Um príncipe em Curitiba: conheça o futuro rei da Nigéria que mora na cidade

Gbolahan Ganiyu Oloruleke Anifowoshe, ou simplesmente Anny, tem uma marca de roupas feitas com tecidos nigerianos e leva uma vida comum em Curitiba. (Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo)

Por Gazeta do Povo

São quase 16h de uma quinta-feira quando Gbolahan Ganiyu Olorunleke Anifowoshe passa pela fachada de vidro de um café em Curitiba. Alto e magro, ele usa uma camisa xadrez de mangas compridas e jeans escuros. Nada na figura do nigeriano denuncia sua ascendência real. Não há seguranças protegendo seus passos ou mesmo fotógrafos correndo atrás de um flagra. Mas a verdade é que Anny, como se apresenta para facilitar a vida dos brasileiros, tem “90% de chance” de se tornar rei.

 

Ele só não vai assumir o cargo “se fizer algo muito, muito errado. Então serei tirado da linha de sucessão”, conta, rindo. Tímido, mas simpático, ele explica que essa não é uma missão tão extraordinária quanto pode parecer. Por isso, enquanto não é convocado a seus compromissos reais, leva uma vida comum em um edifício no centro de Curitiba.

É que a Nigéria, como outros países africanos, tem muitos reis. “Imagine o caso do Paraná. Fora Curitiba você tem Maringá, Londrina e outras cidades. Nosso reino é como se fosse Maringá ou Londrina. Porque há um outro rei que é o mais importante, é como se fosse o rei principal do Paraná”, compara.

Mas o que um príncipe nigeriano está fazendo no Paraná? A história é longa, mas a resposta é muito simples: em outubro de 2013, ele escolheu Curitiba para viver. Aqui, tem uma marca de roupas chamada Ása Omoluabi, que produz com tecidos importados diretamente da Nigéria. “Eu não vivo como um príncipe”, reafirma.

Discreto, ele prefere falar sobre futebol – torce pelo Arsenal na Inglaterra, onde viveu por dois anos, e pelo Internacional no Brasil -, literatura e questões que envolvem a percepção brasileira sobre os países africanos.

Anny e o sócio, Abiola Sulaimon Yusuf, mostram alguns dos tecidos que importam da Nigéria. (Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo)

Sangue real

Anny pertence à Família Real Balogun-Agbaje, do governo local de Epe, no estado de Lagos, na Nigéria. Isso está atestado pelo “chief” Alhaji Ganiyu A. Balogun-Agbaje em um documento que também afirma que ele é, de fato, um príncipe.

A linha sucessória é complexa, mas Anny tenta explicá-la de forma didática, enquanto conversa animadamente. “Meu avô teve oito esposas antes de se casar com a minha avó. O primeiro filho dessas oito esposas sempre foi uma mulher, e há uma lei que determina que as mulheres não podem herdar o trono. Então ele começou a ter muitas esposas porque suas esposas só tinham filhas mulheres.”

Assim, somente com sua nona esposa é que ele finalmente conseguiu um herdeiro. Aliás, dois, já que a avó de Anny deu à luz gêmeos. Um deles, o mais novo, é o pai de Anny. “Há muitos príncipes por lá, mas só um deles vai se tornar rei”, diz. Por direito, já que é o primeiro neto homem, ele é o herdeiro que deverá assumir o trono quando seu tio se for.

Quase plebeu

Embora tenha sangue azul, o príncipe não fala muito sobre sua condição de futuro rei. Tanto que muitos de seus amigos brasileiros só tomaram conhecimento do fato porque a esposa de seu sócio, a cantora curitibana Michele Mara, ajudou a espalhar a notícia. Não que para ela também não tenha sido uma grande surpresa.

(Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo)

Eu estava dando aulas de iorubá [o iorubá é um dos idiomas falados na Nigéria] para algumas pessoas e veio ao assunto a história nigeriana. E, em algum momento, falamos dos reis de lá e eu mencionei ‘ah, meu avô foi rei’. E Michele me disse ‘o quê?’”, diverte-se Anny. Desde então, ele diz, a amiga fala sobre o assunto em todo lugar a que eles vão juntos.

Não se trata de esconder suas responsabilidades com a realeza. Se ele não faz questão de que as pessoas saibam sobre elas é porque ele mesmo não pensa muito no assunto. “Imagine aquelas crianças na [família real da] Inglaterra, por exemplo. Agora elas são muito novas. Elas não pensam ‘eu quero ser rei’. Apenas vivem suas vidas normalmente e só vão pensar nisso se chegarem a precisar assumir o trono.” A maneira simples que ele tem de encarar os fatos faz a realeza parecer quase corriqueira.

Vida brasileira

Depois de passar uma temporada em Londres, onde tem alguns familiares, Anny precisou voltar à Nigéria devido ao falecimento de sua mãe. Como não queria ficar no país nem voltar para Londres, começou a pesquisar outros lugares para onde pudesse se mudar. Influenciado por amigos brasileiros que conheceu na capital britânica, acabou escolhendo o Brasil.

“São Paulo é muito parecida a Lagos, que é a cidade onde eu cresci. É barulhenta e cheia de gente. Eu queria uma cidade que fosse mais parecida com Londres. Então comecei a pesquisar e encontrei Curitiba.” Foi assim que ele chegou à cidade. Anny é casado com uma gaúcha com quem tem um casal de gêmeos de apenas três meses.

O que mais gosta em Curitiba é do clima, que lembra a frequentemente nublada Londres. Na capital paranaense, ele tem os mesmos problemas que muitos imigrantes vindos de países da África enfrentam. Um deles é a dificuldade que os brasileiros têm de entender que “a África não é um país”, como canta o rapper Emicida em sua canção “Mufete”. Tanto Anny quanto seu sócio, Abiola Sulaimon Yusuf, também nigeriano, reclamam por serem frequentemente confundidos com haitianos. “As pessoas chegam a falar francês com a gente, porque pensam que todos os imigrantes negros são de lá.”

Anny diz que o que mais gosta em Curitiba é do clima frio. (Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo)

O mundo está por fora

Em outra canção, o mesmo Emicida diz que “a África está nas crianças e o mundo? O mundo está por fora”. A conclusão não poderia ser mais verdadeira, dizem os amigos nigerianos. Quando se fala em “culinária africana”, “cultura africana” ou “música africana”, a maior parte das pessoas se esquece da imensa diversidade existente entre os mais de 50 países africanos.

“Se aqui mesmo, dentro do Brasil, há muitas culturas diferentes, por que a ‘cultura africana’ seria uma coisa só? Na Nigéria, por exemplo, nós temos muitos idiomas diferentes nas várias regiões. E não estou falando de sotaques, mas de línguas completamente diferentes. Então como é que se pode falar de uma ‘cultura africana’?”, questiona Anny.

Para ele, é necessário que o mundo ocidental comece a entender e respeitar a vastidão do continente africano. Tratar os países da África como um território único é também uma forma de preconceito.

“Sempre foi confortável para os ocidentais ver a África como um todo. Hoje somos um pouco mais sábios, mas aina parece uma tarefa impossível realmente compreender os números com que lidamos na África, diversidade cultural e diferenças sociais.

O continente africano é tão vasto, variado e rico em todos os sentidos. É fantástico e completamente incompreensível. Nada se compara a tudo isso, e ainda assim tentamos fazer tudo caber em uma pequena palavra de seis letras. É quase um insulto! É impossível! Nenhuma palavra pode abranger tanto assim.

Apesar das diferenças, eu mantenho a palavra. Mas vamos usá-la com cuidado para não esquecer que a África, os países, os povos e as culturas merecem toda a atenção aos detalhes que fazem cada um deles único.”

Daniel Ribeiro

22 anos, estudante de administração gestão pública.

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