Para a negrada que subiu a montanha comigo…

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18765829_10207549616098609_2660462309022797811_n (Foto: Facebook/Fernanda Carvalho)

Por Fernanda Carvalho*

Foi um final de semana e tanto para a Porto Alegre negra. Sim, existe uma cidade que é negra e é sobre ela que vou escrever. No início do mês de junho de 2 a 4, o Theatro São Pedro, tradicionalíssimo, no coração do centro da cidade, recebeu a peça O Topo Da Montanha, com Lázaro Ramos e Taís Araújo. Fui convidada a fazer a escalada pouco tempo antes do grupo de sábado sair, depois de passar a tarde em um evento do coletivo  Nonada – Jornalismo Travessia, daqueles que fazem a gente sair com a energia renovada.

Lá fui eu… e minha alegria já começou na fila de entrada. No evento de pouco antes que comentei, mencionamos que quando estávamos na faculdade, éramos tão poucos negros que servíamos de referência. “Onde é a biblioteca?” “Tá vendo aquele negro de mochila ali? Vire a direita depois dele que você vai ver um prédio azul… é lá”. Na fila do São Pedro, fácil de identificar por ser destacadamente branco (e não só nas paredes) essa referência deixaria qualquer um totalmente perdido. Porque éramos muitos. Muitos! Os cabelos black power estavam ainda mais altos, os turbantes supercoloridos e os olhos brilhavam. Não tenho dados, mas ouso dizer que nunca um espetáculo mobilizou tanto o público negro naquele teatro.

18921871_1475545285863367_106396332374583472_n(Foto: Facebook/Lázaro Ramos)

A peça é inegavelmente maravilhosa, sim… mas preciso confessar que o que me levou ao topo foi o espetáculo da plateia, a presença de tantos iguais ao meu lado. Nos vimos no palco, mas estávamos por todos os lados e isso me fez concluir que, apesar da atuação impecável de Lázaro e Tais, a negrada gaúcha (pra usar um termo do texto do espetáculo) também deu show. Não foram poucas as vezes que me peguei correndo os olhos pelas galerias para apreciar o que também acontecia ali.

O casal que personifica a representatividade negra brasileira hoje não significa tanto para nós por mero descuido. A energia deles juntos é inexplicável. Tanto que, para mim, pessoalmente, o texto da peça nem precisava estar falando de Martin Luther King e das questões em razão das quais ele fez sua vida e que causaram sua morte. Eu poderia estar assistindo a uma comédia sobre os conflitos do dia a dia de um casal, que, estar diante deles, me impactaria talvez da mesma forma.

Mas o texto era sobre as últimas horas de Martin, escrito por mãos negras, produzido por mentes negras e protagonizado por talentos negros, o que já é raro no teatro. Poder assistir a isso, em um local tão elitizado sem ser a constrangedora minoria, que estamos acostumados a ser nesses espaços, teve um gosto que eu nunca havia sentido.

Entre as características cruéis e próprias do racismo, costumo destacar que ele é burro. Isso também foi constatado antes mesmo do furacão passar. Os ingressos se esgotaram muito antes da chegada de Taís e Lázaro por aqui comprovando que se o comércio, as produções culturais, a mídia e a publicidade continuam ignorando metade da população é por burrice. No Brasil, a gente não pode ainda se dar o luxo de consumir só o que nos representa, mas quando há identificação a gente se joga.

Não conheço a realidade do público em outras cidades pelas quais O Topo da Montanha passou, mas reconheci muitos sorrisos, cumprimentos com a cabeça, abraços que troquei naquela noite (e coloco tudo isso na lista de gratidão também) e sei que entre nós, carregar o bastão da resistência e da luta contra o preconceito racial é rotina. Assim como provam as lágrimas derramadas durante os aplausos finais, também choramos com certa frequência. O protagonismo era nosso no palco, mas a novidade estava em ele ser nosso também com tanto poder e força do lado do público.

Foi uma noite que teve rosto, identidade, cor, orgulho e cheiro. Ainda agora consigo sentir o cheiro bom que a junção do melhor perfume que cada um escolheu para viver aquele momento deixou no ar. Ainda bem que consegui chegar a tempo para acompanhar vocês na subida. Como dizem por aí, a graça da realização está em aproveitar a caminhada para chegar até lá… fazer essa jornada ao lado de vocês foi realmente lindo e curtir a vista do topo foi indescritivelmente especial porque vocês também estavam lá.

*Jornalista e apresentadora do programa  Nação da TVE-RS, uma das idealizadoras da TV Preta, colabore

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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