Sobre reis e rainhas, Wakanda e o complexo de sinhô e sinhá da intelectualidade brasileira

Cristian Ribeiro em sua análise, desconstitui as normas impostas pelos grupos socialmente dominantes que impõem aos outros suas normativas e ideologias impedindo a constituição ou desqualificando a circulação de saberes, de manifestações intelectuais que se constituam fora dos padrões hegemônicos e de controle das elites. (Foto: Arquivo pessoal)

Por Cristian Ribeiro, do portal Geledés

Uma das formas mais cruéis do racismo, por sua sutileza – quando não dissimulação – e impactos profundos gerados em suas vítimas, é impedir que os grupos discriminados constituam e exerçam a sua própria voz, que reconheçam e valorizem as pluralidades e diversidades de suas próprias sapiências, perspicácias, valores e saberes enquanto grupo étnico-racial e social.

Só podendo ser validado e respeitado, de maneira inconteste e legitimadora, os saberes e razões das elites, ou os que ela considera significativos, como se estas fossem as únicas portadoras da virtude intelectual, enquanto senhora das verdades científicas e dos padrões sociais e políticos que organizam o funcionamento de uma sociedade. Em outras palavras: “saber é poder/poder é saber” por isso um grupo socialmente dominante impõe aos outros suas normativas e ideologias impedindo a constituição ou desqualificando a circulação de saberes, de manifestações intelectuais que se constituam fora dos padrões hegemônicos e de controle das elites. Constatação que instigou a desenvolvermos uma reflexão sociológica: “Por qual motivo a autorrepresentação negra incomoda tanto a intelectualidade brasileira?”

A nossa indagação ante essa realidade teve como justificativa a ocorrência de uma série de análises negativas desenvolvidas por setores da academia brasileira sobre as repercussões que o lançamento – e conteúdo – do clipe documentário “Black is King”(BEYONCÉ, 2020; 2019) da cantora  Beyoncé e também sobre a repercussão ao falecimento do ator Chadwick Boseman, intérprete do príncipe T’Challa/Pantera Negra do fictício reino africano de Wakanda, causaram em grupos sociais afro-brasileiros (NAHAS, 06/09/2020). Demonstrando o quanto a maioria de nossa intelectualidade é alienada as “coisas” de seu próprio povo. Revelando uma profusão das mais variadas formas e tipos de “carteirada intelectual”, disfarçadas por um discurso refinado, centrado em análises aparentemente neutras, para justificar em seu final os seus respectivos pontos de vista sobre como as populações negras devem buscar se fazer representar em suas manifestações sociais e culturais.

Nesse sentido, que fique muito nítido para evitar-se compreensões equivocadas, o exercício da crítica ou da discordância – estética, conceitual ou ideológica – referente  a qualquer fenômeno social é mais que bem-vindo e salutar para o estímulo a um debate intelectual, a um processo de compreensão acerca das  infinitas pluralidades e possibilidades que formam a chamada realidade. Mas interpretamos enquanto – no mínimo – questionável o ato de imposição de uma compreensão unilateral de mundo, acerca de como o “outro” deve ser, agir e pensar. Que não questiona a “verdade  histórica” enquanto uma maneira de dominação e alienação de um grupo perante o outro para manutenção e reprodução de uma ordem social excludente, assim não rompendo os padrões racistas, classistas eurocêntricos de sociedades como a brasileira.

De uma maneira geral, essas análises intelectuais tiveram por característica a condenação das formas de expressões culturais negras em retratar uma África idealizada de reinados invencíveis e dinastias poderosas, uma Wakanda mitológica em que todos são reis e rainhas, pois ao agirem assim está sendo constituída uma falsa percepção de realidade, uma ideologização acerca de algo que nunca existiu.

Com tais atitudes contribuindo para uma deturpação da “verdade histórica”, para assim dar vazão a constituição e perpetuação de uma série de estereótipos racistas referente não só ao continente africano, mas também as suas populações afrodescendentes em diáspora. Ou seja, a intelectualidade brasileira optou em não questionar o racismo endêmico e estrutural das ditas modernas sociedades ocidentais, nem as suas mazelas e perversidades, escolhendo responsabilizar as próprias vítimas como fomentadoras desta realidade, das próprias atrocidades que as atingem, justamente pelo fato destas não aceitarem os padrões eurocentristas sociais e históricos que lhe são impostos há séculos.

O que nos possibilita deduzirmos que a busca das populações africanas ou afrodescendentes em desenvolver as mais variadas representações intelectuais, artísticas e políticas sobre as experiências em ser negro perante uma sociedade ocidental ordenada, estruturada e desenvolvida a partir da exploração das riquezas culturais e naturais do continente afro, e da escravização da força intelectual e física de seus povos originais e descendentes, causa um mal estar aos padrões de sociabilidades hegemônicas ocidentais, pois estas acabam por gerar saberes e percepções que buscam constituir uma melhor compreensão destas populações marginalizadas sobre si mesmas.

Uma postura de eterna continuidade discriminatória, que se manifesta: através da grita de um de seus aparelhos intelectuais mais duradouros e fiéis, a intelectualidade acadêmica, quando diante de expressões ou fenômenos de origem afro que fogem ou não se alienam ante a sua lógica social excludente; e do silêncio perante a naturalização de se representar e problematizar as populações negras, de como os seus sujeitos humanos devem agir ou pensar, a partir dos simbolismos associados a estes, quando a sua humanidade passa a ser balizada através de representações estereotipadas do “negro bonachão”, do negro vadio/malandro, do negro bêbado, do negro lascivo – escravo(a) sexual ou amante possessivo(a) -, do negro traficante, do negro raivoso, incontrolável em sua raiva e “animalidade natural”.

