OXUM, OIÁ E OS ESPELHOS

oya

Por Aline Djokic, do Blogueiras Negras

Carl G. Jung, ao começar sua pesquisa sobre os arquétipos e o inconsciente coletivo se perguntou que mito estaria vivendo, qual deles o influenciaria, desde o seu inconsciente.

No livro „Mitologias“ Roland Barthes reuniu artigos onde analisava a presença e a produção ou repetição de narrativas mitológicas no cotidiano da França da década de 1950. Nos dois escritos percebemos que vivemos e revivemos, reinventamos, e somos influenciados por narrativas míticas.

Tanto Barthes em „Mitologias“ quanto Levi-Strauss em „Mito e Significado“ afirmam que os mitos falam de uma „verdade“, que sem embargo não é verdadeira, mas deve ser entendida como tal.

Quando nos deparamos com as inúmeras verdades do que é ser mulher na nossa sociedade, percebemos que muitas dessas verdades se baseiam em narrativas mitológicas sobre mulheridades. Uma verdade não pode ser contestada, ela pode, porém, ser confrontada com uma outra verdade. A mitologia dos Orixás é uma fonte de „verdades“ mitológicas que oferecem outras imagens de mulheridades com as quais tais confrontos tornam-se possíveis.

Na nossa sociedade os mitos mais conhecidos são os de origem grega, falar de como os arquétipos ali representados „influenciam“ o nosso cotidiano é mais comum. O Brasil, no entanto, tem a graça de ter outras referências, além das dos povos indígenas, nós temos também a mitologia afro-brasileira. Para o „povo de santo“, como são chamados os fiéis das religiões afro-brasileiras, isso não é novidade, é comum falarem de características dos Orixás, que eles, como filhos dessa divindade, herdaram. Eles conhecem as histórias, mitos, vividos por suas divindades e estas lhes dão significado.

À parte do pertencimento religioso, a mitologia dos Orixás é, a partir de uma visão histórica, uma herança (que infelizmente muitos hão de rechaçar!) deixada pelos povos escravizados e trazidos da África ao Brasil. As narrativas míticas afro-brasileiras vem de uma tradição oral, mas hoje temos o privilégio de ter acesso à formas escritas dessa literatura. Eu usarei o livro de Reginaldo Prandi „Mitologia dos Orixás“ como referência, que traz não só a mitologia afro-brasileira dos Orixás, mas também a mitologia africana e afro-cubana.

Para começar gostaria de analisar um mito sobre Oiá (Iansã) e Oxum:

„Vivia Oxum no palácio de Ijimu.
Passava os dias no seu quarto olhando seus espelhos.
Eram conchas polidas
Onde apreciava sua imagem bela.
Um dia saiu Oxum do quarto e deixou a porta aberta.
Sua irmã Oiá entrou no aposento,
extasiou-se com aquele mundo de espelhos,
viu-se neles.
As conchas fizeram espantosa revelação a Oiá.
Ela era linda! A mais bela!
A mais bonita de todas as mulheres!
Oiá descobriu sua beleza nos espelhos de Oxum.
Oiá se encantou, mas também se assustou:
era ela mais bonita que Oxum, a Bela.
Tão feliz ficou que contou do seu achado
a todo mundo.
E Oxum Apará remoeu amarga inveja,
já não era a mais bonita das mulheres.
Vingou-se.
Um dia foi à casa de Egungum e lhe roubou o espelho,
o espelho que só mostra a morte,
a imagem horrível de tudo o que é feio.
Pôs o espelho do Espectro no quarto de Oiá e esperou.
Oiá olhou no espelho e se desesperou.
Tentou fugir, impossível.
Estava presa com sua terrível imagem.
Correu pelo quarto em desespero.
Atirou-se no chão.
Bateu com a cabeca nas paredes.
Não logrou escapar nem do quarto
Nem da visão tenebrosa da feiura.
Oía enlouqueceu.
Oiá deixou este mundo.

