O Observatório que monitora os casos de racismo e discriminação no futebol brasileiro

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Marcelo Carvalho, criador do Observatório de Discriminação Racial no Futebol. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

O início de 2014 foi marcado por uma sucessão de casos de racismo no futebol brasileiro. Começou em fevereiro, quando torcedores do time peruano Real Garcilasso imitaram macacos para provocar o volante Tinga, então jogador do Atlético-MG, numa partida da Libertadores da América. Em março, depois de uma partida do campeonato gaúcho entre Esportivo e Veranópolis, o árbitro Márcio Chagas encontrou o carro com as portas amassadas e bananas colocadas no para-brisa e no cano de descarga. Desde a sua chegada ao estádio Montanha dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, ele já vinha escutando insultos pela cor da pele. Na mesma semana, no campeonato estadual paulista, o volante Arouca, destaque da goleada do Santos em cima do Mogi Mirim, também teve que ouvir os gritos da torcida rival: “macaco”.

Os casos chamaram a atenção de Marcelo Carvalho, 44 anos. Na época, ele fazia um MBA em gestão empresarial, mas já tinha contato com o mundo do futebol, cuidando das redes sociais de alguns jogadores. “Uma das inquietações que surgiram no curso era isso: existe racismo, não existe racismo? Comecei a apontar casos de racismo, mas [a lista] era muito grande. Comecei a acompanhar o que acontecia com eles, qual era a punição aos envolvidos, ao clube e não achei. Decidi então fazer um canal onde poderia colocar isso, não só os casos, mas o desdobramento deles”.

Casos ocorridos de 2014 foram inspiração para início de monitoramento. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

Foi assim que surgiu o Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Desde então, Marcelo e uma colega se dedicam a listar e monitorar o desenvolvimento de denúncias de racismo no futebol do Brasil. Recentemente, eles firmaram uma parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para expandir os trabalhos. Em quatro anos, ele conta que já conseguiu traçar alguns padrões sobre os casos.

A imprensa, por exemplo, apesar de reportar muito sobre os episódios, fala pouco dos desdobramentos. Uma das dificuldades de produção do relatório de monitoramento, diz Marcelo, é encontrar as punições. A maior parte dos casos são ofensas de torcedores a atletas, há menos denúncias de casos dentro de campo. E, na maioria das vezes, elas partem de terceiros que testemunharam o episódio. Raramente a denúncia vem da vítima.

“Um atleta quando se torna famoso, ele não tem cor. O Neymar é o Neymar. Essa até é uma frase que o OJ Simpson dizia: não sou negro, sou OJ Simpson. Só que ele esquece que a família está na periferia, a mãe está lá, os primos estão lá e estão sofrendo com o racismo e tem cor. O que precisa dos jogadores é essa consciência”, diz Marcelo.

Ele lembra de uma vez que participou de um debate com o zagueiro Valmir Louruz, que afirmou nunca ter sofrido racismo durante a carreira. Louruz, falecido em 2015, jogou em times do interior do RS como Pelotas e Juventude, ganhou títulos no Inter e treinou a seleção do Kuwait nos anos 1990, na Olimpíada de Barcelona. Depois de uma hora e meia ouvindo os relatos do Observatório, porém, ele pediu a palavra. Queria pedir desculpas à plateia e dizer que tinha sim sofrido racismo. Ele só não havia se dado conta disso.

Marcelo, porém, acredita que há uma mudança nos últimos quatro anos. Ele cita, por exemplo, o caso de Paulão, ex-jogador do Inter, que foi vítima de gritos racistas da torcida do Grêmio, durante um clássico, também em 2014. Quase um ano depois, em uma entrevista, o próprio jogador declarou que o trabalho do Observatório o ajudou a entender que a denúncia poderia ajudar a mudar a ideia de “nunca dá em nada”.

Há uma mudança no comportamento dos próprios jogadores. No ano passado, o zagueiro do São José de Porto Alegre, Wagner Fogolari, denunciou nas redes sociais o racismo que sofreu por parte da torcida do Novo Hamburgo.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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