Um silêncio, uma omissão intelectual que acaba por dar validade a estas séries de representações sociais depreciativas e preconceituosas como se fossem verdades incontestes e não enquanto manifestações de um ideário racista que acaba por infligir uma série de danos psíquicos a autoestima e a relação de pertença as populações de origem africana, um destruir histórico e cultural da sua própria condição de humanidade. Sendo por isso que o buscar de uma África que relembre, que posicione em cena a representação simbólica de uma ancestralidade de reis e rainhas não é uma elitização, alienação ou mascaramento da “verdadeira história”, mas é sim a busca por romper padrões de comportamento que não reconhece, ou não valoriza, as complexidades e riquezas das civilizações africanas.

O(a)s sujeito(a)s constituintes dessas produções artísticas e intelectuais afrodiaspóricas, sabem que a escravidão se faz presente a historicidade africana – assim como a de todos os continentes – e passou a ser marcada na pele e na alma a todos os seus descendentes, como uma herança forjada em ferro quente que nunca apaga, desde a implementação do modelo moderno de escravidão mercantilista (pré-capitalista) imposta as diferentes civilizações do continente mãe pelos invasores-exploradores europeus.

Por isso não precisando, ou até mesmo não aceitando, que as suas misérias, agruras e dores da vida precisem ser ensinadas, contextualizadas ou teorizadas por pessoas que não foram/são por elas infligidas a mais de cinco séculos cotidianamente. E nem que a intelectualidade acadêmica –  enquanto representante de um “espaço branco que deixa exposta as hierarquias de poder, [que] diz e determina o que é conhecimento, quem está habilitado a falar e quem será realmente ouvido” (BARBOSA, 2020: 13) – digam como se deva, a partir destas realidades, estruturar novas formas e possibilidades de resistências e sobrevivências ante a um sistema que literalmente se alimenta e reproduz com a carne e o sangue africano e afrodescendente.

Pode-se discordar, insistimos, sobre como algumas dessas expressões-manifestações de origem afro são conceitualizadas ou como propõe discutir a realidade social em que se encontram inseridas, mas exercer de sua posição social para deslegitima-las por não concordar com o que elas abordam e nem como problematizam situações ou realidades as quais você possuí outra perspectiva, ou não reconhece enquanto significativa, é de uma falácia intelectual sem tamanho. É o uso dessa condição para definir o que possuí valor, sendo comum a esta postura elitista e racista sempre procurar desqualificar os saberes e potências daqueles aos quais não considera enquanto pertencentes aos “seus”, por isso sendo os “outros” e portanto sem direito  a voz, opinião e, muito menos, buscar a elaboração de conjuntos de referências e saberes que ouse ir contra os poderes intelectuais constituídos.

Entre tantas facetas existentes da “verdade histórica”, as populações afrodescendentes espalhadas em suas infinitas diásporas, optaram em recontar, retrabalhar as suas histórias pelo prisma de que todos são enquanto reis, rainhas, guerreiros e quilombolas, que carregam em si as riquezas majestosas da ancestralidade africana, enquanto referências e reinvenções de novas formas de resistências, em cada gesto, em cada expressão, por vezes ingrata, quase sempre árdua, mas incessante na luta por uma sociedade socialmente justa e racialmente democrática.

E se sinhôs e sinhás travestidos de intelectuais, da Casa-grande acadêmica, não dão conta dessa nova realidade talvez seja a hora de quem sempre teve por habito analisar e classificar os outros, olhar-se no espelho e analisar a si mesmos e questionar as suas próprias atitudes os privilégios étnicos-raciais, de classe e gênero que a branquitude lhe oferece no chamado “mundo ocidental”.

E acreditamos que esta possa ser a maior contribuição que tais produções de cunho afro possam desenvolver na contemporaneidade social brasileira, ao gerar visibilidade e problematização, uma série de debates referentes a ocorrência de uma produção afrodiaspórica questionadora as origens e historicidades do nosso racismo, ao mesmo tempo em que destaca a ocorrência  e estruturas de variadas concepções e formas de negritudes. Ao mesmo tempo em que tensiona e questiona a primazia da elite intelectual brasileira em se colocar como definidora e validadora em relação as experiências afro-brasileiras e sobre o que é ser um negro(a) no Brasil.

Para uma intelectualidade tradicionalmente acostumada em representar e legitimar os interesses de “nossas” elites, tal postura política e a qualidade estética-discursiva imagética dos antes sem voz e sem visibilidade é desafio que incomoda, tensiona e fragiliza os alicerces de sua arrogância e prepotência intelectual. Não existindo discursos, hasthags e postagens “vidas negras importam” que mascarem essa realidade.

Não analisar a si mesmo e o seu papel enquanto agente reprodutor e legitimador de um sistema racista, e ao exercer olhar crítico e inquisidor, no sentido de depreciação, apenas para quem não aceita em seguir tal ordenamento histórico-social é fácil. Nesse sentido, gostaríamos de ver o narcisismo intelectual brasileiro eurocêntrico encarar a si mesmo por esse mesmo prisma, em reflexo que mostre as suas próprias imperfeições e incompletudes.

Se essa sanha investigativa só é válida quando se aplica para os “outros” e não a “mim” ou aos “nossos”, tudo não passa de retórica vazia – por mais elaborada e requintada que se faça parecer – em arrogância (alienada ou (in)consciente?), que acaba por justificar um processo de superioridade intelectual que a “nossa” Academia reproduz e legitima através de sua branquitude, do seu privilégio étnico-racial e, por vezes, de gênero, por um discurso racialista e classista que subsidie a perpetuação histórica de nosso racismo estrutural.

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