Não somos ‘baratas’! Vidas negras importam! Black lives matter!

Céres Mariza Santos. (Foto: Divulgação)

Por Céres Santos*

A solidariedade afrodiaspórica foi (re)acionada com o assassinato bárbaro e racista de George Floyd, 46 anos, em Minneapolis, estado de Minnesota (EUA), na 2ª feira, 26.5. A imagem do policial branco, Derek Chauvin, sufocando Floyd com um dos seus joelhos, com as mãos nos bolsos e sendo observado por mais três colegas, que não esboçam nenhuma reação de desaprovação. Essa cena vai e volta na minha memória. Floyd estava imobilizado, algemado e deitado ao chão, sob a suspeita, de que teria tentado comprar cigarros com uma nota falsa. A imagem de tortura e de total desrespeito aos Direitos Humanos, A VIDA, me fez lembrar da escritora ruandense Scholastique Mukasonga.

Eu li avidamente, seus três livros traduzidos em português: A mulher dos pés descalços, Baratas e Nossa Senhora do Nilo, nessa ordem. E, no ano passado tive a felicidade de participar, na USP, de uma palestra da autora, mediada pela jornalista Rosane Borges. Na oportunidade pude dizer a Scholastique do meu amor, respeito e solidariedade a sua dor. Seus livros são relatos das lembranças de infância do que ficou na sua memória sobre um dos mais terríveis genocídios praticados no continente africano, em Ruanda, no ano de 1994. Scolastique conseguiu fugir com vida desse massacre, mas teve boa parte da sua família assassinada. Brutalmente assassina. A nobreza da escritora está em nos convidar a viver tanto a beleza da sua cultura, quanto as atrocidades humanas ocorridas em Ruanda com a intenção de que aquelas cenas não fossem repetidas.

Porque associei o cruel assassinato de Floyd com a obra de Scolastique? É que um dos três livros, o que leva o título Baratas, a escritora fala de como um dos grupos étnicos de Ruanda, os tutsis, eram assim denominados e como essa expressão servia para justificar as perversidades cometidas contra esse grupo, do qual a escritora pertence. Estima-se que em um período de três meses – de abril a julho de 1994 – mais de 800 mil tutsis foram mortos/as, principalmente, pela eficiência do colonizador (Bélgica) em disseminar o ódio dos hutus contra os tutsis. Uma das lógicas colonialistas das sociedades contemporâneas era de dividir por dentro as populações negras, de se identificar com um dos grupos nativos (hutus) e disseminar ideias, como a de que os tutsis eram “baratas”, insetos transmissores de doenças aos humanos e, por isso, além de gerar repulsa, devem ser exterminados, sem nenhum remorso. Até o quase desaparecimento dos tutsis. O filme hotel Ruanda, do irlandês Terry George, consegue dar uma dimensão do que foi esse massacre.

Então, aquela imagem de Floyd imobilizado por um dos joelhos do policial Chauvin, que tranquilamente aguardava o seu total asfixiamento, sem esboçar algum sentimento de humanidade diante dos apelos da vítima “não consigo respirar”. E Chavin ficou na ação inominável até a morte de Floyd, tranquilo e com o apoio de mais três colegas! Barata!

Agora vamos pensar no seguinte: o que assegura ao assassino de Floyd uma tranquilidade abominável, se não o racismo? O privilégio de ser branco? A certeza de que estava matando uma ‘barata’? De que matar pessoas negras é fazer a ‘coisa certa’, no sentido inverso defendido por Spike Lee? O que assegura as policiais de outros países, como a brasileira, a recorrerem à mesma prática, a de matar pessoas inocentes em comunidades populares, como foi a morte de João Pedro? Agatha? O que autoriza a Polícia Militar a executar, em 6 de fevereiro de 2015, 12 meninos, em Salvador/BA e que ficou conhecida como a Chacina do Cabula? Quem matou Marielle? Amarildo? Claúdia e tantos/as outros/as de nós?

Essa mesma segurança promovida pela cultura da supremacia branca norte-americana pode ser identificada na fala do ministro da Educação, repito MINISTRO DA EDUCAÇÃO, Abraham Weintraub, durante a famosa reunião ministerial do dia 22 de abril, quando afirmou, textualmente que “Odeio o termo ‘povos indígenas’, odeio esse termo. Odeio. O ‘povo cigano’. Só tem um povo nesse país. Quer, quer. Não quer, sai de ré. É povo brasileiro, só tem um povo. Pode ser preto, pode ser branco, pode ser japonês, pode ser descendente de índio, mas tem que ser brasileiro, pô! Acabar com esse negócio de povos e privilégios”, disse o ministro.

