Subir ou descer, eis a questão?

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Por José Carlos Ferreira dos Reis (Zé Reis)* – Foto: Divulgação

O carnaval de Porto Alegre passa, mais uma vez, por um momento crítico, que podemos tratar como o chamado ponto de inflexão (geometricamente é o ponto onde uma curva muda de direção), resta saber se a virada será para cima ou para baixo.

Muitos temas se misturam, entretanto, acho que quatro são os principais, neste ano de 2015: 1. A questão do Porto Seco, 2. A credibilidade das Direções das Entidades Carnavalescas, 3. O financiamento do Carnaval e 4. A questão da transmissão dos desfiles.

Abaixo, abordaremos cada um deles.

Porto Seco 11 anos depois.

O primeiro carnaval do Porto Seco foi em 2004, desde lá esperamos e lutamos pela conclusão do mesmo, mas não houve avanços, ao contrário. Hoje, quando circulamos pelos barracões vemos que os mesmos precisam de uma boa manutenção e quem sabe até ampliação. Lembremos que, a época, os barracões foram o principal ponto que sustentaram o deslocamento dos desfiles para aquele local. Era uma condição imposta pelos dirigentes carnavalescos de então, que o futuro local de desfiles tivesse uma área de barracões, para abrigar as alegorias e estruturas utilizadas pelas escolas, que até então ficavam ao relento ou abrigadas em locais impróprios, impedindo a guarda apropriada e reutilização. Até hoje, a quem destaque a proximidade dos mesmos ao local de desfiles como a grande vantagem que o carnaval de Porto Alegre tem sobre outras localidades.

Não vamos esconder, aqui, o fato de que a localização do Sambódromo só foi parar naquele local, por a comunidade carnavalesca ter perdido o debate político e cultural na cidade, porém, esse fato é consumado e não vemos como trazer o carnaval para uma área mais central, como alguns ainda defendem.

Aliás, este é um dos grandes dilemas presentes na questão do carnaval. O local não gerou empatia por sua localização, agravando-se e ampliando pelo fato de ainda não estar concluído.

O fato é que até hoje, ele é “engolido”, mas não aceito em geral. Muitos formadores de opinião, a cada ano voltam ao tema e criam a ilusão de que seria possível abandonar aquele local. Não é verdade, e não passa de mera ilusão e empulhação.

Some-se a isso, a imperícia da administração municipal que ano após ano, durante o carnaval anuncia que irá construir arquibancadas e terminar o complexo. Ledo engano e fantasia, para dizer o mínimo.

O correto é que aqueles que ainda nutrem esperança e lutam pelo crescimento do evento, devem adotar uma postura incisa e continuar a exigir a solução final. Se alcançarmos a conclusão do complexo, poderemos começar a reverter à falta de empatia e atrairmos ainda mais público para os desfiles.

Sem credibilidade, não se alcançam objetivos

A questão da credibilidade é mais um tema delicado e explosivo que envolve as entidades carnavalescas. Em regra, os dirigentes das entidades são mal vistos e geram desconfianças por seu comportamento. A partir de fatos ou boatos são identificados como gestores que não cumprem contratos e acumulam dívidas. Além disso, alguns resultados e classificações de desfiles recentes tanto no grupo especial, como nos grupos de acesso e intermediário, geraram descontentamentos, desconfianças e até denuncias.

A criação de outras entidades, em paralelo e em substituição a AECPARGS, não melhorou a imagem do carnaval, ao contrário, demonstrou mais divisão e disputas pelo “butim” dos recursos.

Algumas eleições de diretoria de escolas de samba foram objeto de querelas judiciais, evidenciando a falta de organização e má conduta interna.

Em suma, são questões que perpassam o carnaval e que afastam muitas pessoas da convivência com as escolas de samba, causando, por óbvio, um afastamento do carnaval como um todo.

Sem resgate da credibilidade, mesmo que haja avanços em outros setores, não teremos um carnaval de todos e para todos.

De onde vêm e para onde vão os recursos

Na última década o espetáculo carnavalesco, porto-alegrense, apresentou um crescimento o qual, entretanto, não se manteve.

Apesar das críticas quanto à localização, no Porto Seco, é inegável que uma das razões foi o palco novo e os barracões, bem como, a esperança na conclusão do projeto. Isto permitiu a atração de alguns novos investidores e patrocinadores, investimento na transmissão do espetáculo pela televisão. Ao olharmos o histórico recente, veremos que tivemos grandes enredos com fortes patrocínios (correios, arroz namorado, Internacional, prefeituras do Interior, Brasília, África do Sul, Ibravin e outros). Isso se verificou, principalmente, entre os anos de 2008 a 2011.

