Sotaque haitiano em salas de aula de Porto Alegre

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Quatro alunas vindas do Haiti estão se alfabetizando em escola municipal na Zona Norte da Capital

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Loudjina e Ariolanda em sala de aula ajudam os colegas a encontrar seu país no mapa Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Enquanto conduz a aula de Geografia, a professora Jaqueline Radaelli desafia os alunos a apontarem no mapa a localização do Haiti. A nação caribenha, devastada por um terremoto em 2010, está mais presente do que nunca na vida dos alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Décio Martins Costa, doBairro Sarandi, Zona Norte da Capital.

Na turma do quarto ano, após os coleguinhas terem dificuldade em encontrar a ilha da América Central, Ariolanda Alexandre e Loudjina Saola Mytile, ambas com dez anos, são convidadas a apontar a localização do seu país de origem. Os olhos se surpreendem com o caminho que elas e outras duas alunas da escola percorreram para chegar até Porto Alegre. Agora, o objetivo do aprendizado é diminuir cada vez mais estas distâncias.

Construindo uma vida nova a 5,8 mil km do país de origem, Ariolanda, Loudjina, Johnica Gabriel, nove anos e Midasendji Jeune, sete anos, _ as duas últimas alunas do terceiro ano _ trazem um desafio novo para as salas de aulas da Décio Martins. As meninas falam crioulo, língua baseada no francês mas com influências do inglês, espanhol e línguas africanas, e estão sendo alfabetizadas em português.

Língua é o maior desafio

Da esquerda pra direita as meninas haitianas: Johnica Gabriel , 9 anos, Loudjina Saola Mytile, 10 anos, Midasendji Jeune, 7 anos e Ariolanda Alexandre, 10 anos Foto: Carlos Macedo/Agência RBS

Na escola desde outubro do ano passado, Johnica e Midasendji têm mais facilidade no português. Loudjina e Ariolanda, que chegaram à escola neste ano, ainda enfrentam dificuldade com a língua e ganham atividades específicas conforme o conteúdo dado em sala de aula. Loudjina, inclusive, foi alfabetizada em francês. Embora não entendam o significado de todas as palavras ditas em sala de aula, as professoras consideram importante elas participarem das mesmas atividades, mesmo que adaptadas.

Espertas, todas demonstram que já tinham frequência escolar no Haiti. Na Matemática, a dificuldade é menor devido à familiaridade com os números. Para apoiá-las em sala de aula, cada uma senta ao lado de “ajudantes”, coleguinhas mais atentos à aula e ao conteúdo, sempre aptos a dar um auxílio imediato.

Andriele Rodrigues, nove anos, é ajudante da Ariolanda. Ela conta que, entre outras coisas, ajuda a menina a identificar o som de letras nas palavras.

Atendimento especial para alfabetização

Além de terem aula regular, à tarde, os alunos haitianos, uma vez por semana, pela manhã, fazem aulas de reforço em laboratório, para o desenvolvimento da linguagem oral e da escrita em língua portuguesa.

– A gente faz um atendimento diferenciado. Trabalho com jogos e com coisas lúdicas. Elas já estão fazendo a relação sonora, é muito recompensador ver a evolução delas – conta a professora do laboratório de aprendizagem, Jussara Bernardi.

O quarteto também participa de oficinas de projeto ambiental e música. O objetivo desta rotina, segundo o diretor Getúlio Fagundes, é mantê-las o maior tempo possível dentro da escola, convivendo com professores e alunos brasileiros.

– A gente percebe que elas são participativas. Seus pais vêm na escola quando a gente chama – comenta.

O que mais gosta no Brasil? A escola!

Das quatro haitianas, Johnica é a que melhor se comunica com colegas e professores. Ao DG, confessou que quer ser professora e que não pensa em voltar para seu país. O fascínio pela escola é tanto que, ao ser questionada sobre o que mais gosta no Brasil, disparou, sem pensar muito:

– A escola e as professoras.

Ela chegou à Escola Décio Martins em outubro do ano passado. Segundo a professora Maria Carolina Colombo dos Santos, Johnica já reconhece o som das letras, mas ainda precisa enriquecer o vocabulário, pois tem dificuldade em relacionar o nome às coisas.

– Ano passado, quando ela chegou, ficava agarrada no meu braço, literalmente. Parecia que, com isso, iria conseguir aprender mais rápido. Hoje, alcança tudo que propomos, é carinhosa e me procura em sala de aula – diz a profe.

É Johnica que auxilia professora na tradução durante as aulas do laboratório. Até o momento, ela simboliza o avanço possível no resto do grupo. Ao chegar na escola, não falava uma palavra em português e começou a aprender do básico: desde o nome do material escolar até como dizer “presente” na hora da chamada.

– Elas precisam de um olhar diferente, paciência e carinho – considera Maria Carolina.

Há pelo menos 22 haitianos nas escolas municipais

Dados de um levantamento preliminar da Secretaria Municipal de Educação (Smed) apontam que atualmente existem 22 haitianos matriculados nas escolas da rede municipal da Capital, incluindo a Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Um estudo mais preciso da Smed deve apontar o número total de estrangeiros nas escolas municipais. Por enquanto, há conhecimento de cerca de 50 estrangeiros matriculados, vindos também do Uruguai, Argentina, Peru eAfeganistão.

As Haitianas
Johnica Gabriel, nove anos, no Brasil desde setembro de 2014
Midasendji Jeune, sete anos, no Brasil desde setembro de 2014
Loudjina Saola Mytile, dez anos, no Brasil desde março de 2015
Ariolanda Alexandre, dez anos, no Brasil desde dezembro de 2014

Fonte: ZH

 

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