O grito da arte do carnaval

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Por Antônio Carlos Côrtes* – Foto: Irene Santos

Em 2012, uma empresa de engenharia sul- rio-grandense concluiu, em menos de 200 dias, as obras de ampliação do Sambódromo do Rio de Janeiro – Passarela Darcy Ribeiro, possibilitando, com isto, um acréscimo de 17.800 lugares o que elevou para 77,8 mil a capacidade de público do megaprojeto de autoria do arquiteto Oscar Niemeyer que, do alto dos seus 104 anos pode contemplar seu sonho de 30 anos concretizado. Os recursos para a ampliação do empreendimento foram todos privados, bancados pela AMBEV – Companhia de Bebidas da Américas.

Tal iniciativa prova que, em havendo vontade, aqui em Porto Alegre a construção das arquibancadas definitivas na Passarela Carlos Alberto Barcellos – Roxo, poderia ser  feita em menos de 365 dias. O grande geógrafo brasileiro de saudosa memória, Prof. Milton Santos, já afirmava que nós somos apenas meros consumidores e não sabemos o que é cidadania.  Assim se explica o contexto dos fatos que ocorreram no ano de 2012 no cenário do carnaval porto-alegrense, quando as arquibancadas montadas temporariamente tremeram e tiveram de ser interditadas . Menos mal que o abalo estrutural ocorreu no desfile de domingo dia 19, em que o público presente foi menor do que o da sexta 17 e de sábado 18, quando estiveram lotadas. Em 2014, as mesmas arquibancadas ruíram em dois degraus

na Passarela do Samba, quase  causando uma enorme tragédia. Ficou demonstrado que a estrutura tubular do monta-desmonta está insuficiente para dar segurança plena à população que lá comparece.  Será que esperam

grande tragédia para solucionar de forma definitiva o grave problema? Basta. O povo do carnaval merece respeito a sua cidadania. O compositor Geraldo Vandré já afirmava: “gado a gente marca, prende, engorda e mata; mas com

gente é diferente!” O gado hoje não sofre mais com a marcação eis que presente o “chip”. Mas gente, poeta Vandré, parece que não é tão diferente não! Pois continua sendo explorada e esmagada por racismo, preconceito e segregação, já que, junto com sua arte, foi empurrada para longe do centro.

Do alto da experiência de quem cobre profissionalmente por quatro décadas o evento do carnaval, rogo que integrem a Pista de Eventos do Carnaval de Porto Alegre, instrumentos adequados e seguros para grandes espetáculos com o que, além de servir aos desfiles, o ambiente acolheria “megashows”, convenções, feiras e exposições, eventos esportivos e artísticos. Além da pista para desfiles, com extensão 800 metros, faz necessária uma estrutura sanitária que contemple banheiros específicos e em quantidade satisfatória, praça de alimentação com instalações seguras e confortáveis, arquibancadas com capacidade para 20 mil pessoas em cada lado, arena em formato circular para shows, estacionamento amplo e seguro para automóveis e coletivos.

É fundamental que se inclua também espaço para memorial com esculturas homenageando Lupicínio Rodrigues (nosso poeta maior), Elis Regina (nossa maior cantora), Mário Quintana e Carlos Alberto Barcellos – Roxo, afirmando, com isto, a função essencial do complexo como polo de atração turística.

Para não que não digam que não apontei de onde sairão os recursos, sinalizo mais um exemplo. Em 2012, a jornalista norte-americana Susan Kostrewa, editora-executiva da Revista Wine Enthusiast, que realizava atividades nas regiões vinícolas brasileiras, esteve em visita ao Complexo Cultural do Porto Seco e conferiu o projeto que alavancou o tema-enredo da escola de samba Estado Maior da Restinga sobre o vinho, em parceria com o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) por meio da lei Estadual de Incentivo à Cultura RS.

Tal cenário multicolorido apontava, ao longo do ano, negócios de cultura vinícola com faturamento superior a US$413 milhões, conforme aposta da Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (Apex). A arte da festa mais popular do mundo promove bons negócios expandindo produtos a novos nichos tanto de consumidores das classes B, C e D que, pela sua mudança de poder aquisitivo nos últimos anos constitui atrativo para o mercado interno, quanto para as empresas exportadoras brasileiras motivando inúmeros investimentos diretos.

*Advogado, radialista, ex-Secretário Geral da Junta Comercial do RS, ex-Conselheiro Estadual e Municipal de Cultura, escritor

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