‘Tudo que nós tem é nós”: uma reflexão sobre a luta antirracista em 2020

Midiã Noelle. (Divulgação)

Por Midiã Noelle, do Correio 24 Horas

Com chuva de granizo em Salvador, na data 1º de Janeiro, o 2020 anunciava como seria a sua chegada: de surpresas. Os cristais de Xangô que caíram do céu nos mostrava que neste ano, a justiça se faria presente de formas evidentes e outras não tão óbvias. Um destes caminhos foi o intenso debate sobre a pauta da equidade racial e da reparação histórica. E foram muitos os estopins para a consciência (negra) coletiva que se deu nesse momento histórico global: a pandemia do coronavírus (covid-19); o assassinato de George Floyd e Breonna Taylor e as passeatas do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam); o posicionamento de astros do esporte contra o racismo (Lewis Hamilton, Neymar, Demba Ba, Ângelo Assumpção); às marcas, empresas e artistas, entrando na luta antirracista; e ao assassinato de João Alberto Silveira Freitas pelo segurança da empresa Carrefour, que na tradução do francês para o português significa nada mais que Encruzilhada.

(Foto: Reprodução)

E falando em encruzilhada, como bem nos relembrou Emicida no seu documentário Amarelo: É Tudo para Ontem (Netflix), “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”. Esse ditado yorubá nos mostra como esse orixá mensageiro utilizou da nossa maior ferramenta comunicacional, os nossos celulares, para registramos e questionarmos tudo e não nos perdermos na insanidade mental do confinamento (para os privilegiados), da exposição, para os que não tinham outra opção se não pegar o buzão, e de todas as consequências que a condição pandêmica trouxe para o mundo, mas em especial para aqueles e aquelas mais vulnerabilizados/as.

O celular foi o maior instrumento de registro das violências.  E o uso das mídias sociais (posts, lives, comentários, partilhamentos), dos impressos, da televisão e da internet como transmissor foram os aparatos de luta em meio à desesperança do novo tempo.

Em março, o mundo inteiro se deparou com a pandemia da covid-19 e a população negra, aquela que precisava seguir mantendo o sustento de cada dia, não teve outra saída a não ser seguir lutando pela sobrevivência. Afinal, se a criminalização da pobreza é diária e nossas vidas são rifadas e estamos jogados à própria sorte cotidianamente, nós sabemos conviver com a sombra da morte à espreita (apesar de tanto não e tanta dor que nos invade, como diria Lazzo Matumbi).

A pandemia só chegou para evidenciar ainda mais o abismo social e as desigualdades nos campos da saúde, moradia, educação, etc. E em junho, com a força do Black Lives Matter, e da influência dos Estados Unidos, o Blackout Tuesday, ou Terça às Escuras ocupou os perfis dos instagrams. Todo mundo de repente repetia a frase da Angela Davis: “ Não basta não ser racista, tem de ser antirracista”. Ok, valeu! Influencers ganhando seguidores, a pauta racial sendo discutida, famosos brancos emprestando seus perfis para dar visibilidade à causa. E até empresas, como a Magazine Luiza, fizeram ações pró-equidade racial.

O país também se voltou para assistir o Big Brother Brasil com um olhar mais crítico. Em sua 20ª edição, o programa teve como vencedora a médica Thelma Assis. Mulher negra, de origem simples, que enfrentou às adversidades para ter a profissão, e como sendo sempre a exceção, se tornou mais uma: milionária. A doutora fez história.

Ainda neste ano, a maioria dos realities do país contou com vitórias negras: Marina Gregory, no The Circle (Netflix), Victor Alves e Kauê Penna, nos The Voice Brasil e The Voice Kids (TVGlobo), respectivamente, e aquela que se você quiser “paz amém, mas se quiser guerra é só chamar”: Jojo Todinho, em A Fazenda (TV Record). E essa última, em especial, proporcionou boas reflexões sobre como negros e negras estamos interligados pela nossa memória ancestral e que não importa onde estivermos, ou nossas escolhas, não precisamos compactuar com a mansidão.

E dos votos dos realities, aos votos da vida real, as eleições de 2020 para prefeitos e vereadores (as) foi de ocupação. Até quem nunca assumiu a pauta racial, ou não se reconhecia como tal, passou a ser negra/o ao se declarar pardo e a afroconveniência virou pauta. Porém, apesar desse contexto crítico, tivemos coisas boas também no período eleitoral, como as mulheres negras que conseguiram garantir a ocupação nestes espaços de tomada de decisão política. Na capital baiana, por exemplo, tivemos a vitória histórica da mandata coletiva Pretas por Salvador, ou em Curitiba, que com 300 anos de Câmara Municipal nunca teve uma vereadora negra, mas agora sim, a Carol Dartora, assim como ocorreu com a vereadora eleita Camila Valadão em Vitória (ES).

Eleições com um pouco mais de perspectiva racial no Brasil. Mas ainda longe de ser o ideal. A lendária frase: Não vote em branco, vote no preto, de Abdias do Nascimento, ecoou com mais força, mas muito ainda precisa ser visto e revisto e feito. A Coalizão Negra por Direitos, por exemplo, que possui mais de 100 organizações negras envolvidas, foi extremamente feliz e certeira ao nos proporcionar um olhar atento para o governo federal com o manifesto da campanha Enquanto Houver Racismo, Não há Democracia no Brasil.

Como diria a socióloga Vilma Reis, a nova estética política é com as mulheres negras. E apesar dos avanços, e de toda onda negra de insurgência, que teve inclusive a socióloga como uma das linhas de frente, tivemos a decepção de não a termos  como candidata na disputa à prefeitura de Salvador como candidata do PT, que em sua aliança com o militarismo, optou pela major, que, apesar da bela trajetória no campo da violência contra as mulheres, foi convocada nos 45 minutos do segundo tempo (sim, não esqueço da chacina do Cabula e a frase desastrosa do atual governador da Bahia), para se filiar ao partido e marcar um gol. Apesar de tudo, mesmo não sendo escolhida, o Agora é Ela da filha de Xangô Vilma Reis e de toda rede de militantes negros/as e lideranças comunitárias ao seu redor, a missão foi cumprida: a representatividade estava dada com uma mulher negra concorrendo à prefeitura de Salvador.

E agora, ao final do ano e do texto, eu volto a falar do leonino Leandro, o Emicida.  Tudo que nós tem é nós! Não se engane. Mesmo com a comunicação a nosso favor nesse discurso racial, os algoritmos ainda são utilizados para nos manipular. E mesmo as empresas trazendo o debate da equidade para o trabalho, não podemos achar normal sermos a minoria, ou acharmos adequado sermos o “preto único” da organização. Como bem diz o filho de dona Jacira e o artista mais tocado na minha playlist: “se o coração é o senhor, tudo é África”, ou,  “enquanto a Terra não for livre, eu também não sou”. Siga firme, negro/a, vivo e orgulhoso/a.

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