Os esquecidos do 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra

Côrtes relembra os esquecidos na construção do protagonismo coletivo. (Foto: Banco de Imagens/NaçãoZ)

Por  Antônio Carlos Côrtes*

A primeira reunião do Grupo Palmares foi realizada no dia 2 de julho de 1971, na Rua Tomás Flores, no bairro Bom Fim em Porto Alegre-RS – casa do professor José Maria, então sogro de Oliveira da Silveira na época casado com Julieta – filha do citado mestre. Foi no segundo encontro, na casa dos meus pais Egydio Ribeiro Côrtes e Isolina dos Santos Côrtes (hoje com 103 anos), na Rua dos Andradas, 849 o momento que decidiram o nome Palmares. Foi minha a incitava dentro do Grupo  em dizer não ao 13 de Maio e sim ao 20 de novembro, data da morte de Zumbi. Foi trabalho coletivo. Nos anos 70, quatro universitários negros decidiram rever a história. A proposta era recriar data comemorativa em confrontação ao 13 de Maio, dia da abolição da escravatura.

Para a comunidade afrodescendente, o 20 de Novembro era data que melhor representava a história real dos negros brasileiros. Estes jovens fundadores ajudaram a instituir o Dia da Consciência Negra. Palmilho trechos da trajetória do grupo em meus livros de crônicas: Bailarina do sinal fechadoRua da Praia 40º e Degraus da vida. (Ed. Palmarinca).

O grupo, na origem, era composto por Oliveira Ferreira da Silveira, Ilmo da Silva, Vilmar Nunes e o escriba. Nossa pauta era valorizar a identidade negra. Consideramos por justiça, fundadores também, Jorge Antônio dos Santos (Xangô) e Luiz Paulo Assis Santos que, por questões de foro íntimo pediram para não serem citados na época.

Aos sublinhados trago colação em homenagem ao chegarmos às portas do registro dos 50 anos de história em 2021. Foram fundamentais para hoje ver a centenária D. Isolina recordar seu filho mais velho, que aqui assina estas linhas, gritar que a Lei Áurea era oca e vazia. Artigo 1º dizia que ficava abolida a escravidão no Brasil. Segundo (2º), revogam-se as disposições em contrário. Justificativa sequer existia, ou seja, excluíram a mão de obra do escravizado e o abandonaram  à própria sorte.  Foi durante as discussões do grupo, que descobri o livro Quilombo dos Palmares, de Edison Carneiro. Após estudar junto a outras obras o grupo decidiu pelo 20 de Novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares.

Com o tempo começaram a surgir manifestações em todo o País dando apoio à iniciativa. Matéria publicada no Jornal do Brasil nos anos 70 sobre grupo negro que em Porto Alegre contestava o 13 de Maio e era favorável às comemorações no dia 20 de novembro  mereceu destaque. Lembro que as escolas sul-rio-grandenses realizavam festejos no dia da abolição e crianças negras sofriam piadas, o que geralmente acabava  em brigas. Eram recorrentes comentários: “vocês não são nada, seus coisas”!

Havia escolas que apresentavam peças de teatro em que as crianças negras faziam papel de escravizados prestando homenagens à princesa Isabel.

O Grupo Palmares encerrou as atividades no fim da década de 1970, porque  o objetivo dos ativistas já havia sido alcançado. Em seguida, a causa foi assumida pelo Movimento Negro Unificado (MNU) que, com base nas pesquisas dos sul-rio-grandenses, oficializou a data. Em 1978, o escritor paulista Osvaldo de Camargo, em evento realizado pelo MNU, em Salvador, propôs que 20 de novembro fosse o Dia da Consciência Negra.

*Advogado, escritor e psicanalista.

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