Nilma Lino Gomes lança em Porto Alegre seu livro sobre o papel educador do Movimento Negro no Brasil

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Ex-ministra é convidada da UFRGS para aula inaugural da Pós-Graduação em Educação abordando a história do Movimento Negro e sua relação com a educação no país

Aula da professora Nilma analisa a contribuição educadora do Movimento Negro para a sociedade brasileira. (Foto: Banco de Imagens/NaçãoZ)

Por Airan Albino, do NZ

No dia 14 de agosto, a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) sediou uma aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDU) e, sob a responsabilidade do Centro Ecumênico de Cultura Negra (Cecune) e do NEABI do Instituto Federal –RS, o lançamento e sessão de autógrafo do livro “O Movimento Negro Educador”. A convidada foi a professora, pedagoga, mestre em Educação, doutora em Antropologia Social , pós-doutora em Sociologia e escritora, Nilma Lino Gomes.

Em seu currículo, Nilma traz experiência como Reitora da Universidade Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), em 2013 e 2014, Ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em 2015 e Ministra do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos no ano seguinte. Atualmente é docente do quadro da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora das áreas de educação e diversidade étnico-racial, com ênfase na atuação do movimento negro brasileiro.

Plateia entusiasmada ptestigia o evento. (Foto: Banco de Imagens/Mação Z)

O evento lotou o auditório, ocupando os 430 lugares disponíveis e reuniu, além de estudantes e docentes vinculados à Universidade Federal e ao Instituto Federal-RS, professores/as das redes municipal e estadual de ensino, militantes da educação popular, do movimento negro e do movimento de mulheres negras.

A abertura do encontro foi realizada pela atriz Dedy Ricardo que apresentou a performance “Para que despierten las mujeres todas“, com direção de Thiago Pirajira. Em pouco mais de 15 minutos, as atenções se voltaram para Dedy, que conseguiu sensibilizar o público ao cantar/encenar um texto voltado às questões das mulheres, principalmente das negras. A atriz é participante do  Grupo de  Estudos sobre o  Pensamento de  Mulheres  Negras Atinuké, que também  se fez presente na ocasião.

Por uma sociedade antirracista

Terminada a performance de Dedy Ricardo, sob uma salva de palmas em pé, Nilma iniciou sua fala intitulada “Dimensões politicas e educativas das lutas negras”. A ex-ministra falou sobre o conhecimento político e educativo dos movimentos sociais negros, derivados da luta por direitos iguais e chamou atenção para o fato de esse conhecimento ter sido elaborado na vivência de marchas, protestos, seminários e enfrentamentos, o que coloca o movimento negro no papel de educador da sociedade.

Para Nilma, as dinâmicas de atuação do movimento negro expuseram as facetas do racismo: estrutural, que parte do pressuposto de que esperamos determinados comportamentos de pessoas negras (violência, desorganização, sensualidade); o institucional, que assegura desigualdade baseada na raça, seja em relações de trabalho, de educação etc.; e o racismo ambíguo, que se afirma por meio de uma negação sempre que ícones (música, esporte) são destacados para tentar exemplificar uma igualdade que não existe, visto que mais da metade da população do Brasil é negra.

A política, intensamente presente nesses espaços da intelectualidade negra, fez com que acontecesse um processo de educação para organizações sociais não negras e, também, reeducação das entidades, a exemplo da Frente Negra Brasileira (década de 1930), do Teatro Experimental do Negro (década de 1940), do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, e das Ações Afirmativas, mais recentemente. A professora Nilma reúne essa história no livro “O Movimento Negro Educador – Saberes construídos nas lutas por emancipação”, publicado pela Editora Vozes.

A obra é uma atualização do projeto de pós-doutorado desenvolvido no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. Sob supervisão do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos, o estudo teórico intitulava-se “Movimento Negro, saberes e um projeto educativo emancipatório”, de 2006. Dele decorreram inúmeras investigações coordenadas por Nilma, assim como apresentações em congressos, minicursos, aulas e publicações. O resultado final foi transformado no livro que foi lançado na noite da aula inaugural em Porto Alegre.

