Poeta, músico e ensaísta Ronald Augusto lança livro “Entre uma Praia e Outra”

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O lançamento do livro  ocorreu no primeiro dia do mês de setembro em Porto Alegre e reforça a obra do autor entre os principais poetas dedicados à temática da literatura negra brasileira

Com uma delicadeza singular Ronald trata a poesia negra com fluidez e leveza em suas obras. (Foto: Santiago Fontoura/Divulgação)

O belíssimo livro publicado pela editora Ates & Ecos do poeta Ronald Augusto, intitulado ‘’Entre uma praia e outra’’. O livro conta com prefácio de Guto Leite e posfácio de Erre Amaral. A fotografia da capa é de Fabiano Scholl, o projeto gráfico de Roberto Schmitt-Prym e a coordenação editorial de Lucas Krüger. Editora Artes & Ecos, de Porto Alegre. O lançamento ocorreu no dia 1° de setembro, no Vidal Café, em Porto Alegre.

Sobre Ronald Augusto

Ronald Augusto nasceu em Rio Grande RS, 1961. É poeta, músico e ensaísta. As principais temáticas presentes em seu repertório intelectual referem-se à poesia contemporânea e à vertente negra na literatura b r a s i l e i r a . É uma das maiores vozes da poesia negra brasileira, sendo um destaque absoluto no Rio Grande do Sul. A t u a l m e n t e , R o n a l d  Augusto realiza palestras e oficinas/cursos abordando assuntos comomúsica, poéticas contemporâneas, literatura negra e poesia visual. Entre 2007 e 2012, manteve, ao lado do poeta Ronaldo Machado, a Editora Éblis,voltada para a poesia. De 2009 a 2013 foi editor associado do website Sibila (www.sibila.com.br). Tem colaboraçõ e(resenhas e artigos de cultura e arte) nos cadernos Cultura do Diário Catarinense, Correio do Povo e do jornal Zero Hora. Dá expediente no b l o g P o e s i a – P a u ( w w w . p o e s i a -pau.blogspot.com) e é colunista do site do jornal Sul 21 – (sul21.com.br/jornal).

Publicou os livros Homem ao Rubro, 1983; Negro 3 x Negro (com Paulo Ricardo de Moraes e Jaime da Silva), 1983; Disco (com I. Hingo), 1986; Kânhamo, 1987; Puya,1987; Vá de Valha, l992; Confissões Aplicadas, 2004; No assoalho duro, 2007; Cair de Costas, 2012; Oliveira Silveira: poesia reunida (organizador), 2012; Decupagens Assim, 2012; Empresto do Visitante, 2013; Mnemetrônomo, 2014; Nem raro nem claro, 2015; À Ipásia que o espera, 2016 e Subir ao mural, 2017.

Generosa e inflexível

(texto do Prefácio de Guto Leite)

Escrever a apresentação para um livro de poemas do Ronald Augusto é, antes de tudo, compartilhar da responsabilidade de fazer com que a leitora ou o leitor leve pra casa a obra de um dos maiores escritores contemporâneos do país e que por vários motivos, que vêm ao caso, não goza desse estatuto. Entre uma praia e outra é mais um dos grandes livros recentes do poeta, só que mais robusto, um ponto de chegada de um trabalho cerrado e de excelência. O que o faz chave para a leitura deste tempo, ouso dizer, são suas radicalidades. A primeira: ao investir na independência da palavra em relação ao que expressa e da forma poética em relação ao mundo. O poema não se coloca como continuidade de nossas vidas, mas nos objeta. A segunda: ao tratar de mesma forma o leitor.

O poema não embala o leitor. O poema não se curva ao leitor. O poema não serve ao leitor. O poema é um outro. O leitor precisa sair de si para desvendar os termos, a disposição dos versos no espaço da folha, as construções intrincadas decorrentes de uma apreensão complexa das coisas, o mundo do outro, que se abre; e será tão recompensado como nós ao conhecermos verdadeiramente o que não nos é familiar. A terceira: ao não reduzir os temas de que trata para que se tornem amplamente compreensíveis ou amealhem simpatias. Os amores, a violência, o racismo, a tradição, nada é extraído da integridade da 7 experiência humana, sendo portanto mais fortes do que se agitados na condição de bandeiras. Quarta: para conversar com Marx, o tomar sempre das coisas pela raiz, que é o próprio humano. Sua poesia decorrede uma posição desembaraçada de olhar, avessa às correntes, aos modismos, ao beija-mão costumeiro que forja as panelas do mundo literário nacional.

Se me fiz entender, o que gostaria de frisar é que nos últimos anos, na poesia do Ronald, há uma notável acumulação, em grau que não vejo ocorrer em nenhuma outra poética que acompanho. Enquantooutras autoras e outros autores facilitam o trabalho do leitor, “dão pezinho” ou “dão uma mãozinha”, como se diz, ou uma ajuda que vem de cacoetes não de todo conscientes a esses autores, com a poesia de Ronald, especialmente neste livro, é preciso encarar o poema, sua própria forma desnaturaliza o gesto de ler e interrompe a maneira mais ou menos sonâmbula em que vivemos. Não raro paro a leitura à cata de um dicionário para precisar o termo e volto com um problema ainda maior, já que os sentidos dos versos se multiplicam. Quando vencemos o poema, o poema não é vencido, porque deixa indissolúvel uma composição cheia de pontas. Não é isso a vida, afinal? Salvo engano, põe em questão inclusive essa estrutura de vencedores e vencidos, que marca até mesmo a linguagem usual, pragmática, instrumentalizada, a serviço da prática.

Saio do livro Entre uma praia e outra, de quatro leituras espaçadas do livro (que condição extática e incômoda esta de escrever a apresentação para um grande livro de um grande poeta!), com a sensação de que ele está cheio da impossibilidade de reduzir a vida a seus usos. Há “vitórias” de Pirro, há boas “derrotas”, há maravilhosas contemplações do que seria o intervalo entre algo importante e outro algo importante, há flagrantes de momentos cruciais, há o homem tentando pegar o tempo com a mão. É, por extenso, a matéria da vida, da língua, da história, dos amores e dos crimes que nos constituem. Sua condição de grande poeta negro brasileiro não é reforçada nem apagada. É. O título também diz isso, eu acho. O que há entre uma praia e outra? O mar, dirá o leitor apressado. Será que é a única resposta possível? Vamos de novo, e de novo, e de novo. Penso que é mesmo extraordinário uma poética ser concomitantemente radical e cheia de matizes, generosa e inflexível. Abra o livro, é o que posso sugerir. Depois é contigo.

O livro está a venda no site da editora com entrega gratuíta para todo o pais: www.artesecos.com.br/roanldaugusto

3 poemas do livro

1 – léguas de nuvens enublam

a manhã sobre a terra de gamboa

à maneira do malungo

vislumbro alguns círculos acima

à toa e também indiferentes

às pautas da fiação-ficção presa

aos postes

andorinhas e mesmo que

pesem suas alas (dar de ombros):

bloco sin rayas

vaias de praias errabundas

sequestro de epicurismo

desavença entre trampo

e trampas

4 – escamas de

cerâmica barro

talhado esbarrado nos cantos

coalho

de matéria escura

pretume de massa maneirosa

vem dar

à mão que amalgama

6 – andorinhas durinhas

no frio dos fios

encrespam suas penas para

espantar o demorado molhado

da chuva e

naipe num golpe de leque

arreganham as asas

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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