Sociedade argentina é racista e nega sua população afrodescendente, diz ativista

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Macri aumentou a conotação negativa para os imigrantes, que são colocados como uma variável de culpabilidade da situação econômica que vive o país

Por Beatriz Chileanschi, do OM

São argentinas, cubanas, colombianas, uruguaias. Profissionais. Vivem em Buenos Aires. As une sua condição de mulheres afrodescendentes, e tal como elas mesmas sublinham, sua definição como anti-imperialistas, anti patriarcais e anticolonialistas. E com essa convicção armaram a Associação Simples “Tertúlia de Mulheres Afro-latino-americanas”.

“Tertúlia é uma associação simples, que tem três anos de funcionamento. Há estatutos, distribuição de cargos e cumprimos toda as formalidades”, conta Susana Villarrueta, psicóloga de profissão e atual presidenta.

Na atualidade, Tertúlia está integrado por oito mulheres, das quais seis são suas fundadoras. Cada uma das integrantes tem um percurso em diferentes âmbitos de influência, o que enriquece o intercâmbio e o debate.

“A narrativa de Tertúlia tem que ver com a análise da situação das mulheres afro na Argentina — explica Villarrueta, especialista em Direitos Humanos. Desde os anos 80 havia muitas organizações que defendiam os direitos dos afrodescendentes, lutando por sua visibilidade. No entanto, na maioria dessas organizações que estavam lideradas por mulheres, e que conseguiram muito, não se falava da problemática das mulheres”.

Socompa (Crédito: Horacio Paone) 

Confira a entrevista:

Socompa – A liderança era de mulheres, mas não se falava das mulheres? 

Tertúlia tem participado com exposições e documentos em Congresso como o do “Feminismo pós-colonial” na Universidade de San Martín ou na Faculdade de Filosofia e Letras na Universidade de Buenos Aires onde mostraram os processos organizativos nos coletivos negros. Outra das integrantes da organização, Any Ocoró Loango, foi a compiladora do trabalho Negritudes e africanidades.

O dia 8 de novembro foi instituído como o “Dia Nacional dos Afro-argentinos e da cultura afro”, graças a uma Lei sancionada em 24 de abril de 2013. A data não é arbitrária, corresponde à morte de María Remedios del Valle, conhecida como “Madre Pátria” entre as hostes revolucionárias e a quem Manuel Belgrano conferiu o grau de Capitã por sua valentia no campo de batalha.

Em 2013 foi sancionada uma lei que as reconhece em sua origem e cultura, mas hoje se reprime os senegaleses que vendem nas ruas. Sentiram alguma mudança no tratamento desde que Macri assumiu? 

Susana Villarrueta:  Sim, evidentemente há uma diferença porque durante o kirchnerismo, enquadrado na política de Direitos Humanos houve muitos avanços. De fato, a Lei 8 de novembro foi sancionada em 2013. Havia um acompanhamento da política pública de Direitos Humanos ao trabalho das organizações. Era nacional e popular, agora estamos em outro contexto.

Lisset González Batista: Desde a subida de Mauricio Macri aumentou a conotação negativa para os imigrantes, que são colocados como uma variável de culpabilidade da situação econômica que vive o país. É claro que a migração que não é europeia, que é dos países limítrofes ou africano como o Senegal. Nesse sentido, foi montada toda uma campanha midiática contra as pessoas empobrecidas negras, a maioria afrodescendentes. Os migrantes passaram a ser os que não aportam, os que roubam os recursos do Estado ou ocupam os postos de trabalho, então o Governo exerceu represália contra este setor. O tema, no entanto, é mais profundo, passa pelo racismo. A sociedade argentina é uma sociedade racista, e com isso vêm outras variantes como a xenofobia. O problema do racismo não é de esquerda nem de direita, é um tema de concepção que vem acontecendo pela escravidão e pelo colonialismo e tudo isso permanece no presente. A sociedade argentina é negadora de sua população afrodescendente e isso dá uma pauta de qual é sua visão para com o “outro negro”. “Os negros não são nossos”, como disse o presidente, “são um problema do Brasil” e isso vai sedimentando no discurso social sobre o negro, se reproduz e marca o tema da diferenciação. A conotação racista está presente quando se fala, inclusive sem percebê-lo. O que está em último lugar na escala social é o negro. Como o atrasado, o incivilizado.

Susana Villarrueta: Há um racismo institucional que se manifesta nas diferentes estruturas do Estado que tem causas histórica, mas há que reconhecer que durante a época  do kirchnerismo, sob a guarda-chuva dos Direitos Humanos foram realizadas ações como o Censo de 2010 que, pela primeira vez, incluiu uma pergunta sobre auto identificação em relação à afrodescendência e isso foi produto do trabalho das organizações, mas também porque de parte do Estado houve uma habilitação para isso. Eu trabalhei na secretaria de DDHH e fui co autora de uma publicação que se chama Descendência de afro descendência e Direitos Humanos. Nesse período foi declarada uma Lei de Migrações, ainda vigente, que diz que a migração é um direito humano. Hoje, a repressão que sofrem fundamentalmente os companheiros senegaleses com o tema da venda ambulante, recrudesceu; antes não era assim. Então, não é a mesma coisa.