É evidente que essa breve fala, tem capilaridade com outras questões, como o modelo de estado-nação tão bem aceito no Brasil e que nega as diversidades racial e cultural existente no Brasil. E que se estruturou alicerçado nos racismos estrutural e institucional. Não por acaso a educação tornou-se um dos principais alvos do ativismo negro brasileiro, o chamado por Nilma Lino de o “movimento negro educador”. Não por acaso Sérgio Camargo foi designado pela ocupar o cargo de presidente da Fundação Palmares.

Como um efeito cascata a mais essa brutalidade a população negra norte-americana foi às ruas. Até então pelo menos mais de 25 cidades dos EUA ainda registram atos de protestos, a exemplo de Fairfax (Los Angeles), Denver (Colorado), Praça Lafayette (Washington), Columbia (Carolina do Sul), Oakland (Califórnia), Nova Iorque (NY) e Miami (Flórida). Amigos/as, familiares, celebridades e desconhecidos/as de Floyd estão protestando contra o crime bárbaro, há quase uma semana, diariamente.

Os EUA estão, literalmente, ardendo em chamas que não se apagam. Já passam de 30 cidades com toque de recolher e quase duas mil pessoas detidas, duas mortes e vários/as feridos/as. As chamas da revolta aumentam os números de protestos, que já ultrapassaram fronteiras e se espalham pelo Canadá, Inglaterra e Alemanha. Não são baratas que estão nas ruas. São pessoas negras e brancas, cansadas do convivío institucional com o racismo, violência e desrespeito.

Não creio que declarações, como a do conselheiro da Segurança Nacional dos EUA, Robert O´Brien, de que não via racismo nas práticas da segurança pública norte-americana, encaminharão o conflito para uma negociação que resulte em mudanças no modelo de política de segurança estadunidense. Parece-me que o momento é muito tenso e mostram um esgotamento da tolerância da maioria da população negra norte-americana à violência racial, enquanto o governo denominada a explosão de ‘vandalismo’.

Nessa reflexão, além de Scholastique também me lembrei de Grosfoguel (2018, p. 71 e 72) quando ele foi direto ao problema ao afirmar que Trump foi eleito “por um discurso abertamente racista, prometendo um futuro melhor aos trabalhadores brancos imperiais, mediante a contínua intensificação da expulsão de milhares de imigrantes, reforçando com o discurso da “lei ordem” o encarceramento massivo de negros e latinos e, em nome da luta contra o “terrorismo”, militarizando as comunidades racializadas com um discurso de “América first”, “Britan First”, ou a “préférence nationale française” que nas bocas de líderes neofascistas como Marine Le Pen, Geert Wilders, Boris Johnson ou Donald Trump significa “white first”.

É evidente que esse tema não está limitado ao que reflito aqui. Que pode ser mais explorado por outros recortes; pela ideia e prática da necropolítica cunhada por Achille Mbembe; pelas  implicações dessa onda antirracista que renasce nos EUA em um ano de eleições presidenciais e que pode ser usada para o bem ou para o mal dessa luta, pelo avanço da pandemia do Coronavírus entre as populações negras estadunidense e brasileira. Mas admito minha preferência pela leitura política, também, pelo campo dos afetos.

Para encerrar gostaria de citar um vídeo que viralizou nas redes sociais onde uma jovem liderança negra norte-americana Tamika Mallory, uma das organizadoras da Marcha das Mulheres, de Minneapolis, afirma que as manifestações em várias partes dos EUA são coordenadas e exigem justiça. Ressalta que os atos públicos são respostas formuladas dentro da mesma lógica, ensinada pelos poderosos norte-americanos: a violência. Sem dúvida, o que se vê é uma indignação pelas vidas interrompidas. É, também, um grito para impedir novas mortes, incluindo não só as mortes promovidas pelo policia norte-americana ou pelo sistema carcerário. Mas também, as muitas vidas interrompidas pelo neoliberalismo, que implanta sistemas de saúde que, não por acaso, geram mais vítimas da pandemia por Covid 19, que tanto aqui, como lá nas terras do tio Sam, entre as populações negras. O grito negro norte-americano é por conta dessas práticas racistas que nos excluem do acesso ao mercado de trabalho, às tecnologias, a condições mínimas de vida digna, como direto a saneamento básico. Estou falando de fatos reais e qualquer semelhança entre as realidades norte-americana e brasileira, não é uma mera ficção. Não somos baratas! Vidas negras importam!  Black lives matter!

*Céres Santos, ativista dos movimentos negro e de mulheres negras, jornalista, doutora em Comunicação, docente na UNEB e vice-coordenadora do grupo de pesquisa Hierarquizações Étnico-raciais em Comunicação e Direitos Humanos (RHECADOS).

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