Novembro, o mês da resistência negra!

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Revolta-da-Chibata-1A Revolta da Chibata movimento liderado pelo marinheiro João Cândido (ao centro) da Armada brasileira, que teve início na noite do dia 22 de novembro de 1910. (Foto: Arquivo Nacional/Divulgação)

Por Marcelo Gentil*

Salve o almirante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais”.

Muitos conhecem o samba composto em parceria por Aldir Blanc e João Bosco, intitulado “O Mestre Sala dos Mares”. O que poucos sabem é que a composição foi censurada pelo regime militar e, Aldir, o autor da letra, foi obrigado a alterar vários trechos da mesma, inclusive, tendo que substituir o termo “Almirante Negro” por “navegante negro”. Afinal, como esbravejou incomodado o censor, “na nossa gloriosa marinha não existe nenhum almirante negro”. Ao menos, a palavra negro foi mantida depois de muitas justificativas e desculpas junto aos censores.

 Novembro, o mês da Consciência Negra tem uma importância ímpar para os movimentos negros brasileiros, pelo fato de ser um mês rico em datas simbólicas para a nossa causa, tanto no Brasil, como no mundo.

Foi em novembro que foi criado o primeiro bloco afro brasileiro, o Ilê Aiyê; que morreu Lima Barreto, um dos nossos maiores escritores, cujo estilo literário transitava entre o Realismo e o Modernismo; que Angola, a “pátria mãe de milhões de brasileiros” tornou-se independente de Portugal e, que o Zimbabwe (antiga Rodésia do Sul) também conquistou a sua independência.

É no mês de novembro quecelebramos, também, a Revolta da Chibata – o levante dos marinheiros negros no Rio de Janeiro -, que se rebelaram contra os castigos corporais (chibatadas) que sofriam dos seus superiores, contra a péssima alimentação a que recebiam e contra a impossibilidade de se desligarem da marinha de guerra por vontade própria.

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João Cândido, a quem Aldir e João Bosco dedicaram a música “O Mestre Sala dos Mares”, juntamente com o marinheiro Francisco Dias Martins, que se auto-intitulava de Mão Negra e toda a tropa rasa, depois de verem negados todos os pedidos para a revogação dos castigos corporais e demais constrangimentos, deflagraram a Revolta da Chibata e colocaram “de joelhos” a capital da república à época, o Rio de Janeiro e, só assim com o uso da força, da organização e da mobilização social e política, conseguiram conquistar os direitos que são vivenciados por todos os marujos nos nossos dias.

Há muito tempo nas águas da Guanabara O dragão do mar reapareceu Na figura de um bravo feiticeiro

A quem a história não esqueceu

Se a história oficial tentou esconder a história de João Cândido e, por conseguinte da Revolta da Chibata, aqueles que muitos anos depois, tiveram as vidas mudadas por aquele ato de coragem em 22 de novembro de 1910, jamais esqueceram. Como exemplo, cito que um jovem marinheiro, ao discursar no velório de Maria Dolores Vidal, esposa de João Cândido, proferiu a seguinte frase olhando nos olhos do Almirante Negro: “Se hoje não apanhamos, recebemos salário e temos uma boa alimentação na marinha, devemos isso ao senhor”.

Para que a nossa juventude possa conhecer e jamais esquecer o legado de João Cândido, a Escola Olodum lançou em 2010, com ilustração do cartunista Maurício Pestana, a cartilha REVOLTA DA CHIBATA – A revolta cidadã dos marinheiros negros, visando também, contribuir com a socialização de material didático voltado para a aplicação da Lei 10.639/03. A cartilha veio acompanhada de um CD com a regravação da música de Bosco e Aldir e outras músicas alusivas ao tema, todas gravadas pelos jovens da Escola, cujo endereço do vídeo de uma delas encontra-se aqui: (https://youtu.be/ACQiTIbbgF8?t=12).

 Glória a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais salve o navegante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais

Por tudo isso, em novembro também rendemos todas as nossas homenagens ao homem que, com mais de 60 anos e, àquela época, e tanto tempo após a Revolta da Chibata continuava antenado com os problemas vividos pelo negro brasileiro e que, ao ser questionado por um entrevistador a respeito da morte afirmou:

Seu moço, depois de morto, eu gostaria de voltar somente para lutar ao lado dos meus irmãos negros contra o racismo. Pois este é o pior inimigo do Brasil”.   “Mas faz muito tempo…!

*Marcelo Gentil é licenciado em história pela UCSAL, é especialista em gerência social para afrodescendentes da América Latina e Caribe (INDES/BID – EUA), foi diretor de Estudos, Projetos e Pesquisas da Fundação Cultural Palmares/MinC e é vice-presidente do Olodum.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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