Susana Villarrueta (Foto: Horacio Paone)  

A repressão recrudesceu agora com Macri como presidente; não era assim quando ele era Chefe de Governo da Cidade de Buenos Aires 

Susana Villarrueta: Sim, quando ele era Chefe de Governo havia um limite. Agora a repressão está habilitada.

“As mulheres negras, igual que as mulheres indígenas, agrega Villarrueta, partimos de uma concepção teórica que é o tema de interseccionalidade, cunhado por uma acadêmica afro, Kimberle Crenshaw que significa que há várias opressões. As mulheres padecemos várias pelo único fato de ser mulher, mas as mulheres indígenas e afros temos outro componente,vinculado ao étnico, ao racial. Angela Davis dizia que, em um princípio, não estava de acordo com o feminismo porque as mulheres negras têm outra história que vem da escravidão. A mulher negra sempre trabalhou, sempre esteve no espaço público, então como me identificar com uma luta que está pedindo o que sempre sucedeu, embora da pior maneira.

Lisset González Batista (Foto: Horacio Paone)  

Lisset González Batista: O tema do feminismo também tem que ver com o que foi escrito por mulheres de classe média branca como Simone de Beauvoir e nós não éramos consideradas, por ser negras, nem seres humanos. Houve uma desumanização das pessoas negras, e especialmente da mulher negra à qual se somou o tema da hiper sexualização e a objetivação de seu corpo que podia ser abordado sem pedir licença. Nós tivemos que começar uma luta a partir de reconhecimento de nossa própria humanidade quando já na Europa se estava falando da posição da mulher na escala social. Então, a mulher negra primeiro teve que lutar pelo reconhecimento como ser humano, porque o colonialismo nos despojou dessa condição, e depois reconhecer-se como mulher. A dinâmica vai se conformando a partir de outro lugar, e por isso é que muita mulher negra não adere ao feminismo, porque ele não chega a representar suas necessidades; a isso se acrescenta que também há discriminação racial dentro dos movimento feministas onde se reproduz a mesma matriz de opressão que há na sociedade. A pergunta é: até que ponto o movimento me representa?

Susana Villarrueta: Por isso as novas gerações, tal como colocou Angela Davis na Espanha, sustentam que o feminismo tem que ser antirracista, ou não é feminismo. Os Encontros Nacionais de Mulheres só aceitaram ter uma comissão de mulheres afrodescendentes há 3 anos.

Aqui e em outras partes do mundo foram realizadas oficinas para que a mulher afro aceite seu cabelo pixaim. Isto também forma parte da luta contra a colonização? 

Susana Villarrueta: Tal qual. Por isso nos apresentamos como movimento anticolonial. Nós falamos em nossas oficinas sobre o cabelo pixaim e foi comovedor. Conto a minha experiência pessoal. Quando éramos meninas nos obrigavam a ter o cabelo amarrado para que não fosse visto desarrumado. Eu odeio as tranças, porque minha mãe me fazia, porque além de parecer mais arrumada, era possível poder entrar nessa sociedade majoritária de outra forma. Mas isso é uma anulação da questão identitária. As mulheres afro em particular e os afro em geral nos vemos obrigados a reconstruir a identidade para poder valorizá-la. Nosso logotipo tem cachos, significa o cabelo pixaim, mas também reunião, encontro. O cacho é o círculo.

Muitas mulheres que trabalhavam como escravas nos campos faziam penteados especiais que marcavam caminhos para sair da escravidão e chegar a um quilombo que era um lugar de resistência.

Lisset González Batista: O cabelo é um símbolo de resistência para nós como é o uso do turbante que tem que ver mais com um posicionamento visual nos espaços cotidianos da sociedade, de atributos que sempre foram apreciados de maneira negativa. O cabelo solto também é uma forma de liberalização e de resistência, pois também foi proibido à mulher escrava já que se considerava que era um fator de erotismo ao homem branco com tudo isso de que a mulher negra sempre está disposta a ter relação sexual.

Quando a gente se veste, já está comunicando. Por isso nós enfatizamos que cada pessoa tenha o cabelo como preferir, que se quer alisar que seja por opção, não porque esteja mal o pixaim. Amar o cabelo, que sempre foi um motivo de discriminação.

Susana Villarrueta: Que cada uma possa se sentir orgulhosa daquilo que é. O olhar do outro tem condicionado a vida e a identidade de muitos e muitas afrodescendentes.

Desconstrução, resistência, empoderamento, identidade, fortaleza definem a integrantes da cultura afro. Uma luta contra os estereótipos e um elemento central, o Ighya, o turbante que dá cor, mas que, sobretudo, é símbolo das mentalidades colonizadas. Como essas reuniões de cabelos pixaim e negritude orgulhosa, que entre tertúlia e tertúlia continuam em sua luta contra o racismo e a exclusão.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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