Obatalá, que a tudo assistia, repreendeu Apará
e transformou Oiá em orixá.
Decidiu que a imagem de Oiá nunca seria esquecida por Oxum.
Obatalá condenou Apará a se vestir para sempre
Com as cores usadas por Oiá,
levando nas joias e nas armas de guerreira
o mesmo metal empregado pela irmã.“(Prandi, 323-325)

Não há uma maneira única de se analisar um mito, tudo vai depender da perspectiva escolhida e ainda que se escolha fazer uma análise antropológica, por exemplo, as possibilidades continuariam infinitas, essa infinitude é uma das características da narrativa mitológica. Pretendo „beber“ de todas as fontes para fazer a minha análise.

Oxum e Oiá são divindades do panteão afro-brasileiro (iorubá). Oxum é a divindade das águas doces e é uma figura feminina ligada à beleza, à doçura, à persuasão e perseverança feminina, porém como é comum na mitologia afro-brasileira, Oxum é também guerreira e belicosa. Estes últimos adjetivos, que aliás também  são características de todas as outras divindades femininas (talvez com a excessão de Nanã, que ainda que não guerreie, é ainda assim poderosa e (des)temida) não constituem uma incongruência, na mitologia afro-brasileira. Ao contrário da mitologia grega, ser guerreira não quer dizer negar ou abdicar da feminilidade (pelo menos em parte como a análise há de mostrar).

Oiá é a divindade dos ventos, está ligada à sensualidade feminina, é extremamente combativa e é a maior companheira de dois Orixás guerreiros: Ogum e Xangô. É Oiá quem sopra o vento para que Ogum possa trabalhar com mais eficiência na forja e é Oiá quem sempre corre em socorro de Xangô quando este está em apuros. Porém, tanto Ogum, quanto Xangô, tiveram que esconder a capa de búfalo de Oiá para que ela ficasse com eles. Oiá ganhara a capa de pele de búfalo do Orixá Exu, com a qual ela se transformava em búfalo e saía em andanças pelo mundo. Os chifres de búfalo são símbolos de virilidade. Virilidade que os companheiros de Oiá toleravam, mas que tinha ainda assim que ser escondida, controlada.

Percebemos que, apesar da mulher guerreira não ser um problema, a liberdade da qual não abdica Oiá (que aceita se casar com Xangô, mas se recusa a morar com ele, tomando ele assim Oxum por segunda esposa), é entendida como uma qualidade que deve ser exclusiva do homem. Tanto que somente quando Oiá se despe da pele de búfalo, somente quando se despe dessa virilidade, que só pode pertencer ao homem, ela é reconhecida por Ogum e Xangô. A mulher-búfalo não é reconhecida pelos homens porque eles estão cegados pela imagem da mulher idealizada que criaram e que nos mitos é representada por Oxum.

Oxum, a Bela, como diz o mito acima, representação da mulher idealizada, é doce, delicada, bonita e ardilosa. Alguém que é forte, mas que ilude com sua aparente fragilidade. Todas estas características servem para confirmar a imagem idealizada da mulher numa sociedade patriarcal. A doçura e fragilidade são máscaras impostas pelo patriarcado, que acusa dissimulação feminina para poder lidar com o conflito, que a imposição dessa máscara desencadeia neles.

São estas duas imagens do feminino dentro de uma estrutura patriarcal que se encontram no mito acima. Ao se contemplar no espelho de Oxum, Oiá reconhece pela primeira vez sua feminilidade como tão legítima quanto a da irmã e se surpreende. Sua beleza, aliás, se sobrepõe a de Oxum é transcendente, vence a morte no final. Quando Oxum põe a morte no espelho de Oiá ela está tentando impor à irmã o outro lado da máscara da feminilidade idealizada que ela mesma tem que carregar: a feiura. É interessante perceber como mesmo não se reconhecendo como tão bela como Oxum, Oiá, antes de experimentar o espelho da irmã, parecia estar muito satisfeita com suas qualidades, ou com aquilo que ela reconhecia como belo e feminino em si mesma. Somente a proibição de co-existência das diferentes feminilidades numa só mulher é que desencadeia o conflito interior.

A narrativa mítica, apesar das aflições representadas, oferece, não obstante, um final promissor, pois Oiá transcende e vence a morte transformando em Orixá. E aquilo que parecia inconcebível, a união de feminilidades tão antagônicas se torna possível: quando Oxum Apará, o Orixá, vem ao Aiê festejar com seus filhos, ela veste cor-de-rosa e traz as ferramentas de latão, atributos de sua irmã Oiá.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked. *