Ao defender a emancipação social brasileira, Nilma cita Angela Davis, dizendo que “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Mesmo com a Lei nº 10.639 (2003) que tornou obrigatória a inclusão da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” nas redes de ensino públicas e privadas, a Lei nº 12.711 (2012) das cotas raciais nas universidades e a Lei nº 12.990 (2014) das cotas raciais nos concursos públicos, a pedagoga questiona a implementação de medidas a favor da população negra: “Será que a educação está pronta para receber esses sujeitos e os seus conhecimentos? As bibliografias serão as mesmas? E as verdades, serão ainda absolutas?”

Os saberes da comunidade negra

Nilma afirma que a comunidade negra é rica em conhecimento e produz pensamentos que invadem a vida dos brasileiros. Segundo a antropóloga, dentro da constelação de saberes produzidos pelos negros no Brasil, é necessário destacar três que acompanham a sua trajetória histórica e ganham visibilidade na educação e na sociedade brasileira a partir dos anos 2000. São eles: os saberes políticos, os saberes identitários e os saberes estético-corpóreos.

Os saberes políticos tematizam a desigualdade racial dentro das múltiplas instituições. Para além disso, eles são responsáveis por organizações dentro de universidades, como os Núcleos de Estudos Afro-brasileiros (Neabs), responsáveis pela realização de pesquisas, projetos de extensão, formação de professores e pelos debates acadêmicos e políticos sobre as questões de estudantes cotistas no ensino superior. Nesta categoria, há um destaque para o Movimento das Mulheres Negras, por reeducar as identidades dentro e fora do Movimento Negro. As ativistas negras indagam e denunciam o machismo, a invisibilidade no movimento feminista e o protagonismo da mulher negra. Essa análise tem relação com as pessoas que estão no poder e que não querem mexer em seus privilégios. São pessoas brancas, que se valem das diversas formas de racismo para continuarem no poder, por isso tem como fundamento o conceito de branquitude. Para melhor compreensão deste conceito, a professora fez referência ao livro “Psicologia Social do Racismo – Estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil”, organizado por Maria Aparecida Silva Bento.  Ainda na análise dos saberes políticos, Nilma apontou como uma grande falha na educação do país a ausência de professores negros nas universidades e como razão desse fenômeno o fato de que no Brasil o negro não é reconhecido como detentor de conhecimento. “É necessário implantar uma política de cotas para professores nas universidades!”, afirmou a educadora em meio a aplausos.

Os saberes identitários desencadearam o debate sobre quem é negro e quem é branco no Brasil. Discussões sobre apropriação cultural, colorismo, ações afirmativas e outros temas acontecem diariamente na vida on-line e off-line de maneira crítica, política e posicionada pelos sujeitos negros. Uma nova visibilidade da questão racial e da identidade negra está presente na literatura, nas artes e nos campos do conhecimento. Ser negro e negra está se tornando um posicionamento político e identitário que desconforta as elites e os poderes instituídos.

Os saberes estético-corpóreos surgem a partir do advento das ações afirmativas, pois se configurou um perfil de juventude negra que se afirma por meio da estética e da ocupação de lugares acadêmicos e sociais. De maioria periférica, essa juventude aprendeu a se respeitar e ter orgulho de ser negro e da periferia, numa postura afirmativa e realista. “Subjetividades é tudo de que precisamos no país e os saberes, principalmente os estéticos-corpóreos nos permitem alcançar essa subjetividade”, explica Nilma.

Outro ponto trazido pela professora diz respeito às inflexões do movimento negro. Aqui se contemplam os direcionamentos alterados por essa comunidade, como as marchas dos 100 anos da abolição (1988), as manifestações nos 300 anos de morte de Zumbi dos Palmares (1995), o dia 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e, também, Dia de Tereza de Benguela, liderança do Quilombo de Quariterê (Mato Grosso) durante o século XVIII. Ainda constam na lista a Conferência de Durban, de 2001, onde foi pautado o tema das Ações Afirmativas, as entidades como a Seppir, a Unilab e a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), a Marcha do Orgulho Crespo e a Marcha das Mulheres Negras (2015).

Nilma Lino Gomes encerrou sua fala identificando os desafios que a comunidade negra enfrentará nos próximos meses, salientando o papel educador do Movimento Negro no Brasil: a disputa territorial da questão quilombola, o genocídio de jovens negros, o racismo religioso e o feminicídio negro.

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Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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