Fica a pergunta, por que não se manteve esse aporte? Rapidamente, encontro duas respostas, as quais não esgotam e nem são as únicas. Em primeiro lugar, houve uma relação de quase “mecenato” nesse período, com forte componente político, e que como esperado foi fugaz e passageiro. No entanto, não há como esconder que esse processo ensinou/abriu os caminhos para a busca de apoio através das leis de incentivos culturais. Em segundo, a falta de transparência e comprovação na utilização dos recursos terminou por afastar, ou no mínimo, trazer cautela a novos patrocinadores.

Sabe-se, também, que algumas das fontes de recursos teriam origem duvidosa, porém trata-se de tema delicado e faltam elementos para discorrer.

A criação da LIESPA foi uma tentativa de limpar o caminho, uma vez que a AECPARS é uma entidade com ficha negativa, por dívidas e ações judiciais. Porém, mais uma vez a falta de credibilidade e de transparência transformou a LIESPA, rapidamente, não na salvação, mas no exemplo de algo negativo.

Nos últimos dois anos, houve a procura de um patrocinador “master”, através da LIESPA, cujo principal instrumento seria a possibilidade de venda exclusiva de bebidas aos frequentadores de camarotes e frisas.  A ação foi frustrada por reação dos adquirentes daqueles espaços e está chamando a atenção para diversos “relacionamentos comerciais” que existem durante o evento.

Sem a pretensão de fazer todo o debate neste texto, tratamos de dois aspectos.

Na busca de um valor de apoio entre R$ 200.000,00 e R$ 300.000,00 (por falta de transparência não se sabe o valor exato) a LIESPA tem procurado estabelecer aquela limitação. O questionamento que tem se feito é que a venda de camarotes e frisas é feita pela Prefeitura, logo não pode a LIESPA impor algo aos adquirentes. Além disso, se tomarmos o valor máximo que se tem notícia, o aporte para cada escola seria de R$ 30.000,00 reais, donde se conclui que o objetivo principal de tal medida não tem haver com a qualificação do carnaval como é alegado.

O que abre o debate para indagar-se sobre quem explora as copas e os bares do complexo, quem concede licenças para instalação de bancas de venda de cigarros, quem habilita as bancas da “praça de alimentação”? Aqui também, ouve-se pelos “corredores” que há cobrança de taxas para ocupação de tais espaços. Se, é verdade, quem cobra e qual o destino dos recursos.

Enfim, são questões que precisam ser esclarecidas, urgentemente, até por que a principal fonte de recursos é o cofre público de forma direta ou indireta.

Onde a gente se vê

O carnaval de 2015 foi “escondido” por falta de transmissão no principal canal de TV do estado, mesmo que a cobertura sempre tenha sido insuficiente.

Abrigada em um contrato de duração de 5 anos, a RBS detêm os direitos de transmissão, e neste ano optou por transmitir via TV COM, deixando o seu principal canal ligado a rede nacional, transmitindo o evento de São Paulo. Com essa decisão ocorreu uma significativa diminuição nos investimentos de transmissão e uma péssima qualidade na mesma.   Isso causou grande decepção e muitas reclamações.

A desculpa pública foram desacertos contratuais com a LIESPA sobre a grade de desfiles. Contudo, pelas notícias que se têm sobre uma crise financeira e de investimentos da RBS, a questão dos custos de transmissão também deve ter pesado na decisão.

Seja qual for o motivo verdadeiro, a decisão foi equivocada, pois no momento que existe um contrato de parceria, todos são responsáveis por manter o mesmo. “Esconder” a transmissão na TV COM, foi um prejuízo para todos e especial ao Carnaval.

Como ainda existe mais um ano de contrato, no mínimo, deve-se iniciar um debate sobre a questão da transmissão de 2016 e se buscar alternativas caso a RBS mantenha a mesma posição. Não é de menos lembrar, que o contrato não implica em pagamentos de altos recursos e sim em mídia.

De outra forma, diante da expansão e das possibilidades criadas pelas redes sociais, é de se pensar na criação de canais via internet para transmissão, em tempo real, dos desfiles.

As respostas e encaminhamentos a estes questionamentos é que definirão se o Carnaval vai SUBIR OU DESCER.

*Carnavalesco, Economista e Especialista em Ciência Política

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