Um Baile Bom: música, identidade e empreendedorismo negro

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Nas palavras da idealizadora da festa, Brenda dos Santos, o Baile é uma “pequena África”

34071536921_9c5899eaf3_zFesta realizada uma vez por mês em Curitiba completa dois anos na pista / Flávio Rocha

Por Juliana Cordeiro com colaboração de Paula Nishizima, do Brasil de Fato

A Sociedade Beneficente 13 de Maio, terceiro clube social negro mais antigo do Brasil com 128 anos, se torna palco de um jovem cheio de energia, música e muita convicção política: Um Baile Bom. Chegando à 21ª edição, o Baile já contou com a participação de 18 DJs convidados, com público de até 400 pessoas – capacidade máxima da Sociedade.Há três características que marcam Um Baile Bom. Uma delas é a diversidade musical. Há uma variação dos ritmos: começa no samba e finaliza no rap. A outra é o envolvimento do público, independente da idade e grau de familiaridade com a dança. Essa característica fica evidente nas batalhas de dança e passinhos coreografados pela organização para puxar o público à pista. A terceira grande marca é a estética negra, com uma afirmação do cabelo afro, de estampas coloridas (étnicas) e de símbolos nos vestuário que remetem ao continente africano.

Nas palavras de Brenda dos Santos, produtora cultural e idealizadora da iniciativa, o Baile é uma “pequena África”: “Com seus diversos povos, unidos no mesmo continente. Ainda que em meio a guerras, cheio de riquezas e histórias a serem preservadas e recontadas. Ele é território. Será o que erguermos dentro dele”.

Gabriel Santana, estudante de história e um dos integrantes da equipe do Um Baile Bom, é um dos responsáveis por embalar os passinhos (Foto: Flávio Rocha)

Para a coreógrafa Dayane Paixão, que frequenta o Baile há mais de um ano, a festa gera um sentimento de acolhimento. “Quando entrei na Sociedade 13 de Maio e comecei a ouvir as músicas de black music e outras. Isso me gerou muito conforto. Além de reencontrar amigos que há muito tempo eu não via, me senti em casa”, relata Dayane.

Empreendedorismo

A festa é um espaço de reafirmação da identidade negra que adquiriu caráter político após a 3ª edição, quando os organizadores viram que a maioria das pessoas que ficaram do lado de fora, em decorrência de fila, eram negras. “Foi quando começaram a ser elaboradas estratégias de acesso à comunidade negra. Desde bônus que davam prioridade na entrada, ao formato de hoje, que é através de vendas antecipadas”, afirma a idealizadora.

Da iluminação à venda de ingressos, em toda a realização do Baile há pessoas negras

Hoje, cerca de 80% dos ingressos são distribuídos para articuladores responsáveis pela venda. São profissionais autônomos e coletivos negros, que moram em bairros periféricos e na Região Metropolitana de Curitiba. Os outros 20% ficam disponíveis em pontos de venda físicos, internet e na portaria.

(Foto: Flávio Rocha)

A forma de geração de renda do Baile Bom é baseada no conceito de “Black Money”, concepção que defende a circulação de dinheiro entre a comunidade negra. Da iluminação à venda de ingressos, em todas as áreas há pessoas negras: é regra ao invés de vez exceção. As mulheres têm maior poder de decisão em virtude de ocuparem funções fundamentais à realização da festa, como DJs e produtoras. A equipe responsável por tocar a festa é composta por 17 pessoas, sendo oito mulheres.

Em dia de Baile, enquanto a dança não começa ou na pausa para recuperar o fôlego, é possível comprar produtos como turbantes, brincos e colares com estampas étnicas, ou conhecer outros serviços ofertados por profissionais negros. “A gente pensa no fortalecimento de uma economia preta como uma das formas de emancipação do nosso povo”, explica Brenda dos Santos.

 

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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