O açoite legalizado

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Por Beatriz da Rosa Vasconcelos*

No dia 1º de julho, um sábado, o Ministério Público Estadual determinou o fechamento da escola de samba Imperadores do Samba, de Porto Alegre, sob alegação de descumprimento de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta). Com isso, uma das escolas de samba de Porto Alegre mais antigas e tradicionais da cidade foi calada. Está de portas fechadas.

Em 2004, foi inaugurado o Complexo Cultural Porto Seco, local para a realização de eventos de rua da cidade. Nunca foi usado para os desfiles militares e/ou comemorações da Semana Farroupilha. Somente os negros foram “atirados” no lugar para as comemorações e desfiles do carnaval. Longe de tudo e de todos.

Em 2010, a Associação Satélite Prontidão, com 110 anos de existência, vendeu sua sede própria, localizada no bairro Glória, e mudou-se para bairro longínquo de Porto Alegre, no Parque dos Maias. O local da antiga sede é hoje considerado ótimo para empreendimentos imobiliários, por isso pressionaram os administradores do clube a vender ali e comprar uma sede “longe” de tudo e de todos.

Em 2012, prestes a completar 140 anos, a Sociedade Floresta Aurora, viveu mais um desterro. Não suportou a especulação imobiliária e a pressão de moradores de luxuoso condomínio da zona sul (Pedra Redonda). Expulsaram os negros e, hoje, a sede do clube de negro mais antigo do Rio Grande do Sul fica em Belém Velho, lugar como diz a música “onde não passa ninguém, onde não vive ninguém”. Local esquecido por todos.

Lugares de isolamento, onde ninguém vai enxergar, são os lugares onde negros devem ficar. Isso nos dizem o tempo todo, com essas ações: Quilombo dos Silva, dos Alpes, Cidade Baixa, Areal da Baronesa, mas tudo tem justificativa.

Nesta semana fecharam escola tradicional de Porto Alegre, pois ela não cumpriu o TAC, então vamos acoitá-la. E não importa que a outra parte tenha descumprido sua obrigação, a prefeitura de Porto Alegre. Sequer falaram que a prefeitura havia se comprometido em realizar reformas e benfeitorias no prédio da escola. Isso passa “a lo largo”. O que interessa é ferir mais uma vez, e açoite na negrada. Estamos com as costas, o corpo em feridas, sangrando. Imperadores do Samba faz parte da história do povo negro de Porto Alegre, sempre acolheu os mais pobres, em especial as mulheres negras trabalhadoras domésticas da cidade e região metropolitana.

Imperadores nasceu na Rua Joaquim Nabuco, bairro Cidade Baixa. Esteve em diversos pontos, incluindo a Avenida Ipiranga, próximo ao jornal Zero Hora. Deste local, foi expulsa por moradores de um condomínio vizinho à quadra da Escola, que ingressaram na Justiça contra a agremiação. A prefeitura, então, instalou a escola na Avenida Padre Cacique, onde agora também não pode mais exercer suas atividades. Os lugares de lazer dos negros tem que ser longe de tudo e de todos. Apesar do açoite, buscam se divertir. Não devemos esquecer que sempre foi assim. Enquanto escravizados, não deixaram a música para não morrer de tristeza.

A musicalidade está no DNA da população negra, assim como dança. Para cada ocasião, um ritmo e uma dança, nos canaviais, nas lavouras de café, no trato com o gado, nas charqueadas, na casa grande e na senzala. Uma musica, um ritmo, uma dança e o Batuque. O desrespeito com as nossas tradições, com a nossa história permanece. Antigamente o açoite fazia parte da forma que “disciplinavam” o povo negro. Hoje o açoite ainda é usado através dessa gama de ações, para tornar os negros invisíveis e silenciosos, num lugar bem longe, onde não passa ninguém, não vive ninguém. Vamos ficar monitorando esse lugar, Av. Padre Cacique, pois, provavelmente, em breve, teremos um belo empreendimento imobiliário, a chamada especulação imobiliária.

O racismo está impregnado na sociedade, nas instituições e se naturalizou, sequer é admitido. O que nos consola é que somos a resistência.

*Beatriz da Rosa Vasconcelos é advogada e ativista dos Direitos Humanos e integrante do Instituto AKANNI.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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