Povo de terreiro é povo trabalhador

By / 10 meses ago / Política / No Comments

Marcha reúne centenas de adeptos de matrizes africanas pelo décimo ano em Porto Alegre. (Foto: Luís Pedro da Rosa Fraga)

Por Hendrix Silveira *

Foi para o trabalho compulsório que homens e mulheres de diversas etnias africanas foram tomados de seus territórios entre os séculos XVI e XIX e foram transladados, sem o seu consentimento, num dos episódios mais vergonhosos da História da humanidade. Tudo isso para benefício da Europa e do enriquecimento daqueles que detinham o poder econômico no continente branco.

A formação dos terreiros no Brasil, em Cuba e no Haiti se deu como uma estratégia de propagação dos valores civilizatórios africanos nestes espaços, mas também como resistência política à escravidão. No Haiti serviu para a organização da Revolução de 1804 estabelecendo uma rede por todo o país tendo o vodu como centro das ações políticas e militares que deflagraram a abolição da escravatura neste país. No Brasil os terreiros também foram espaços de resistência. Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador-BA foi pessoalmente debater com o então presidente Getúlio Vargas, sobre as perseguições policiais ao povo de terreiro durante o período em que foi ditador.

Hoje a luta é cotidiana e os governos populares acolheram amplamente as demandas de nosso povo. Contudo, o golpe político-midiático que destituiu a presidenta Dilma Rousseff de seu cargo inaugurou uma série de ações políticas que levaram ao desmantelamento de direitos conquistados tanto pelos movimentos sociais, quanto pelo trabalhista.

Uma comunidade terreiro não é isenta da política. De fato o apedeutismo político de nosso povo amplamente difundido e reforçado por uma cultura elitista da política, faz com que não busquemos fortalecer as ações políticas que nos favorecem.

O discurso recorrente entre os batuqueiros é o de rechaço às questões políticas, esquecendo aqueles que no passado lutaram. O fato é que isso apenas garante o espaço para que outros segmentos da população tomem as decisões por nós. Os batuqueiros são uma parcela da sociedade e têm o dever cidadão de acompanhar os processos políticos e verificar quais são os projetos que lhe beneficiam como coletivo, pois nossa visão de mundo é comunitária. Não podemos ficar alheios aos acontecimentos políticos que visam a nos subalternizar, desmontar direitos adquiridos e até nos calar.

Há dez anos promovemos a Marcha Estadual Pela Vida e Liberdade Religiosa, no dia 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa, criado em 2007 em honra de Mãe Gilda, Iyalorixá que fundou em 1988 o Ilê Axé Abassá de Ogum, Terreiro de Candomblé localizado nas imediações da Lagoa do Abaeté, bairro de Itapuã em Salvador e que morreu após um infarto causado por uma manchete em jornal evangélico que usou sua imagem criminosamente. A cada ano temos um tema mobilizador e o deste ano foi Povo de Terreiro é Povo Trabalhador: pela garantia de direitos, por um estado laico e democrático. Este tema pretendeu visibilizar que o povo de terreiro não é apenas religioso, mas também ocupante de vários postos de trabalho. A manifestação pretendeu expressar a defesa dos direitos trabalhistas e previdenciários, cujas reformas propostas por Temer afetarão diretamente o povo de terreiro. Para isso tivemos apoio do CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, das CEBs – Comunidades Eclesiais de Base, da FLD – Fundação Luterana de Diaconia, dos Povos da Floresta – comunidade pagã e da CUT – Central Única dos Trabalhadores.

Entrementes, a proximidade da data da mobilização com a do julgamento do ex-presidente Lula pelo TRF 4 fez surgirem vozes dissonantes entre o povo batuqueiro que alegaram uma partidarização da Marcha, o que a descaracterizaria. Essas “vozes” somadas ao tempo instável e a cultura política que falei mais acima ajudaram na desmobilização do povo, fazendo com que essa marcha se tornasse a de menor número de participantes. Mas não baixamos a cabeça. Seguimos marchando.

O golpe político que retirou Dilma do poder e que quer impedir Lula de ser candidato nas próximas eleições não é um ataque às pessoas de Dilma e Lula ou mesmo ao Partido dos Trabalhadores, mas sim um ataque aos projetos políticos implementados por eles. Projetos esses que deram poder ao povo empobrecido como o batuqueiro, diminuindo o abismo social. Também é um atentado à Democracia, pois tenta impedir que uma pessoa se candidate por meio da politização da justiça.

Lula foi condenado sem provas contundentes. Foi condenado apenas por indícios e convicções. Se um ex-presidente aclamado pelo povo e por lideranças internacionais sofre essa penalidade e dessa forma, o que pode acontecer conosco, reles mortais na fila do pão?

O povo de terreiro não pode ser alienado das questões políticas, pois elas nos atingem diretamente. Devemos ser partícipes e construtores da política nacional e local, caso contrário seremos meramente massa receptora de tudo o que outros segmentos decidirem.

*Babalorixá da Comunidade Tradicional de Matriz Africana Ilé Àṣẹ Òrìṣà Wúre. Doutorando e Mestre em Teologia e História pelas Faculdades EST.Bolsista CAPES. Docente da Secretaria Municipal de Educação de Canoas. Assessor Técnico do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do Rio Grande do Sul.Membro do Grupo de Pesquisa Identidade (EST).

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked. *