“Toda literatura é militante”, diz Conceição Evaristo na Feira do Livro

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Por Felipe Silveira, do O Mirante

A escritora mineira Conceição Evaristo, vencedora do Prêmio Jabuti em 2004, esteve na Feira do Livro 2017 nesta sexta-feira (8) para falar de literatura e também sobre questões ligadas à negritude, que marcam profundamente sua obra. Para a autora, toda literatura é militante.

“Ou é uma militância para conservar o status quo, as coisas como estão, ou é uma literatura para mudar as coisas. O meu texto busca apresentar outra realidade, busca mudar as coisas. Então, podemos chamar ele de militante, sim”, disse a autora. “A arte não pode ser só entretenimento. Ela tem função social, e eu não abro mão disso”.

A visita à cidade teve agenda cheia. Na parte da manhã, Conceição esteve em uma escola para conversar turma sobre uma série de trabalhos que os estudantes fizeram sobre sua obra. À tarde, coletiva de imprensa e bate-papo com o público da feira. No turno da noite, haverá mais um bate-papo, desta vez acompanhada do escritor indígena Cristino Wapichana.

À plateia, ela falou sobre a experiência de ter uma infância e boa parte da vida marcada pela pobreza. “Não quero fazer nenhum elogio da pobreza, pois não é bom ser pobre. É muito ruim ser pobre. A pobreza pode ser um lugar de aprendizagem se você conseguir superar essa condição de pobreza. Eu gosto de marcar isso para ninguém sair daqui falando que é bom ser pobre”, explicou a autora, para aborda questões da pobreza em seus livros, mas não quer que ninguém romantize essa condição.

Ela citou situações da própria experiência de vida que marcam o racismo na sociedade brasileira e comentou aspectos do presente. “A nossa juventude negra está sendo dizimada. Mas a gente sabe que isso é um processo histórico, que não começa hoje. Talvez estejamos em um momento que esse processo se acentua”, disse.

Para ela, ações afirmativas não podem ser pensadas como presentes e como privilégios aos indígenas e afro-brasileiros. “Elas tem que ser lidas como um processo de justiça”, afirmou.

A autora, hoje com 70 anos, gosta de frisar que há uma dificuldade muito grande para autoras negras conseguirem publicar seus trabalhos. Sua primeira obra foi lançada quando ela tinha 44 anos, em um trabalho coletivo ligado ao grupo Quilombhoje. Seu primeiro livro solo foi publicado apenas em 2003.

Conceição conta que, no começo da carreira, era lida especialmente em círculos de mulheres negras e aos poucos sua obra foi levada para sala de aula por professores. A mudança maior, no entanto, veio quando seu livro foi escolhido para a prova da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2008. “Isso expandiu o público de maneira muito forte”, contou.

Sobre esse público mais abrangente, Conceição lembrou de uma experiência que teve ao conversar com uma turma de um colégio rico de Belo Horizonte. “Ali eu não reconhecia os meus meninos”, disse, em referência à falta de jovens negros na turma. Nessa ocasião, um dos ouvintes se aproximou e disse: “Eu nunca tinha percebido, mas até ler o seu livro eu não sabia onde ficava o quarto de empregada da minha casa”.

A autora pede que a comoção causada pela sua literatura nesses momentos deve ser levada para a vida de cada um. “É fácil reconhecer que estamos em uma sociedade racista, mas cada um precisa pensar em como lida com isso na sua vida”, destacou.

Entre a coletiva de imprensa e a conversa com o público, Conceição ainda contou que se incomoda um pouco quando a discussão fica focada apenas no debate social racial e não discute aspectos da literatura. “Eu sinto falta de discutir o meu processo criativo, de saber em qual trecho, em qual personagem, você viu um significado, alguma ideia”, revelou.

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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