Pitanga e o país que poderia ter sido

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Documentário sobre o ator notável provoca ao dar ao personagem a condução da narrativa. E também por sugerir, em tempos sombrios, outro Brasil: dionisíaco, erótico, miscigenado e justo.

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Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Antonio Pitanga é um ator intuitivo, vigoroso, desses aos quais se costuma conferir o epíteto de “força da natureza”. No caso dele, o clichê se justifica. Em mais de cem filmes, telenovelas e minisséries, ele encarnou, sempre com notável energia, escravos rebeldes, sambistas, bandidos, pescadores, feirantes, macumbeiros – e muito mais raramente profissionais liberais e cidadãos de classe média, o que não é de estranhar num país ainda tão dilacerado pela desigualdade racial.

Como retratar, num documentário, as várias dimensões desse singular artista baiano, que despontou no cinema novo e marcou presença em terrenos tão díspares como o teatro de vanguarda paulista, as escolas de samba cariocas, a militância política, as relações afro-brasileiras e as novelas de televisão?

Sujeito e objeto

O caminho escolhido pelos diretores Beto Brant e Camila Pitanga foi fazer um filme com Antonio Pitanga, mais do que sobre Antonio Pitanga. Em Pitanga, é o próprio ator que conduz a narrativa, revisitando os lugares onde viveu, reencontrando as pessoas com quem se relacionou profissional ou intimamente, rememorando passagens conhecidas ou obscuras de sua trajetória. Em vez de entrevistado, ele é entrevistador. Em vez de objeto, sujeito.

O resultado é um filme vívido, pulsante, que evita a frieza do registro documental, museológico, e também o tom de homenagem, quando não de hagiografia, que costuma permear os documentários alicerçados em depoimentos de “cabeças falantes” sobre o personagem retratado.

Entremeando as memórias evocadas por Pitanga e seus interlocutores, vemos cenas de seus filmes, peças de teatro, telenovelas, intervenções públicas, num tecido audiovisual tão envolvente que nem percebemos de imediato que essa exposição está organizada em blocos temáticos nem um pouco rígidos, antes novelos que se interpenetram do que propriamente blocos.

Amor e luta

Há, portanto, uma construção orgânica, que potencializa as várias facetas do protagonista em vez de aprisioná-las em compartimentos estanques. Da juventude em Salvador, com suas feiras, terreiros de candomblé e aulas de teatro, passamos sem perceber ao caudaloso capítulo das namoradas, companheiras e amantes, que vão de uma surpreendente Maria Bethânia até a militante comunitária e ex-governadora do Rio Benedita da Silva, passando pela atriz e modelo Vera Manhães, mãe de seus filhos Camila e Rocco.

Outro “novelo” dos mais densos é o da presença negra no cinema e na televisão, com Pitanga trocando ideias e relatos com seus colegas negros de várias gerações (Lea Garcia, Milton Gonçalves, Zezé Motta, Lázaro Ramos). Sem ressentimentos, mas também sem condescendência, essas conversas amenas acabam por traçar uma história de luta constante contra a discriminação.

Com a mesma simpatia irresistível, o mesmo afeto e o mesmo humor, Pitanga conversa com grandes nomes da arte e da cultura (Zé Celso, Caetano Veloso, Paulinho da Viola etc.) e com anônimos feirantes, pescadores, mães de santo. É a encarnação viva de um sonho feliz de país, um país solar e dionisíaco, erótico e miscigenado, livre e justo. Assistir a Pitanga é viajar durante uma hora e meia por esse território imaginário que poderia ter sido – e quem sabe um dia ainda venha a ser – o Brasil.

Melhores do ano

Está em cartaz até 19 de abril no CineSesc, em São Paulo, o tradicional Festival Sesc Melhores Filmes, que exibe dezenas de produções que se destacaram no ano anterior, com base numa ampla votação da crítica e do público.

Nesta sua 43ª edição (é o festival mais antigo de São Paulo), o grande premiado nacional foi Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, o mais votado tanto pelos críticos como pelos espectadores nas categorias filme, direção, roteiro e atriz (Sonia Braga). Na seara internacional, houve uma fragmentação maior. A crítica escolheu O filho de Saul, do húngaro László Nemes, e o público optou por A garota dinamarquesa, do britânico Tom Hooper. O melhor diretor, segundo o público, foi Alejandro Iñárritu, por O regresso; para a crítica, foi Denis Villeneuve, por A chegada.

Mais importante do que a premiação, porém, é a nova oportunidade de ver, numa das melhores salas de exibição paulistanas, filmes notáveis que muita gente deixou de ver por um motivo ou por outro, como O cavalo de Turim, de Béla Tarr, O botão de pérola, de Patricio Guzmán, e Ela volta na quinta, de André Novais, entre muitos outros, ou rever clássicos absolutos como Crepúsculo dos deuses, de Billy Wilder, O poderoso chefão, de Francis Coppola, e Lawrence da Arábia, de David Lean. São duas semanas de uma festa ininterrupta do cinema.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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