Nei Lopes, Do Irajá para o Mundo

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DSCN6891Considerado uma referência em cultura e história afro-brasileira, o escritor, pesquisador, cantor e compositor Nei Lopes recebeu no último dia 30 o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. (Foto: Banco de Imagens/NacãoZ)  

Por Elisa Larkin Nascimento*

Na Travessa Pau Ferro, subúrbio de Irajá, Rio de Janeiro, um menino esperto registra com olhos e ouvidos afiados tudo que está em torno dele. Imagens e sons, ele os absorve e transforma em criação artística: desenhos na areia limpa à frente de sua casa; músicas e pecinhas teatrais ensaiadas no Grêmio Recreativo Pau Ferro; poesias e ensaios escritos na Escola Técnica Visconde de Mauá, onde ingressou tirando primeiro lugar no concurso – para orgulho do pai semialfabetizado. Pois bem: esse menino esperto se torna uma das mais fecundas penas das letras brasileiras, exercendo seu talento em poesia; composição musical; contos, romances, peças teatrais e musicais; pesquisas históricas e filológicas das quais brotam dicionários e enciclopédias; e seu especial brilho na performance, seja como cantor, debatedor ou palestrante. Tesouro vivo da cultura brasileira, Nei Lopes recebe no próximo dia 30 o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), instituição que acaba de outorgar o mesmo título ao igualmente multifacetado escritor nigeriano Wole Soyinka, primeiro africano a receber o Nobel da Literatura.

Como dizem os ancestrais, nada é por acaso. Juntar esses dois nomes rende um exercício delicioso de imersão no mundo negro que a Bienal do Mercosul propõe explorar ao abordar o Triângulo Atlântico com ênfase na arte e cultura de matriz africana.

Nei Lopes e Wole Soyinka emergem de um mesmo berço, o da cultura nagô ou ioruba, de cuja sofisticação e complexidade tivemos uma pequena amostra na fala do nigeriano, proferida no Theatro São Pedro ao encerrar a Feira do Livro de Porto Alegre. Os orixás constituem, para ambos, os alicerces míticos que sustentam um universo de infinitas possibilidades criativas. Ogum rege os passos literários e ativistas de Soyinka; Obatalá, Logun Edé, Oxum e Oxossi fazem a cabeça de Nei, que vem cumprindo etapas do longo e denso aprendizado da tradição de Ifá-Orunmilá. Os dois têm em comum, entretanto, amplo conhecimento do âmbito maior dos povos negros, cuja identidade, acima das divisões étnicas, existe em diversos léxicos africanos: abibiman (ki-swahili), enia dudu (ioruba), meedidzii (ga), baike mutane (haussa). Assim como Soyinka rechaça a “consciência salina” que confinaria o pertencimento africano ao território continental, Nei Lopes celebra a pluralidade da herança africana nitidamente vivida na diáspora e no Brasil: seus dicionários e enciclopédias da diáspora e da África solidamente a afirmam.Em seu livro Bantos, Malês e Identidade Negra (1988), Nei rompeu com o equívoco antropológico segundo o qual os negros vindos da África meridional teriam sido culturalmente “menos avançados” que os chamados “sudaneses” da África Ocidental. Mas isto é outra história. O fato é que Wole Soyinka e Nei Lopes mergulham na riqueza da pluralidade dessa herança africana que guarda uma matriz ampla, coerente, de qualidades e princípios compartilhados entre suas diversas expressões.

Uma dessas qualidades é um profundo respeito e reverência ao ambiente, sendo os orixás as próprias forças da natureza ao mesmo tempo que representam e interrogam ponderações éticas próprias à ordem do convívio humano e da relação do ser humano com o planeta e o universo. Tive a honra de conviver com Nei Lopes quando o Rio de Janeiro recebeu a Cúpula das Nações Unidas sobre Meio-Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, o Rio-92. Realizamos o Colóquio Dunia Ossaim, cujo título evoca a unicidade de distintas matrizes africanas: dunia significa planeta terra em ki-swahili; Ossaim a divindade das folhas, da cura pela natureza, em ioruba. Com Abdias Nascimento e Joel Rufino, recebemos o Mwalimu Julius Nyerere, ex-presidente da Tanzânia e líder da Comissão Sul-Sul. Nei concebeu naquela época o projeto Insaba, sabedoria da floresta, que propunha criar uma grande horta em terreno da Baixada Fluminense para pesquisa e divulgação do rico conhecimento fitoterápico da tradição afro-brasileira e indígena. Duas décadas depois, Wole Soyinka viria ao Brasil participar da tenda de matriz africana na Rio +20, novamente sublinhando esse aspecto ambientalista da tradição africana.

Outro valor dessa tradição é a reverência aos ancestrais. A obra de Nei Lopes, assim como a de Soyinka, incorpora-o e o faz viver vibrando. Traz para nós a vida d’outrora com personagens palpáveis. Recria o Rio de Janeiro em mínimos detalhes históricos e geográficos. Enumerar exemplos seria matéria de tese acadêmica. Mas nem todas as criações de Nei chegaram às livrarias. Tive o privilégio de assistir no Centro Cultural José Bonifácio, na década dos 1990, a peça musical “Clementina”, brinde do Nei para aquele equipamento municipal voltado à cultura negra. Foi a primeira vez que vi em cena, desenvolvido no texto de forma instigante e bem-humorada, a figura de Deus corporificada como mulher negra. Dez anos depois, vi cena semelhante em cinema, e hoje o protagonismo das mulheres negras a coloca com alguma frequência. Mas naquele momento foi uma das deliciosas e inéditas surpresas com que a ousadia criativa de Nei Lopes volta sempre a nos brindar.

Parabéns à UFRGS, que além de outorgar-lhe o título, abre seu Salão de Atos no dia 1o para a aula musicada “A vez e a voz de Nei Lopes”, promovida pelo Departamento de Educação e Desenvolvimento Social da Pró-Reitoria de Extensão, (DEDS) com apoio do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UFRGS.

* Doutora em psicologia pela USP e mestre em direito e em ciências sociais pela Universidade do Estado de Nova York (EUA), a autora dirige o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO).

 

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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