brasil. (Foto: ONU Mulheres/Mayara Varalho)

Da ONU/BR

A pandemia tem levado organizações e coletivos liderados por mulheres negras, país afora, a inovar nas estratégias políticas de enfrentamento do racismo e de apoio comunitário à população negra na resposta à COVID-19.

A mobilização envolve redes de costura solidária, agricultura familiar, trabalhadoras domésticas, marisqueiras, catadoras e mães de jovens negros assassinados. Leia reportagem da ONU Mulheres.

Fome. Desemprego. Aumento da violência doméstica e familiar. Prevalência entre as vítimas fatais do novo coronavírus. Este é o quadro de vulnerabilidades da população negra brasileira, que foi acentuado, ao longo dos últimos quatro meses, pela pandemia de COVID-19 no Brasil.

A informação foi transmitida pelo Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030 em reunião na semana passada com a equipe da ONU Mulheres no país, liderada pela representante Anastasia Divinskaya.

Constituído em 2017, o Comitê Mulheres Negras tem colaborado com a ONU Mulheres para atingir os objetivos da Agenda 2030 e da Década Internacional de Afrodescendentes, tendo como foco as mulheres negras, um dos grupos mais vulneráveis às discriminações de gênero, raça e outras formas de opressão.

A pandemia tem levado organizações e coletivos liderados por mulheres negras, país afora, a inovar nas estratégias políticas de enfrentamento do racismo e de apoio comunitário à população negra na resposta à COVID-19.

Para Clátia Vieira, integrante do Comitê Mulheres Negras pelo Fórum Nacional das Mulheres Negras, o impacto da pandemia agrava a situação já revelada pela Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, que reuniu mais de 50 mil afro-brasileiras em novembro de 2015.

“Em 2015, a Marcha fez um diagnóstico aprofundado da situação da população negra brasileira. No pós-2015, vemos um processo de desconstrução de políticas e precarização do pouco que se tinha. A pandemia mostra que há mais de 20 milhões de pessoas no Brasil sem registro civil, como vimos na dificuldade de acesso ao plano emergencial. A questão é: como essas pessoas estavam vivendo?”, questionou.

Na avaliação de Vieira, “o maior problema é a fome”. Ela cita também a violência contra as mulheres negras, algo que precisa ser discutido com profundidade e urgência de ações de prevenção. Vieira também lembrou relatos de violência sexual e patrimonial durante a entrega de cestas básicas em favelas e morros do Rio de Janeiro (RJ).

Racismo e participação das mulheres negras

Lúcia Xavier, da organização Criola e componente do Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030, chamou a atenção para a temporalidade da pandemia da COVID-19, cujos efeitos poderão se desdobrar por anos.

“O racismo é um problema estrutural. Mas, agora, fala da nossa vida. Estamos na linha da morte. É preciso ampliar a participação das mulheres negras e a capacidade de interferir em novos problemas. As pessoas estão negociando as suas vidas para comer”, frisou.

Regina Adami, do Ìrohìn – Comunicação e Memória Afro-brasileira e integrante do Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-5o em 2030, lembrou a proximidade dos 20 anos da 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, que serão completados em 2021, e a “atualidade do debate sobre racismo no mundo, da discriminação racista e da xenofobia”.

Ela ressaltou que é “preciso pensar coletivamente o Estado brasileiro e as políticas públicas, pois, sem elas, as crises decorrentes da pandemia não serão superadas”.

Ampliação das vulnerabilidades

Nilza Iraci, do Geledés – Instituto da Mulher Negra e integrante do Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030, afirmou que a instituição tem apoiado mães de jovens negros assassinados, população de rua e prostitutas da região central de São Paulo (SP).

“Não é só distribuição de cesta básica, temos incentivado as mulheres para que elas produzam máscaras e sabonetes para venda. Assim, elas não são somente receptoras, mas estão produzindo para ter dinheiro e cobrir as necessidades.”

Valdecir Nascimento, do Odara – Instituto da Mulher Negra e secretária-executiva da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), lembrou que “a vulnerabilidade negra está colocada em todas as pandemias”. “E, dentro da pandemia de COVID-19, acontecem outras pandemias: a da violência contra as mulheres, a da violência policial contra a juventude negra, a da violência no campo”, enumerou.

As organizações da sociedade civil buscam soluções diante dos impactos socioeconômicos da pandemia sobre a população negra. A mobilização envolve redes de costura solidária, agricultura familiar, trabalhadoras domésticas, marisqueiras, catadoras e mães de jovens negros assassinados.

“Na área de comunicação, áudios e vídeos facilitam a comunicação com a comunidade, inclusive com as pessoas que desrespeitam o isolamento social. Estamos distribuindo cestas básicas para comunidades de terreiros e mulheres trans. É preciso redefinir novos caminhos de atuação do ponto de vista político. É a prática do bem viver para além dos discursos”, completou Valdecir Nascimento, membra do Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030.

Especificidades da população negra

Para as comunidades quilombolas, a estratégia tem sido fazer alianças nos territórios quilombolas e para além deles.

Givânia Silva, membra do Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030 pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), afirma que, com a interiorização da pandemia, a situação dos quilombos vai piorar.

A dificuldade de lidar com as novas tecnologias ainda concentra trabalho em algumas pessoas da entidade, mas também permite conversas por meio de lives, como ocorreu durante os 24 anos da Conaq, em maio, até o monitoramento de contágios e óbitos.

Ana Lúcia Pereira, da entidade Agentes de Pastoral Negros (APN) e integrante do Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030, manifestou a preocupação com a segurança alimentar e nutricional da população negra, exclusão digital e educação a distância.

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